R$ 1 bilhão em contratos de patrocínio de casas de apostas financiam 13 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro em 2026. O valor, apurado pela revista Placar, expõe o peso das bets nas receitas do futebol brasileiro justamente após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarar que pretende banir o setor no país. Ao defender a medida, Lula afirmou expressamente que os times do futebol brasileiro terão de encontrar outras fontes de receita e “aprender a viver sem” os recursos vindos de apostas esportivas.
O presidente associou bets a problemas sociais, aos efeitos dos algoritmos sobre a juventude e ainda a indícios de lavagem de dinheiro.
Essa não é uma guerra, é uma decisão.
O posicionamento presidencial pressiona diretamente o modelo orçamentário das principais equipes do país, uma vez que as casas de apostas ocupam o espaço mais nobre das camisas em 65% dos participantes da elite nacional.
FOTOS: Valores pagos pelas bets na Série A
Os contratos listados pelo levantamento dividem-se entre garantias fixas e variáveis atreladas a bônus (fotos abaixo). De outro lado, sete equipes da elite nacional não possuem marcas de apostas estampadas na posição de patrocinador master. São elas Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Grêmio, Internacional, Mirassol e Red Bull Bragantino.
Flamengo lidera ranking de patrocínio
O impacto financeiro de uma eventual restrição varia entre dezenas e centenas de milhões de reais por temporada. O Flamengo lidera a lista com o maior valor-base individual do futebol nacional: recebe R$ 268,5 milhões por ano da Betano. Na sequência, o Corinthians garante R$ 150 milhões fixos anuais da Esportes da Sorte, montante que pode atingir R$ 200 milhões caso a equipe alcance metas e bônus previstos em contrato.
O Palmeiras contabiliza R$ 100 milhões fixos por ano da Sportingbet, com potencial de chegar a R$ 170 milhões. Já o São Paulo recebe R$ 90 milhões anuais da Superbet, podendo somar R$ 115 milhões com gatilhos de desempenho. Entre as projeções variáveis, o Vasco possui R$ 50 milhões fixos com a Sportingbet, em acordo que pode saltar para R$ 100 milhões anuais mediante metas comerciais e esportivas.
Declaração de Lula sobre fim das bets
A declaração do presidente Lula ocorreu na última quarta-feira (23), durante agenda pública no Rio de Janeiro. Na mesma data, o chefe do Executivo reuniu-se com ministros para tratar do avanço de restrições ao setor. Lula enfatizou o interesse em interromper o funcionamento das plataformas no Brasil e ressaltou que as agremiações esportivas precisam buscar alternativas de custeio fora do mercado de apostas.
Apesar da forte declaração política, a medida ainda não foi formalizada legalmente. O anúncio sinaliza a diretriz da gestão federal, mas o texto normativo depende do alinhamento final entre os ministérios e da análise de viabilidade jurídica.
Medidas do governo contra o setor
Os integrantes do Ministério da Fazenda trabalham na elaboração de uma Medida Provisória sobre bets, embora ainda persista divisão interna quanto à profundidade da intervenção. O Executivo avalia quatro cenários principais:
- Proibição total das operações de apostas no território nacional;
- Aplicação de restrições às bets com foco na veto total ou parcial da publicidade comercial;
- Banimento exclusivo dos cassinos virtuais e jogos de azar online, a exemplo do “Jogo do Tigrinho”;
- Edição de regras graduais para transição do mercado regulado.
A equipe econômica e os consultores jurídicos do governo ponderam os riscos de questionamentos na Justiça e eventuais perdas de arrecadação fiscal antes de fechar o texto definitivo da MP.
Reação dos clubes pela regulação
Na última semana, após essa possibilidade, diversos clubes esportivos divulgaram um manifesto em conjunto alertando para o risco de desorganização financeira causado pelo patrocínio de bets no futebol. Os clubes argumentam que as casas de apostas autorizadas se tornaram uma importante fonte de receita do esporte nacional.
O manifesto sustenta que a perda desses valores afetaria não apenas a folha de pagamento dos grandes times da Série A, mas comprometeria a viabilidade de clubes de menor porte, divisões de acesso e competições regionais. Em parte do manifestou os clubes argumentaram:
Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.
A declaração foi divulgada na última quinta-feira (17) nas redes sociais do Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Fluminense, Flamengo, Vasco e Cruzeiro, entre outros, além da Federação Paulista de Futebol e da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

*Sob supervisão de Luiz Daudt Junior.













