Foi ouvindo mulheres do meio rural que a produtora rural Thais Neres Krindges, de 30 anos, percebeu que algumas das principais dificuldades enfrentadas por quem vive no campo iam muito além da produção e da geração de renda. Nos relatos, começaram a aparecer histórias de violência, ansiedade, depressão e sofrimento psicológico. A partir dessa realidade, nasceu o projeto “Cultivando o Bem-Estar no Meio Rural”, voltado à promoção da saúde mental e da qualidade de vida no campo.
Desenvolvida em Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, a iniciativa já alcançou mais de 1,5 mil pessoas. O trabalho envolve agricultores, mulheres, jovens, crianças e idosos, com ações de psicoeducação, orientação e encaminhamento para serviços especializados.
“A gente olha para quem não é visto, principalmente com relação à saúde mental. Agricultores, jovens, crianças, idosos, temos esse olhar atento”, explica Thais.
As atividades são realizadas principalmente em localidades rurais e contam com a participação de profissionais de diferentes áreas, como psicólogos e advogados. Quando necessário, o atendimento também pode chegar às casas das famílias.
Projeto nasceu da escuta das mulheres
A história do projeto começou há cerca de dez anos, quando Thais passou a desenvolver ações voltadas às mulheres do meio rural. Depois de se casar e começar a morar na propriedade da família do marido, ela percebeu que outras mulheres procuravam sua ajuda em busca de informações sobre empreendedorismo e possibilidades de geração de renda.
A aproximação fez com que Thais conhecesse também outras dificuldades enfrentadas por essas mulheres. Durante as conversas, começaram a surgir relatos de violência e sofrimento psicológico. Foi nesse momento que ela percebeu que havia uma demanda que ultrapassava o empreendedorismo.
A partir da escuta, o trabalho passou a incorporar ações relacionadas à saúde mental e ao bem-estar. A proposta é levar informação, acolhimento e orientação para pessoas que muitas vezes têm dificuldade de buscar ajuda ou até mesmo de reconhecer que precisam dela.
“É muito satisfatório ter retornos positivos das pessoas que entendem que são importantes, que suas vidas importam. A depressão, a ansiedade e principalmente o suicídio estão tirando muitas vidas de quem está no campo. E quem vai alimentar todo mundo se não tiver produtores?”, questiona.
Jovens também estão entre as preocupações
Além da saúde mental, o projeto chama atenção para outro desafio do meio rural: a permanência dos jovens no campo.
Na localidade onde Thais vive, segundo ela, são cerca de 70 moradores e apenas quatro jovens. A realidade reforça a preocupação com o futuro das propriedades e com as oportunidades para quem deseja permanecer na atividade rural.
A trajetória da própria Thais também não começou diretamente no campo. Formada como torneira mecânica, ela tinha planos de seguir na área de engenharia mecânica. A mudança de caminho ocorreu depois do casamento, quando passou a viver na propriedade da família do marido.
Hoje, além do projeto, participa das atividades da propriedade, que envolvem gado leiteiro, apicultura e erva-mate. O turismo rural também começa a fazer parte dos planos.
Trabalho ganhou reconhecimento fora do Oeste
A atuação de Thais com o projeto também abriu portas para experiências em diferentes espaços. Em 2023, ela foi campeã nacional do programa Jovens Líderes do Agro, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).
Mais recentemente, participou da Brazil Conference, realizada na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, experiência que também contribuiu para ampliar a visibilidade do trabalho desenvolvido no Oeste catarinense.
Nesta quinta-feira (27), Thais recebeu mais um reconhecimento: o segundo lugar estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026, na categoria Produtora Rural e Artesanato. A premiação ocorreu durante o Startup Summit, em Florianópolis.
Apesar dos reconhecimentos, ela afirma que é no contato direto com quem vive no campo que encontra a motivação para continuar.
Próximo passo é criar uma clínica
A intenção agora é ampliar o alcance do projeto. Thais busca parceiros para viabilizar uma clínica voltada aos produtores rurais, com atendimento direcionado às necessidades de quem vive e trabalha no campo.
Atualmente, o trabalho é desenvolvido de forma voluntária e conta com apoio para algumas ações.
“Esse projeto ainda tem muito potencial, porque eu convivo com as pessoas que estão no campo e sei que elas precisam desse cuidado, dessa atenção. Eu convivo com elas diariamente e sei como é, porque eu mesma já tive depressão e quase um burnout”, relata.
Para Thais, cuidar da saúde mental de quem vive no campo também significa olhar para a sustentabilidade da própria atividade rural.
A proposta é fazer com que o produtor não seja lembrado apenas pela produção, mas também pelas condições de vida, pelas dificuldades e pelas necessidades de cuidado que existem por trás de cada propriedade.




