Vila de mil anos sob a terra: a cidade no Brasil que esconde 100 casas esculpidas antes da chegada dos portugueses

São José do Cerrito reúne mais de 100 estruturas milenares escavadas por povos indígenas para escapar do frio extremo; município constrói protótipo para resgatar arquitetura ancestral

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Construções escavadas no solo eram habitadas por povos indígenas e ajudavam a proteger do frio serrano (Foto: Onéris Lopes, Divulgação Amures)

Uma pequena cidade na Serra Catarinense esconde sob o solo estruturas milenares que desafiam o tempo. Com cerca de 8,7 mil habitantes, São José do Cerrito ostenta o título de Capital Catarinense das Casas Subterrâneas por abrigar construções que guardam vestígios intactos de como viviam os povos indígenas há mais de mil anos no território.

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As estruturas pertencem a comunidades do tronco linguístico Jê Meridional, ancestrais diretos dos povos Kaingang e Xokleng, e remontam a um período muito anterior à colonização. O reconhecimento estadual do município não é por acaso: sítios arqueológicos como o Rincão dos Albinos abrigam mais de 107 estruturas agrupadas, formando uma autêntica vila ancestral escavada no relevo catarinense.

Como funcionavam as construções sob o solo

As casas eram escavadas diretamente na terra, com profundidades que variavam entre meio metro e dois metros. Estudos conduzidos pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) apontam que as habitações tinham formato predominantemente circular, com diâmetros que iam de 2 a 10 metros.

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A escolha de construir abaixo do nível da superfície não era casual: funcionava como uma barreira térmica altamente eficiente para suportar o frio rigoroso, as geadas, os ventos cortantes e as fortes chuvas características da Serra.

Durante as escavações nos sítios da região, arqueólogos e pesquisadores encontraram diversos vestígios do cotidiano daquelas populações:

  • Restos de antigas fogueiras comunitárias;
  • Ferramentas e lâminas talhadas em pedra;
  • Fragmentos de recipientes de cerâmica artesanal.

A complexidade e o volume de casas reunidas em um mesmo ponto comprovam a existência de uma sociedade organizada, que ocupou e moldou a serra catarinense séculos antes da chegada dos europeus.

Resgate histórico: o protótipo conduzido pelo povo Xokleng

Para transformar a história quase invisível sob a terra em uma experiência palpável, a Prefeitura de São José do Cerrito iniciou a construção do protótipo em escala real de uma casa subterrânea.

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A obra é conduzida diretamente por três indígenas do povo Xokleng, garantindo fidelidade às técnicas ancestrais de arquitetura, cobertura e manejo do solo. O projeto busca dar visibilidade didática ao patrimônio arqueológico e aproximar moradores, estudantes e visitantes de um dos capítulos mais fascinantes e esquecidos da história de Santa Catarina.