Locutor de rodeio Asa Branca morre aos 57 anos

Waldemar Ruy dos Santos transformou a narração de rodeio em show na década de 1990

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(Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

* Marcelo Toledo

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O auge aconteceu nos anos 1990, quando ele chegava a eventos como a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos em helicópteros, saltando de paraquedas ou em tirolesas.

Já narrou montarias dentro de camionetes em movimento e até mesmo em cima de cavalos, o que foi possível por Waldemar Ruy dos Santos, o Asa Branca, ter inovado o estilo de narrar ao descer do palco e ficar dentro das arenas de rodeios.

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Até então, locutores lendários como Zé do Prato (1948-1992) não se aventuravam a descer na pista de montarias e ficar perto dos animais que chegam a pesar mais de uma tonelada.

Tudo foi possível por Asa Branca — apelido recebido por ter hábito de aprisionar pássaros — ter "descoberto" na década anterior o microfone sem fio, quando limpava cocheiras no Texas (EUA).

— Era coisa de outro mundo — disse ele, que desistiu de ser peão após ser pisoteado por um touro em 1984, certa vez a este jornalista.

Com a fama e o dinheiro chegaram também os símbolos de autodestruição que vez ou outra atingem artistas: noitadas e abuso de bebidas, drogas e sexo.

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Conseguia amealhar até R$ 1 milhão em cachês em um único mês, mas gastava com fretamentos de aviões e helicópteros, prostitutas, muitas garrafas de uísque e cocaína.

Se fora das arenas os excessos consumiam o patrimônio — chegou a dizer ter perdido R$ 10 milhões com farras —, dentro Asa Branca era o principal símbolo da mudança pelas quais os rodeios passavam e que resultaram na profissionalização da prática no país.

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Era a época da internacionalização do rodeio de Barretos (1993), do real valorizado (1994), de peão brasileiro sendo campeão mundial (Adriano Moraes, em 1994) e da entrada de country, rock e disco como trilha sonora nas festas de peão. Saía de cena o caipira, entrava em ação o caubói.

Asa Branca soube montar nesse cavalo que passava arreado como ninguém: propagou versos de rodeios e refrões nas arenas, gravou CDs, era figura fácil em programas de TV, namorou famosas e fez aparições em novelas.

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Essa nova identidade de comunicação sertaneja implantada pelo locutor fez escola, o que acabou por impulsionar o próprio nome de Asa Branca como o líder de um segmento e alvo de reverência de peões e público.

Saúde

A vida desregrada do locutor, que a essa altura da carreira já chegava a faltar a compromissos assumidos, teve novo capítulo em 1999, ano apontado por ele como o em que contraiu aids de uma ex-namorada. Mas este não foi o único problema de saúde que afetaria o locutor nos anos seguintes.

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Oficialmente, a doença só foi descoberta em 2007, ao passar mal quando narrava um rodeio em Unaí (MG). No mesmo ano, foi internado numa clínica de reabilitação para tratar a dependência da cocaína.

Já em 2013, uma neurocriptococose – doença do pombo – fez com que perdesse muito peso, ficasse internado cerca de três meses, passasse por seis cirurgias e quase morresse. Depois vieram meningite e hidrocefalia.

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Ainda tentou voltar ao mundo das festas de peão em pequenos eventos, que em nada se assemelhavam aos glamurosos rodeios que distribuem premiação próxima a R$ 1 milhão.

Mas a voz já não era a mesma de antes – grave e forte –, tampouco o fôlego. Quase não conseguiu chegar ao final.

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Veto

Mesmo longe das arenas dos principais eventos, era figura constante nas ruas do Parque do Peão de Barretos, onde era parado por fãs em busca de selfies e ouvia as lembranças que cada um tinha dos anos em que ele dominava as narrações.

Uma das histórias que gostava de contar sobre a principal festa do gênero no país é a de quando, em 1994, apresentou Fernando Henrique Cardoso como "futuro presidente do Brasil" ao público presente no estádio de rodeios, sem conhecimento da organização, a menos de dois meses da eleição presidencial.

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A direção de Os Independentes, que promove o evento de Barretos, disse à época que Asa Branca traiu a confiança recebida e estaria fora da locução da final do rodeio internacional "por ter transformado a festa em propaganda política". "Se eu for punido, será com prazer porque o FHC merece", disse, então, o locutor.

Em 2001, o ex-presidente sancionou lei que transformou o peão de rodeio em atleta, com garantia de seguro de saúde e previdência social e, no ano seguinte, assinou lei que regulamentou rodeios e estabeleceu normas sanitárias para proteger os animais.

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Arrependimento

Há dois anos, o locutor recebeu diagnóstico de câncer na garganta. O tumor chegou a regredir, mas a doença voltou neste ano, atingindo também a base da boca e dificultando cada vez mais a fala.

Nos últimos meses, Asa Branca passou a dar entrevistas criticando os rodeios e afirmando que a prática gera maus-tratos aos animais. Via como uma tentativa de se redimir.

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Já tinha afirmado, em anos anteriores, que há festas de peão amadoras, em que touros eram vítimas de tachinhas ou pregos para que pulassem mais, mas recentemente passou a atacar a prática como um todo, o que foi refutado por grandes eventos.

Dizia que a maioria dos médicos veterinários é contra os rodeios e que, se fosse para ser um animal, não queria ser um usado nas montarias.

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— Todo dia, antes de dormir, eu peço perdão para Deus se eu incentivei a maltratar os animais — disse.

Outros dois arrependimentos do passado que afirmava ter são os do uso de cocaína e o gasto desmedido de dinheiro.

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— Das baladas e da mulherada eu não me arrependo."

Morreu nesta terça-feira (4), aos 57, no Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), onde estava internado desde o dia 14 de janeiro. Deixa a mulher, Sandra, com quem era casado havia 11 anos, e filhos. Ainda não há informações sobre o local do velório ou do sepultamento.