Trecho da BR-101 em SC se torna vilão e motiva até demissão: “Direito de ir e vir acaba”

Moradores relatam horas de congestionamento em trechos que deveriam ser feitos em poucos minutos

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BR-101

BR-101 na região de Itajaí (Foto: Luiz Carlos de Souza, NSC TV)

Ela foi criada para ser mais um símbolo de avanço econômico do Brasil, já que serve como escoamento para milhares de produtos diariamente, mas ao mesmo tempo testa a paciência de motoristas e moradores — para se dizer o mínimo. As filas intermináveis da BR-101 no trecho no Litoral Norte de Santa Catarina resultam em atrasos e até perdas de emprego, conta quem já sentiu na pele essas consequências.

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O trânsito carregado se reflete em números: por dia, apenas no Litoral Norte, passam 147 mil veículos pela rodovia federal, revelaram dados da Arteris Litoral Sul de novembro do ano passado. A manutenção da BR-101 foi concedida à iniciativa privada em 2008, três anos antes de a obra de duplicação ser feita.

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Apesar de duplicada, a BR-101 tem congestionamento a qualquer hora do dia. É um “anda e para” que atrasa rotinas e atrapalha ações básicas, que deveriam ser simples, como conseguir ir e voltar do trabalho. Não é raro usar a palavra “caos” ou “colapso” para definir a rodovia. A comunicadora Lívia Souza, por exemplo, desistiu do emprego. Ela mora em Porto Belo e atuava em Itajaí. O expediente de cinco horas durava quase o mesmo tempo que ela levava no trânsito, algo que se tornou inviável:

— Gastava três, quatro horas no trânsito. Uma vez levei cinco horas para chegar. Tive vontade de chorar, de deixar o carro no meio do caminho e ir a pé — lembra.

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Deixar o trabalho para ter qualidade de vida

A gota d’água foi quando um problema no ombro piorou por conta do arranca e para nas filas, de tanto trocar a marcha. Lívia precisou passar por cirurgia e entendeu que a rotina que vinha levando há cinco anos não fazia sentido. Foi então que se desligou da empresa.

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— Tive que deixar um trabalho que eu gostava muito, um dos melhores que eu já tive, para poder ter qualidade de vida. A BR-101 é vital, mas é impossível você transitar nela. Teu direito de ir e vir acaba quando tu chegas ali todos os dias e sabe que vai levar cinco horas em um trecho que levaria 20 minutos — desabafa.

Lívia deixou o emprego depois de pensar muito sobre o próprio dia a dia. Já o empresário José Pinheiro não teve escolha: não conseguiu fechar um negócio devido ao tempo que perdeu parado no congestionamento:

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— Cheguei atrasado e nem entrei no condomínio para a reunião — relata.

Para entender como o trecho chegou a esse ponto, é preciso voltar ao passado. A história da rodovia começa bem antes dos congestionamentos, das buzinas e das filas intermináveis. Criada entre as décadas de 1950 e 1970, passando por 12 estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, a BR-101 tem mais de 4,6 mil quilômetros de extensão.

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A duplicação do trecho catarinense foi concluída em 2011 trazendo, à primeira vista, a promessa de alívio, mas junto com ela veio um grande aumento de movimento por causa dos portos, turismo, do crescimento da frota de veículos e moradores nas cidades da região. Assim, o trecho no Litoral Norte se tornou o principal gargalo da BR-101 em toda Santa Catarina. Problema para Lívia, José e outros milhares de catarinenses.

E a solução?

Uma projeção da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) aponta que, em um bom cenário, a obra pode estar pronta em 2031. Só que aí vem outra questão: até lá o volume de veículos já aumentou exponencialmente acompanhando o crescimento e desenvolvimento das cidades às margens da BR-101. O medo é que a via litorânea por si só não seja a completa solução.

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Um transporte alternativo, como um trem ou metrô de superfície, para interligar populosas cidades que contornam o trecho Norte da BR-101 seria uma possibilidade, apontou a colunista Dagmara Spautz. É uma alternativa para retirar da rodovia uma parte das cargas e um bom número de carros que circulam diariamente entre os municípios, a trabalho e a lazer.

Para isso, seria necessário uma discussão a sério com o governo federal.

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