A ideia parecia oferecer duas soluções de uma vez: retirar pneus usados de circulação e criar abrigo para animais no fundo do oceano. Na década de 1970, projetos nos Estados Unidos levaram toneladas de materiais ao mar com essa proposta. Décadas depois, porém, os resultados mostraram diferenças marcantes.
Em Yarmouth, no estado de Massachusetts, uma estrutura instalada em 1978 tornou-se ponto de encontro de peixes, lagostas e até tubarões. Na Flórida, uma iniciativa semelhante espalhou milhões de pneus pelo ambiente marinho e exigiu uma operação de retirada.
Os casos ajudam a explicar por que a tentativa de transformar resíduos em recifes artificiais não pode ser avaliada apenas pela intenção de quem planejou a intervenção.
Um abrigo no fundo do mar
Na costa de Yarmouth, a instalação começou em 1978. Equipes passaram a posicionar pneus e estruturas de concreto de maneira planejada, criando pontos de abrigo onde os animais poderiam encontrar espaço para circular e permanecer.
O projeto foi ampliado ao longo dos anos, com a participação de órgãos públicos e equipes responsáveis pelo trabalho no mar. Segundo o levantamento, mais de 17 mil toneladas de materiais foram colocadas na área.
A vida ao redor dessas estruturas passou a ser acompanhada por mergulhadores, que registram imagens durante as observações subaquáticas.
Mais de 18 espécies já foram registradas nas proximidades dos recifes artificiais, incluindo peixes, lagostas e tubarões. Com o tempo, o local também se consolidou como área frequentada por embarcações de pesca.
Quando os pneus se espalharam
A experiência no litoral da Flórida seguiu outro caminho. Na década de 1970, o projeto conhecido como recife Osborne recebeu mais de dois milhões de pneus usados, que deveriam permanecer agrupados no fundo do mar.
A fixação, entretanto, não resistiu às condições do ambiente. Presos por estruturas metálicas frágeis, os pneus acabaram se soltando e foram carregados pelas correntes marítimas.
O material se espalhou por uma área superior a 15 hectares, chegou a praias distantes e passou a representar um problema ambiental. Em vez de formar o habitat esperado, as estruturas se transformaram em resíduos dispersos pelo oceano.
O episódio também recolocou em discussão o problema do lixo plástico que chega aos mares, abordado em reportagem do NSC Total.
Uma limpeza de longa duração
A retirada dos pneus da Flórida começou a mobilizar equipes militares em 2007. O trabalho exigia localizar os materiais no ambiente subaquático e trazê-los de volta à superfície.
Os resultados não vieram rapidamente. Até novembro de 2019, cerca de dois terços dos pneus originalmente lançados ainda permaneciam no mar, conforme os dados históricos apresentados na reportagem de referência.
A permanência prolongada desses materiais também levantou preocupações sobre a liberação de resíduos e seus efeitos sobre a vida marinha. O tema se aproxima do debate sobre microplásticos e seus impactos no ambiente em Santa Catarina.
A ideia foi retomada mais de cem anos depois com outra finalidade: criar estruturas capazes de funcionar como habitats em áreas sem recifes naturais.






