Em uma clínica de reabilitação em Sorocaba, no interior de São Paulo, o homem mais alto do Brasil com 2,37 metros de altura apoia o peso nas mãos e dá alguns passos.
É a primeira vez em dois anos que Joelison Fernandes da Silva, o Ninão como é conhecido, que teve as duas pernas amputadas e está com 41 anos, fica em pé sem auxílio de muletas. Perguntado pela reportagem do Fantástico sobre o que estava sentindo, ele escolheu uma palavra: liberdade.
Diagnóstico aos 14 anos
Até os oito anos a infância de Joelison foi bem comum. Depois dessa idade, o crescimento começou a impressionar. Com 10 anos, já media 1,70m e tinha a mesma altura do pai. A mãe, Divanilda Fernandes da Silva, percebeu que tinha algo de estranho com o filho quando ele ultrapassou o irmão mais velho.
Aos 14 anos, Joelison já media 1,96m e recebeu o diagnóstico de gigantismo. Uma condição que tem explicação precisa pela medicina. Segundo os Manuais MSD, gigantismo e acromegalia são provocados pelo mesmo excesso do hormônio de crescimento, e o que separa as duas condições é o momento em que elas começam.
Quando a produção do hormônio é excessiva na infância, antes das cartilagens de crescimento se fecharem, o resultado é aumento de estatura. Quando ocorre na vida adulta, com as placas já fechadas, o corpo responde com espessamento de traços do rosto, das mãos e dos pés.
A causa mais frequente para isso é um tumor benigno na hipófise que produz o hormônio em excesso. O tratamento mais indicado e de primeira linha é a remoção cirúrgica do tumor. Joelison teve medo de fazer a cirurgia na adolescência.
Aos 21 anos, chegou a 2,29 metros e operou. Depois disso, ainda cresceu mais oito centímetros, chegando a 2,37 metros de altura, medida que o tornou o homem mais alto do Brasil.
Por que Joelison perdeu as pernas
O gigantismo não é apenas uma questão de altura, trata-se de uma doença que traz outras complicações ao paciente. Um deles é que o excesso do hormônio de crescimento prejudica a captação da glicose e eleva a glicemia. Quase metade dos pacientes com gigantismo também ficam com a glicose alterada e cerca de 10% deles ficam diabéticos.
Joelison foi um desses casos. Depois da diabetes, ele teve osteomielite, que é uma infecção no osso, identificada em 2017. Em 2021, ele sofreu a primeira amputação. Na época, também recebeu uma prótese e voltou a andar. Em 2024, a infecção atingiu a outra perna, culminando na segunda amputação. Foi nesse momento, que ele lançou uma campanha nas redes sociais pedindo ajuda para conseguir uma nova prótese.
Prótese número 60
Segundo o Jornal da Paraíba, foi uma clínica especializada de Sorocaba, no interior paulista, que atendeu o pedido de Joelison. O processo começou com moldes de gesso no corpo dele. Depois começaram os cálculos de resistência para um equipamento que precisava suportar 2,37 metros de altura e cerca de 185 quilos.
Os testes de carga foram feitos na Rússia e o representante da empresa, Dmitry Nizamov, disse que os pés foram ensaiados para suportarem até 700 quilos. “Nunca tínhamos feito nada assim. É bem possível que estas sejam as maiores próteses de pé já produzidas no mundo”, afirmou.
Os números e detalhes do equipamento:
- Cada prótese pesa cerca de seis quilos.
- Os pés tem 38 centímetros de comprimento e correspondem à numeração 60.
- O encaixe é feito por um molde de acrílico transparente que será substituído por fibra de carbono.
- A capa de borracha tem os dedos separados, permitindo usar sandália e chinelo.
Os primeiros passos do homem mais alto do Brasil
No treino, Joelison precisou trabalhar o equilíbrio entre as barras paralelas, fazer exercícios com peso e também desviar de obstáculos. Chegou a brincar e tentar embaixadinhas. Seu objetivo é voltar a fazer tudo que fazia antes. Entre 2022 e 2024, foi integrante da seleção brasileira de vôlei sentado, modalide paralímpica.
A mãe dele acompanhou a sessão. “Eu já vi ele andando, já é uma felicidade que não cabe no peito”, disse.
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