Ao sair para passear com seus dois cachorros em novembro de 2022, o catarinense Raphael Luiz Campos, hoje com 35 anos, sofreu um acidente grave que o fez perder a memória. Ele foi atropelado por um carro em alta velocidade e precisou ficar 30 dias em uma UTI.
Jessica Martendal de Souza, de 32 anos, esposa de Raphael, conta que os dois foram para os Estados Unidos em 2018 em busca de conquistar os objetivos do casal, como viajar mais, e que os planos deram certo no país. Antes do acidente, Raphael trabalhava na área da construção e Jessica até hoje atua com tosa de animais.
Porém, o acidente transformou a vida e a rotina dos dois. Um do cachorros do casal morreu no dia do acidente, e Raphael passou 43 dias internado. Depois disso, a catarinense tinha duas opções: levá-lo para casa e ficar responsável por levar todos os dias para as reabilitações, ou que ele ficasse internado numa clínica.
— A opção da clínica eu só poderia visitá-lo uma vez por semana, por uma hora e com um horário marcado. Aquilo não me soou muito bem, então eu fiz a escolha de trazer ele para casa e levar ele diariamente para as fisioterapias de braço, perna e para fonoaudióloga — explica.
Logo depois do acidente, ele ainda não se comunicava bem por conta das sequelas. Contudo, assim que ele passou a se comunicar, foi possível identificar que a memória dele era somente da infância, até uns seis anos da idade.
— Com o tempo foi progredindo um pouco, hoje ele lembra até quando ele tinha uns 15 anos de idade e ele tem alguns flashes de vida da memória — conta Jessica.
Glauco Kody Nagata, médico neurologista da Hapvida, explica que a perda de memória, chamada de amnésia, em casos de acidente pode afetar tanto as memórias anteriores ao acidente (amnésia retrógrada) quanto as posteriores (amnésia anterógrada). Ele destaca que não há um padrão, e que cada caso é distinto.
— A perda de memória após traumatismo craniano depende de vários fatores, como gravidade do trauma (leve, moderado ou grave), áreas do cérebro afetadas, extensão da lesão, presença de lesão vascular, necessidade de cirurgia, uso de sedativos e tempo de internação para recuperação — detalha o neurologista.
Já o processo de recuperação, como relatado no caso do Raphael, em que ele conseguiu se lembrar de alguns anos a mais do que inicialmente se lembrava, depende do comprometimento cerebral. Esse processo pode ser mais rápido em casos leves, e em casos mais graves pode levar semanas, meses ou até anos, segundo o médico. Já no caso de lacunas da memória, elas podem ser permanentes, o que dificulta a recuperação completa.
Jessica relata que entre as sequelas do acidente estão a afasia, que inicialmente era global, ou seja, ele não conseguia se comunicar. Com acompanhamento com a fonoaudióloga, que ele ainda faz duas vezes por semana, houve progressão, mas ele ainda possui dificuldade em se expressar.
Ele ainda sofreu convulsões e perdeu parte da visão em ambos os olhos, e ficou com os movimentos limitados em um dos braços. Com fisioterapia, conseguiu voltar a andar, mas ainda não consegue correr e tem os movimentos finos limitados.
— Ele conseguiu voltar a mexer o braço, mas ele também teve um nervo do braço que foi afetado, então os movimentos finos da mão é o mais complicado para ele, apesar dele mexer os dedos, ele tem muita dificuldade
Todo o processo de recuperação de Raphael após o acidente, com os diversos acompanhamentos, tratamentos e reabilitação, e os desafios, inclusive na parte emocional, foram acompanhados de forma intensiva pela esposa. De quem ele não se lembrava e com quem, junto, ele tem construído novas lembranças após o acidente.
— A minha frase até hoje é: “daqui a um ano vai estar melhor”. Então eu sempre pensava, hoje tá muito difícil, mas eu tenho certeza que daqui a um ano vai estar muito melhor do que hoje. E nesse um ano eu olhava pra trás e falava, realmente hoje tá muito melhor — afirma.
Atualmente, Raphael sabe que os dois estavam juntos há anos antes do acidente, mas não tem essas memórias. Jessica usa as fotos para mostrar momentos que os dois viveram e que ele não se recorda.
— Eu sofri o luto de perder o meu marido em vida, porque eu também escolhi amá-lo da maneira que ele é hoje. Então, eu estou aprendendo coisas novas com ele e ele aprende coisas novas comigo. Então, é um relacionamento novo, apesar de sermos as mesmas pessoas — relata.
Conexão com a música
No processo de resgate da memória, com o apoio da esposa Jessica, além de fotos antigas, as músicas tiveram um papel essencial. Ela afirma que os médicos já tinham mencionado que poderia ser mais fácil recordar de músicas por elas estarem atreladas, além da memória, ao olfato e ao paladar.
— Muitas vezes ele chorava e vários cantores e bandas ele pedia para eu tirar, porque ele ficava muito frustrado. Ele sabia que conhecia aquele ritmo, mas não conseguia cantar a letra. Mas volta e meia eu tentava colocar uma música para ver se se ele gostava ou se algo acontecia — lembra.
A música Casinha, do cantor Armandinho, foi a primeira que ele se lembrou. O momento emocionante foi gravado e compartilhado nas redes sociais de Jessica, e visto por mais de 5,4 milhões de pessoas em um único post.
O registro chegou até o artista, que comentou: “Que emoção linda. Que felicidade eu senti. Muito obrigado”. Além dele, milhares de pessoas se emocionaram com o vídeo, e passaram a acompanhar a rotina do casal nas redes. Depois dessa música, vieram outras de bandas como Legião Urbana, Coldplay e Linkin Park, sempre acompanhadas de muita emoção.
O neurologista Glauco Kody Nagata explica que existe uma conexão entre a música e a memória. Isso porque diferentes regiões do cérebro são ativadas quando se escuta uma música, o que facilita o processo de “se lembrar” da canção, como ocorreu com Raphael.
— A música oferece uma estrutura previsível que facilita a recordação de letras e melodias, além de estimular conexões entre áreas cerebrais ligadas à memória, ao prazer e à recompensa. Estudos mostram que a música ativa múltiplas regiões do cérebro, favorecendo o resgate de memórias — destaca o médico.
Armandinho convidou as mães de Raphael e de Jessica para irem ao show dele no Atlântida Celebration no dia 9 de agosto, e preparou mais algumas surpresas para o casal. A música “Casinha” foi dedicada a Raphael, e ao final do show ele ligou para os dois.
— Ele convidou a minha mãe e a mãe do Rapha para ir no show dele, e aí depois, quando acabou o show, ele pediu para que elas fossem no camarim, e aí ligou para o Rapha. O Rapha ficou super surpreso, quase sem palavras, chorou a ligação inteira, foi uma experiência muito bacana — lembra.
Cuidados com a memória
O neurologista explica que perdas de memória podem ocorrer em outras situações, sendo elas por causas reversíveis ou irreversíveis. Nas situações reversíveis estão doenças psiquiátricas, uso de medicamentos, como a classe dos benzodiazepínicos, traumatismos ou distúrbios metabólicos (hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12).
Ainda, nas causas irreversíveis estão doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, e vasculares, sendo o AVC o principal. No caso de um traumatismo, a recuperação acontece através de reabilitação cognitiva multidisciplinar, que envolve neuropsicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e fisiatria. Além disso, outras estratégias compensatórias e exercícios diretos para funções cognitivas são adotados.
De forma geral, em pessoas que não passaram por traumatismos, como foi o caso de Raphael, a proteção da memória pode ser feita através de um estilo de vida saudável e equilibrado, além do controle de doenças.
— Não existe um “remédio milagroso” para proteger a memória, exceto corrigir deficiências específicas (como a vitamina B12). A melhor forma é adotar um estilo de vida saudável: evitar álcool e tabaco, garantir sono de qualidade (de 7 a 8 horas), controlar doenças como diabetes e hipertensão, praticar exercícios físicos, manter atividades sociais e cognitivas e ter uma alimentação equilibrada — explica o neurologista.
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