O gato que enganou o mundo da ciência: como um siamês virou autor de pesquisas e teve sua identidade descoberta 

Uma assinatura misteriosa, um artigo de física e um visitante curioso ajudaram a revelar uma das histórias mais inusitadas da ciência

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Gato siamês, mesma raça de Chester, ajuda a ilustrar a história do felino que entrou para a literatura científica (Foto: Felix Mittermeier – Pexels)

Gato siamês, mesma raça de Chester, ajuda a ilustrar a história do felino que entrou para a literatura científica (Foto: Felix Mittermeier – Pexels)

Publicar um artigo em uma revista científica de prestígio exige anos de estudo, dedicação e conhecimento. Pelo menos para os humanos. Em 1975, um gato siamês chamado Chester conseguiu entrar para a história da física sem frequentar uma universidade ou participar de qualquer experimento. Tudo graças a um detalhe que seu tutor não queria corrigir.

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Por trás da façanha estava Jack H. Hetherington, professor da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos. O pesquisador havia concluído um estudo sobre o comportamento de átomos de hélio-3 e se preparava para enviá-lo à Physical Review Letters, uma das publicações mais respeitadas da área. Antes disso, porém, pediu a um colega que revisasse o trabalho.

Foi durante essa leitura que surgiu o problema. Embora fosse o único autor, Hetherington havia utilizado repetidamente expressões como “nós” e “nosso”. As normas editoriais não permitiam essa construção em pesquisas assinadas individualmente, mas o físico encontrou uma maneira inesperada de contornar a situação.

Um gato entre os cientistas

Na década de 1970, corrigir um artigo não era tão simples quanto abrir um arquivo e substituir algumas palavras. Como o texto havia sido produzido em uma máquina de escrever, modificar todas as passagens exigiria um trabalho considerável.

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A solução surgiu dentro da própria casa do pesquisador. Em vez de reescrever o documento, Hetherington decidiu acrescentar um segundo autor e escolheu Chester, seu gato siamês, para dividir os créditos. Faltava apenas encontrar um nome que não despertasse suspeitas entre os editores.

O pseudônimo escolhido foi F.D.C. Willard. As iniciais faziam referência à expressão latina Felis domesticus e ao nome Chester, enquanto Willard era o nome do pai do animal. Assim, o felino ganhou uma identidade acadêmica sem precisar sair de casa.

A estratégia funcionou. Em 24 de novembro de 1975, a Physical Review Letters publicou o estudo sobre os efeitos de troca entre átomos de hélio-3 com dois nomes na autoria: J. H. Hetherington e F.D.C. Willard. Quem consultava a pesquisa dificilmente imaginaria que um dos responsáveis era um gato doméstico.

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Segredo acabou descoberto

Durante algum tempo, a verdadeira identidade do segundo autor passou despercebida por parte da comunidade acadêmica. O trabalho circulava normalmente entre especialistas em física de baixas temperaturas e recebia citações de outros pesquisadores.

O segredo começou a ruir quando um visitante apareceu na universidade procurando Hetherington. Como o professor não estava disponível, o homem pediu para conversar com Willard, acreditando que se tratava de outro cientista do departamento. A solicitação provocou risadas entre os presentes e acabou revelando a história.

Apesar da descoberta, a brincadeira não comprometeu o conteúdo científico do artigo. A pesquisa continuou sendo reconhecida por seus resultados, enquanto a identidade do coautor se transformou em uma curiosidade entre os físicos.

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Anos depois, Hetherington explicou que não se arrependia da decisão. O professor acreditava que a assinatura incomum poderia até ajudar outras pessoas a se lembrarem do estudo, embora a situação não tivesse agradado a todos os editores científicos.

Assinatura feita com a pata

Ter o nome publicado em uma revista científica não foi a única participação de Chester nessa história. Quando recebeu exemplares do artigo, seu tutor resolveu acrescentar uma assinatura bastante diferente das tradicionais.

Para isso, Hetherington colocou tinta em uma das patas do gato e pressionou-a sobre o papel. Algumas cópias passaram a circular com a assinatura do professor e a impressão deixada pelo animal, registrando de maneira bem-humorada a identidade do misterioso F.D.C. Willard.

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O detalhe também chamou a atenção de pesquisadores franceses. Em 1978, físicos envolvidos na organização de uma conferência internacional sobre baixas temperaturas chegaram a considerar um convite para Willard, mas descobriram que o suposto cientista era um felino.

Dentro da Universidade Estadual de Michigan, a história virou motivo de brincadeiras entre professores e pesquisadores. Chester chegou a receber informalmente o título de consultor de predação de roedores, referência às habilidades naturais dos gatos.

Felino publicou outro artigo

A participação de Chester na ciência não terminou em 1975. Cinco anos depois, seu nome voltou a aparecer em uma publicação acadêmica, desta vez como único autor de um estudo sobre as propriedades magnéticas do hélio-3 sólido.

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Publicado em francês na revista La Recherche, em 1980, o artigo havia sido preparado por um grupo de pesquisadores franceses e americanos, incluindo Hetherington. Como os cientistas não conseguiram chegar a um consenso sobre determinados pontos do trabalho, decidiram atribuir a autoria exclusivamente a F.D.C. Willard.

Dessa maneira, o gato que havia sido incluído em uma pesquisa para evitar a correção de algumas palavras acabou assinando outro estudo sozinho. O episódio reforçou sua fama entre os integrantes da comunidade científica.

Chester morreu em 1982, aos aproximadamente 14 anos, mas sua trajetória acadêmica continuou rendendo referências. Em 1º de abril de 2014, a Sociedade Americana de Física aproveitou o Dia da Mentira para anunciar, em tom de brincadeira, que disponibilizaria gratuitamente artigos escritos por gatos.

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Mais de cinco décadas depois da publicação original, o nome F.D.C. Willard continua registrado na literatura científica. Uma história que começou com a resistência de um professor a reescrever um texto acabou garantindo a seu gato de estimação um lugar inusitado na história da física.