Quatro dedos marcados em pedra revelam que mamíferos da era dos dinossauros caminhavam por antigo deserto no Sul do Brasil

Marcas fossilizadas foram encontradas em uma pedreira de Turvo, no Sul de SC, e estão entre as maiores já atribuídas a mamaliformes do Cretáceo Inferior

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Conjunto de pegadas de um grande mamaliforme, encontrado no município de Turvo, em Santa Catarina (Foto: Redes sociais, Reprodução) Reconstrução paleoartística de Júlia d’Oliveira que representa interações ecológicas entre os animais que deixaram as pegadas de grandes mamaliformes e um pequeno dinossauro terópode (Foto: Journal of South American Earth Sciences, Reprodução) Reconstrução paleogeográfica do Cretáceo Inferior, com destaque para Gondwana, antigo supercontinente, a Bacia do Paraná e a extensão do paleodeserto Botucatu, um antigo deserto que existia nessa região (Foto: Journal of South American Earth Sciences, Reprodução) Pesquisa foi publicada na revista Journal of South American Earth Sciences (Foto: Journal of South American Earth Sciences, Reprodução)

Pegadas fossilizadas encontradas em uma pedreira de Turvo, no Sul de Santa Catarina, indicam que um grande mamaliforme, grupo que inclui os mamíferos e seus parentes evolutivos mais próximos, já habitava a região durante a era dos dinossauros. As marcas têm cerca de 130 milhões de anos, quando a região fazia parte de Gondwana, um antigo supercontinente que reunia áreas atualmente correspondentes à América do Sul, África, Antártida, Austrália e outras porções continentais.

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A descoberta foi descrita em um estudo publicado no Journal of South American Earth Sciences. Os pesquisadores analisaram dois conjuntos de pegadas preservados em rochas da Formação Botucatu, unidade geológica conhecida por registrar um antigo ambiente desértico que existia em partes do Brasil e de países vizinhos.

Veja imagens da descoberta

Como eram as pegadas encontradas em SC

Segundo o estudo, as marcas analisadas apresentam características compatíveis com as patas de animais que caminhavam sobre quatro membros. Os pesquisadores identificaram quatro dedos arredondados e curtos, além de um padrão estreito de deslocamento.

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As marcas medem aproximadamente 10 centímetros de comprimento e entre 12,5 e 13,5 centímetros de largura. Segundo a pesquisadora Aline Ghilardi, uma das responsáveis pela publicação, o porte estimado do animal ao de um carcaju, mamífero encontrado na América do Norte, ou ao de um cão bulldog-inglês.

As pegadas superam em tamanho outras marcas de mamaliformes encontradas anteriormente na mesma formação geológica, segundo o estudo:

As pegadas […] representam as maiores pegadas semelhantes a mamíferos documentadas no Cretáceo Inferior de Gondwana. Suas características morfológicas e a estreiteza das pegadas corroboram a classificação na icnofamília Chelichnopodidae e sugerem um mamífero quadrúpede como o responsável por essas pegadas. O tamanho considerável dessas pegadas amplia a faixa de tamanho conhecida para mamíferos do Cretáceo Inferior, indicando que animais de grande porte eram responsáveis por esse tipo de pegada

O que é a Formação Botucatu

A Formação Botucatu reúne rochas formadas a partir do acúmulo de areia em um antigo deserto, com extensos campos de dunas. Esse ambiente existiu há milhões de anos em uma área que hoje abrange partes das regiões Sul e Sudeste do Brasil.

As rochas preservaram marcas deixadas por diferentes animais que passaram pelo local. Quando as condições do solo favorecem a conservação das pegadas, elas podem permanecer registradas mesmo quando não há fósseis de ossos das mesmas espécies.

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O que a descoberta revela sobre os mamíferos

Durante muito tempo, os mamíferos e seus parentes próximos que viveram ao lado dos dinossauros foram associados principalmente a animais de pequeno porte. Novas descobertas, porém, têm ampliado o conhecimento sobre a diversidade desses grupos durante a Era Mesozoica, que compreende os períodos Triássico, Jurássico e Cretáceo.

As pegadas encontradas em Santa Catarina reforçam que mamaliformes de porte relativamente grande já existiam no início do Cretáceo. Segundo os pesquisadores, o registro ajuda a compreender melhor a diversidade de formas e tamanhos desses animais em ambientes antigos.

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A paleontóloga Aline Ghilardi destaca ainda que animais desse porte poderiam ter capacidade para predar pequenos vertebrados, incluindo eventualmente dinossauros de pequeno porte ou indivíduos juvenis. No entanto, os autores ressaltam que essa hipótese não pode ser comprovada pelas pegadas, já que os rastros não permitem determinar diretamente a dieta ou o comportamento do animal.

Os autores atribuíram as marcas à icnofamília Chelichnopodidae. Nesse caso, a classificação se refere às características das pegadas, e não à identificação de uma espécie específica. Como não foram encontrados restos esqueléticos associados aos rastros, a identidade exata do animal que deixou as marcas permanece desconhecida.