Por que as “tesourinhas” de Brasília exigem que você vire à esquerda para chegar à direita?

Entenda o segredo da engenharia que aboliu o sinal vermelho no Eixão, mas criou um verdadeiro quebra-cabeça de endereços e memes para quem visita a capital

Compartilhe:

Apesar do nó que causam na cabeça dos visitantes, as tesourinhas são parte da alma candanga (Foto: Banco de Imagens)

Se você está acostumado a dirigir guiado por nomes de ruas, esquinas tradicionais e o ritmo previsível dos semáforos, Brasília vai te apresentar um mundo novo, e levemente confuso. Na capital federal, o horizonte é vasto e o sinal vermelho é quase uma raridade. O “segredo” dessa fluidez, que faz o trânsito fluir a 80 km/h no coração da cidade, atende por um nome curioso e virou a maior fábrica de memes para quem visita o Planalto Central: as tesourinhas.

Continua após a publicidade

A lógica do “mergulho”

Imagine a cena: você avista o bloco de prédios onde precisa chegar, logo ali à sua direita. O instinto manda virar o volante, mas Brasília exige um ritual diferente. Para acessar as quadras, o motorista precisa de um “mergulho”.

Funciona assim: em vez de uma conversão simples, você entra em uma alça de acesso à esquerda, passa por baixo do Eixão (a avenida principal que corta a cidade) e sobe do lado oposto. Vistas do alto, essas alças lembram uma tesoura aberta cortando o cerrado, o que explica o apelido carinhoso. É uma engenharia pensada por Lúcio Costa lá em 1957 para que ninguém precisasse pisar no freio, mas que hoje faz o turista hesitar diante do comando do GPS: “Mantenha-se à esquerda para entrar à direita”.

Continua após a publicidade

Esqueça os nomes, aprenda as coordenadas

O desafio não para no asfalto. Se em outras capitais nos guiamos por nomes de santos ou figuras históricas, em Brasília o endereço é uma equação matemática. As tesourinhas são, na verdade, os portais para as famosas Superquadras.

Para encontrar, por exemplo, a SQN 408, o motorista precisa entender que está na “Superquadra Norte”, na altura da centena 400. Errar a tesourinha de entrada, como a icônica e movimentada curva da 210/212 Sul, não significa apenas dar a volta no quarteirão. Significa ser lançado quilômetros adiante na via expressa, transformando uma ida rápida à farmácia em um tour panorâmico forçado por entre os pilotis e jardins de Oscar Niemeyer. É o erro que gera os melhores relatos de “perdição” nas redes sociais.

Do asfalto à purpurina

Apesar do nó que causam na cabeça dos visitantes, as tesourinhas são parte da alma candanga. Elas serviram de cenário para a mística do rock de Brasília, aparecendo em clipes e histórias de bandas como Legião Urbana, e hoje ganham até as ruas no Carnaval. O Bloco da Tesourinha, um dos mais tradicionais da Asa Norte, prova que até uma solução de engenharia de trânsito pode virar motivo de festa e identidade cultural.

Para quem visita a capital, a dica de ouro é o desapego: não lute contra o mapa, o caminho mais curto entre dois pontos quase sempre exige o contorno perfeito pela tesourinha.

Continua após a publicidade

*Com edição de Luiz Daudt Junior.