“Gostaria de conseguir resultados em 60 dias, no máximo”, diz membro do comitê de teste com hidroxicloroquina contra coronavírus

Diretor médico-científico da EMS, Roberto Amazonas explica como serão feitos os estudos clínicos em pacientes em estado grave com o vírus, em parceria com o Hospital Albert Einstein 

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Hidroxicloroquina é usada por pacientes com lúpus, artrite reumatóide e casos de malária (Foto: Divulgação)

No máximo em 60 dias, deve-se ter o resultado da eficácia da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus (Covid-19). Essa é a expectativa do diretor médico-científico da EMS, Roberto Amazonas. O laboratório iniciará em breve, em parceria com o Hospital Albert Einstein, estudo clínico com pelo menos 500 pacientes em estado grave para atestar a eficácia do medicamento.

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A parceria da farmacêutica com o hospital permitiu desenvolver o protocolo exigido pelos trâmites legais, que foram submetidos à análise da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep), ligada ao Conselho Nacional de Saúde. A expectativa é de que em até 30 dias os testes clínicos possam ser iniciados.

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Primeiramente, os testes serão feitos em pacientes voluntários com estado grave da doença. Mas Amazonas informa que também está sendo elaborado o protocolo para aplicar o medicamento em pacientes com estado moderado de sintomas do coronavírus. A EMS, que doará toda a medicação ao Hospital Albert Einstein, também negocia parcerias com outros centros clínicos do país para expandir os estudos e ganhar agilidade nos testes.

Serão avaliados entre 500 e 600 pacientes voluntários, que serão divididos em dois grupos. O primeiro receberá doses de hidroxicloroquina por 10 dias. O segundo grupo será submetido ao mesmo medicamento por 10 dias, mas acompanhado de azitromicina, muito utilizada no tratamento de infecções respiratórias e também testada em estudo feito na França. Confira detalhes na entrevista a seguir.

Em que estágio estão os testes clínicos com a hidroxicloroquina para uso no tratamento contra o novo coronavírus?

A partir do estudo francês, que demonstrou que a hidroxicloroquina teve um potencial de diminuir a quantidade de vírus no sangue de forma mais rápida, a gente iniciou um contato com o Hospital Albert Einstein para discutir um protocolo. Nós estamos com esse protocolo já redigido e em fase de submissão ao Comitê Nacional de Ética em Pesquisa, posteriormente isso vai ser apreciado pela Anvisa para iniciar os testes clínicos. A gente a gente pode dizer que nós estamos em fase final de aprovação para início de administração da droga nos pacientes.

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Como esses testes clínicos serão feitos? Que pacientes serão priorizados?

Inicialmente, a gente vai tratar os pacientes graves da doença, um grupo recebendo a hidroxicloroquina e o outro grupo recebendo a hidroxicloroquina associada azitromicina. Porque no estudo francês havia um grupo que recebeu azitromicina e, embora o número de pacientes fosse pequeno, naquele estudo pareceu que associação com a azitromicina tinha um potencial de ser até melhor do que a hidroxicloroquina isolada. Então, nós estamos hoje doando ambas as medicações para o trial (estudo clínico) inicialmente o Einstein é o centro coordenador, mas estamos em contato com vários centros de pesquisas por todo o Brasil, no sentido de que o maior número de pacientes possam se beneficiar do tratamento e a gente consiga de forma mais rápida obter uma resposta definitiva sobre se esse tratamento é realmente eficaz, para que tipo de paciente e que dose.

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Quantos pacientes voluntários devem ser avaliados nesses testes?

Estamos programando incluir neste estudo entre 500 e 600 pacientes, o que é um número significativo de pacientes, porque a gente tem que lembrar que no estudo francês, por exemplo, só 20 pacientes receberam a hidroxicloroquina. Então, a ideia é a gente ter uma resposta muito segura se o tratamento funciona ou não. O número de pacientes foi calculado para ter uma resposta significativa. Vale ressaltar também que com esse número de pacientes a gente vai dividir e isso em análise interina e com 25% dos pacientes incluídos a gente vai fazer uma análise, mas nós não vamos esperar finalizar todo estudo para poder de divulgar para a comunidade científica se a droga funciona. Então, o quanto antes a gente conseguir ter uma sinalização se o tratamento é eficaz, nós vamos dar conhecimento à comunidade científica e das autoridades sanitárias do potencial benefício do tratamento.

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Como se descobriu a possível eficácia da substância no tratamento contra o coronavírus? Que experiências anteriores inspiram?

Inicialmente, os resultados vinham de evidências em células, o que a gente chama de estudos in vitro. Evidências de que a cloroquina não permitia a entrada de vírus nas células. Posteriormente, houve alguns estudos na China com a cloroquina, isso foi inclusive incorporado em recomendação do tratamento chinês, e em seguida esse estudo feito na na França. Tudo a partir desse dado in vitro nas células. Posteriormente, como a gente conhece o perfil de segurança da droga, pela gravidade da doença a gente acelera e passa por um tratamento do que a gente chama estudos em fase clínica. Aí a gente tem esse resultado, mostrando que a carga viral dos pacientes parece reduzir de forma mais rápida.

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No nosso estudo, a gente está procurando um tratamento por 10 dias. Tudo é muito novo, mas ao que parece a evolução da doença é bem rápida, e a gente precisa atuar de forma rápida.

Os estudos feitos pela China e pela França tiveram um número menor do que a amostragem que será empregada no estudo brasileiro?

É definitivamente muito menor, como eu frisei, foi um estudo com 24 pacientes, e a gente está propondo um estudo com um número significativamente maior. Inicialmente, com pacientes graves e, em seguida, um estudo com pacientes moderados, ambos com um número significativamente maior, o que deve trazer muita luz sobre o entendimento do papel da hidroxicloroquina e, eventualmente, da associação com a azitromicina.

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Quanto tempo de tratamento será necessário?

A maioria dos estudos está usando o tratamento ao redor de 7 a 10 dias. No nosso estudo, a gente está procurando um tratamento por 10 dias. Tudo é muito novo, mas ao que parece a evolução da doença é bem rápida, e a gente precisa atuar de forma rápida. Nesse tempo, a gente define o prognóstico do paciente.

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Quais serão os próximos passos, depois da conclusão dos testes clínicos?

Bom, após a coleta de dados e todas as análise dados, é coletado esse pool de dados e enviado à agência reguladora para apreciação desses dados. Estamos em contato com a agência para tentar fazer essa análise o mais rápido possível. Feita essa análise, a agência se pronuncia sobre a aprovação ou não para o tratamento da Covid-19.

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Qual o prazo estimado para que o medicamento, caso tenha eficácia comprovada, seja liberado para comercialização e prescrição contra o novo coronavírus?

Definição de prazo hoje é muito difícil, porque gente depende de todas as aprovações, mas a gente sabe que é urgente definir isso. Então, vamos tentar aprovar isso quanto antes. Eu gostaria muito que a gente conseguisse ter resultado dentro de um período de 60 dias, no máximo, para poder divulgar isso, pela necessidade que a gente tem de ter conhecimento e esclarecer sobre este potencial benefício.

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Desde quando a EMS fabrica medicamento com a hidroxicloroquina e no tratamento de quais doenças vem sendo empregado?

A EMS fabrica o produto desde 2019. Inicialmente o produto ele é registrado para uso de tratamento de malária e algumas doenças autoimunes, como artrite reumatóide e lúpus eritematoso sistêmico.

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Sobre essa procura que houve, levando a droga a esgotar nas farmácias, gostaríamos de frisar que não existem dados científicos que respaldem o uso profilático da hidroxicloroquina. Então, essa busca desenfreada pela droga vai deixar quem precisa sem tê-la.

Com a notícia de que a hidroxicloroquina apresentou resultados promissores no tratamento contra o coronavírus houve uma corrida às farmácias no Brasil para comprar o medicamento, com a intenção de se proteger contra o vírus. Qual sua recomendação nesse caso?

A gente recomenda realmente que o uso da droga seja feito sob prescrição médica. Sabendo da necessidade, a empresa inicialmente direcionou a sua produção para hospitais, porque os pacientes mais graves realmente estão no âmbito hospitalar. Na medida em que a gente tomou conhecimento desse potencial uso da droga, nós aumentamos internamente a nossa produção, buscamos todos os fornecedores de matéria-prima e estamos nos mobilizando para aumentar a produção e não permitir que o mercado fique desabastecido. Sobre essa procura que houve, levando a droga a esgotar nas farmácias, gostaríamos de frisar que não existem dados científicos que respaldem o uso profilático da hidroxicloroquina. Então, essa busca desenfreada pela droga vai deixar quem precisa sem tê-la. Recomendamos e estamos em linha com a recomendação da agência reguladora que isso seja feito sob prescrição médica. A Anvisa já se pronunciou recomendando a receita branca em duas vias e acho que isso vai ajudar para que os pacientes que precisam da droga possam encontrá-la.