O médico responsável pela tentativa frustrada de execução de Christa Pike, nos Estados Unidos, defendeu que a condenada seja submetida novamente à pena de morte. Em entrevista à revista New York Magazine, publicada neste sábado (31), Mark Fowler, de 69 anos, afirmou não ter dúvidas de que detentos como ela merecem ser executados. Ao falar sobre as críticas que recebeu, o profissional também comparou sua situação à de Jesus Cristo.
Pike sobreviveu à aplicação de duas doses de pentobarbital durante uma execução realizada no Tennessee, em 30 de setembro. Condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, em 1995, ela havia passado quase três décadas no corredor da morte. A vítima foi torturada e morta por Pike quando tinha 18 anos.
Fowler afirmou que costuma pesquisar o histórico dos condenados antes de participar das execuções. Segundo ele, conhecer os crimes cometidos reforça sua convicção de que a pena capital é justificável.
“Eu lamento apenas que eu tenha que lidar com Christa Pike, que espancou outra mulher até a morte. Ela é o que ela é”, declarou.
O médico também disse acreditar que uma nova execução de Pike proporcionaria um sentimento de justiça à mãe de Colleen Slemmer, que acompanhou a tentativa anterior.
Médico defende pena de morte e diz fazer o trabalho que ninguém quer
Além de atuar em procedimentos de execução, Fowler dá aulas de estudos bíblicos em uma igreja evangélica. Na entrevista, ele argumentou que o mandamento bíblico “não matarás” não se aplica a ações legítimas do Estado, como a execução de pessoas condenadas por assassinatos.
“Quando o Estado diz ‘acreditamos que há algumas coisas tão hediondas que devemos efetuar a punição máxima’, acredito que é legítimo”, afirmou.
Ele também justificou sua participação nos procedimentos ao dizer que não considera coerente defender a pena de morte e esperar que outra pessoa execute a sentença.
“Como você pode dizer moralmente: ‘sou a favor da pena de morte contanto que outra pessoa faça o trabalho’? Eu faço as coisas que ninguém quer fazer”, declarou.
Mark Fowler esteve envolvido em outras execuções controversas
O nome do médico também apareceu em outros procedimentos questionados por advogados de condenados no Tennessee.
Em 2025, Fowler participou da execução de Byron Black enquanto o desfibrilador cardíaco do detento permanecia ligado. A defesa classificou o procedimento como tortura, alegando que o método provocou dor e prolongou a agonia do condenado. Registros oficiais indicaram que ele levou cerca de dez minutos para morrer.
Em maio de 2026, o médico também esteve envolvido na tentativa frustrada de execução de Tony Carruthers. Na ocasião, paramédicos não conseguiram instalar o acesso intravenoso necessário para administrar as substâncias letais. Fowler tentou então realizar um procedimento descrito como “semi-cirúrgico” para alcançar uma veia próxima à clavícula.
O advogado de Carruthers afirmou ter visto muito sangue durante a tentativa. Segundo o relato, Fowler interrompeu o procedimento porque não havia anestésicos adequados e a intervenção estava se tornando dolorosa demais para o condenado.
Ao comentar o episódio, o médico ironizou a presença dos advogados que acompanhavam a execução e registravam o que acontecia.
Fowler reconhece falhas durante a execução de Christa Pike
Na entrevista, Fowler também explicou como ocorreu a tentativa de execução de Pike. Pelo protocolo adotado no Tennessee, diferentes profissionais são responsáveis pelas etapas do procedimento. No caso da condenada, paramédicos instalaram o acesso intravenoso, enquanto o médico ficou encarregado de administrar o pentobarbital.
Pike recebeu duas aplicações, mas Fowler foi chamado de volta à sala cerca de 45 minutos depois. Ele esperava retornar aproximadamente dez minutos após a injeção para confirmar a morte da condenada. No entanto, foi informado de que ela apresentava dificuldades para respirar.
O médico suspeitou que o acesso intravenoso estivesse posicionado incorretamente e que a substância tivesse sido aplicada no tecido subcutâneo, em vez de chegar à corrente sanguínea.
Fowler afirmou ter temido que Pike sobrevivesse com danos cerebrais irreversíveis. Segundo ele, chegou a imaginar que a condenada poderia permanecer em estado vegetativo e gerar uma conta hospitalar de US$ 250 mil.
Ao avaliar o que aconteceu, o profissional reconheceu que os responsáveis pela instalação do acesso deveriam ter acompanhado a administração da substância e interrompido o procedimento quando Pike reclamou de dor no braço.
“As pessoas que colocam os acessos intravenosos devem posteriormente ficar observando o que está acontecendo [com os condenados] enquanto a droga entra. [Pike] reclamou de dor no seu braço. Eles deveriam ter parado e reavaliado, mas eles não fizeram isso”, criticou.
“Não sou cruel”, afirma médico
Apesar dos episódios controversos, Fowler defendeu a retomada das execuções com um protocolo de três substâncias, incluindo cloreto de potássio. O composto é proibido em alguns estados americanos por provocar dor intensa, mas o médico considera a combinação mais eficiente.
Ele também rejeitou as críticas à sua atuação e disse não se considerar uma pessoa cruel ou insensível. Ao falar sobre como gostaria de ser lembrado, comparou novamente sua trajetória à de Jesus.
“Gostaria de ser lembrado como um homem da Renascença. Alguém que tem um apreço avançado pela vida. Não sou uma pessoa má, perversa. Não sou inescrupuloso. Não sou insensível ou incompetente. Não estou envergonhado. As pessoas disseram coisas ruins sobre Jesus, não disseram?”, afirmou.
Fowler garantiu que não pretende abandonar sua participação nas execuções, mesmo diante das críticas. Para ele, recuar significaria ceder à pressão de grupos contrários à pena de morte.
“Eu não posso ser empurrado de um caminho que acho certo. Eu me recuso a ceder”, concluiu.
