A eventual redução de repasses de benefícios sociais ameaça a renda das famílias e a atividade comercial em cerca de 4 mil cidades do interior do país, segundo o levantamento do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made).
O estudo da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) foi divulgado nesta semana. Fora das grandes regiões metropolitanas, essas cidades, que correspondem a quase 70% dos 5.569 municípios do país, dependem diretamente dos recursos de transferências federais para movimentar o comércio local, sustentar postos de trabalho e garantir a arrecadação municipal.
Motor do comércio: como o dinheiro dos auxílios sustenta as lojas de bairro
O dinheiro no bolso do morador vira compra imediata na padaria, na farmácia e no mercado da esquina. Famílias com renda de até 1,5 salário mínimo por pessoa gastam quase todo o valor recebido em itens de primeira necessidade.
Programas do governo federal, como aposentadorias, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Bolsa Família sustentam quase metade do orçamento das famílias mais pobres em áreas consideradas de interior, funcionando como a principal engrenagem financeira dessas localidades.
Sem ganhos reais, a renda agregada de municípios do interior ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo do cenário de valorização contínua. O impacto econômico se espalha por toda a cadeia urbana. Quando o morador perde poder de compra, o comerciante vende menos, o dono do estabelecimento corta vagas de trabalho e a prefeitura do município arrecada menos impostos. Uma eventual retração atingiria inclusive as famílias que não recebem nenhum auxílio do governo.
No interior do Ceará, por exemplo, os benefícios sociais e previdenciários representam 40% da renda agregada, contra 22% na capital Fortaleza e na região metropolitana. Essa diferença escancara a vulnerabilidade dos pequenos municípios diante de eventuais cortes do governo federal.

Estados mais afetados pelos cortes de benefícios sociais
Neste cenário, caso ocorra redução de repasses, as maiores quedas projetadas estão em municípios do interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, com redução de 17% a 18% na renda local. Em seguida aparecem as áreas interiores do Amazonas, Sergipe e Pernambuco, onde o encolhimento financeiro chegaria a cerca de 15%.
No Ceará, Maranhão, em Alagoas e Bahia, a queda ficaria entre 10% e 13%, enquanto no Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o prejuízo chegaria a 6,5%.
A projeção de queda na renda agregada do interior varia conforme a região. Sem reajuste real, a perda média geral fica entre 6,8% e 10,8%.
Aumento da vulnerabilidade e pobreza extrema
Conforme a pesquisa, a ausência de reajustes entre 2022 e 2025 teria levado cerca de 2,7 milhões de pessoas à pobreza, sendo 2,4 milhões à extrema pobreza fora dos grandes centros urbanos. O estudo do Made/USP revela que qualquer congelamento nos repasses desidrata o consumo das famílias que vivem no limite do orçamento.
Em números absolutos, os maiores impactos na pobreza ocorreriam em três estados populosos:
- Bahia: até 336 mil pessoas empurradas para a pobreza.
- São Paulo: até 263 mil pessoas afetadas no interior paulista.
- Minas Gerais: até 251 mil novos pobres fora da região metropolitana.
Benefícios gastos com itens de primeira necessidade
Evitar cortes em benefícios sociais garante a sobrevivência financeira das famílias mais vulneráveis e assegura o dinamismo econômico de milhares de pequenos municípios em todo o país.
A economista, professora da Unicamp e pesquisadora do Made, Luiza Nassif argumentou à Agência Brasil:
Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa.
Entre os benefícios avaliados no estudo estão aposentadorias e pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Bolsa Família. Os detalhes das simulações, recortes por região e microdados sobre o impacto econômico dos benefícios sociais nos municípios do interior estão disponíveis na nota de política econômica do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades. O documento completo pode ser consultado no site oficial do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made-USP).
FOTOS: O que o beneficiário deve manter atualizado para não perder o CadÚnico
*Com edição de Luiz Daudt Junior.








