IA decifra carta militar de 1809 ligada a Napoleão e corrige até a data do documento

Mensagem cifrada enviada ao general Marmont revelou a posição de tropas francesas e aliadas antes da guerra contra a Áustria

Compartilhe:
O documento histórico reúne símbolos usados para proteger informações militares durante as guerras napoleônicas (Foto: Jacques-Louis David / Wikimedia Commons)

O documento histórico reúne símbolos usados para proteger informações militares durante as guerras napoleônicas (Foto: Jacques-Louis David / Wikimedia Commons)

Imagine olhar para uma carta de 217 anos atrás e não conseguir entender o que ela diz. Foi esse o desafio envolvendo uma mensagem militar ligada a Napoleão Bonaparte, escrita em 1809 e protegida por uma cifra.

Continua após a publicidade

O documento era conhecido por uma reprodução publicada em 1969, mas seu conteúdo nunca havia sido decifrado por completo. No início de outubro de 2026, com a ajuda de inteligência artificial, um engenheiro conseguiu reconstruir a mensagem.

Na versão reconstruída, os símbolos dão lugar ao texto que descreve a movimentação dos exércitos franceses e aliados (Foto: @CarterWChurch / X)

Carta usava código para esconder informações militares

A mensagem era destinada ao general Auguste de Marmont, então comandante do Exército da Dalmácia, e trazia informações estratégicas sobre a posição de tropas francesas e aliadas.

Na época, mensagens militares precisavam ser protegidas caso fossem interceptadas pelo inimigo. Por isso, o documento foi escrito com uma cifra homofônica, sistema em que uma mesma letra pode ser representada por diferentes símbolos.

Continua após a publicidade

O resultado é uma carta com cerca de 1.300 sinais, entre números, letras e marcas desenhadas à mão. São 155 símbolos diferentes, e alguns deles representam palavras inteiras.

Inteligência artificial recebeu uma imagem antiga para decifrar

O trabalho foi feito por Carter Church, engenheiro da empresa de cibersegurança SentinelOne, que se define como não criptógrafo. Ele usou o modelo GPT-6 Astra, da OpenAI, para analisar uma imagem da carta.

O processo não consistiu em simplesmente pedir à IA que “traduzisse” o documento. Segundo o relato de Church, o modelo recortou as linhas, leu os sinais, identificou os que se repetiam e testou combinações até chegar a um texto coerente em francês. Cada valor proposto foi conferido em todas as ocorrências do documento.

Continua após a publicidade

O trabalho do modelo levou cerca de seis horas, além de algumas noites de análise do próprio Church. Ele publicou a transcrição, as tabelas da cifra e os códigos usados, para que outras pessoas possam reproduzir o resultado.

O que a mensagem escondia?

A carta descreve a localização de tropas francesas e aliadas pouco antes da guerra contra a Áustria. Entre os dados recuperados estão 80 mil homens sob o comando de Davout em Bayreuth, 60 mil com Masséna entre Ulm e Donauwörth e o exército saxão de Bernadotte diante de Dresden.

A mensagem também cita 40 mil bávaros comandados por Lefebvre, chamado na carta pelo título de duque de Danzig, além de 30 mil poloneses de Poniatowski e 40 mil homens de Oudinot.

Continua após a publicidade

O momento era delicado. A Áustria se preparava para enfrentar a França, enquanto parte das forças francesas estava envolvida na Espanha. Marmont, na Dalmácia, poderia ficar isolado caso os austríacos avançassem. A carta servia para informá-lo sobre a posição das forças.

Decifração corrigiu a data e completou um trecho

A carta era catalogada como de 1807, mas o conteúdo indicou que ela foi escrita no fim de março de 1809, antes de os austríacos cruzarem o rio Inn, em 10 de abril.

A decifração também completou um trecho da correspondência oficial de Napoleão, publicada em 1865. Na edição, uma frase sobre Marmont terminava em reticências. A carta cifrada traz o trecho completo: “algumas tropas ou um bando de canalhas”.

Continua após a publicidade

Carta não foi escrita por Napoleão

Apesar de ligada às ordens de Napoleão, a mensagem saiu do quartel-general de Eugène de Beauharnais, enteado do imperador e vice-rei da Itália. O redator não foi identificado, e as palavras não são necessariamente as do próprio Napoleão.

Depois da reconstrução, o resultado foi analisado por Satoshi Tomokiyo, pesquisador de Tóquio responsável pelo site Cryptiana, dedicado ao registro de cifras históricas. A solução foi considerada válida, e a cifra passou a ser listada como resolvida.

Ainda restam cinco sinais sem solução, que podem alterar algumas palavras. Segundo a Euronews, a revisão de Tomokiyo foi a única verificação externa divulgada até agora.