A indústria do plástico, responsável por movimentar cerca de R$ 6 bilhões por ano e considerada a segunda maior força econômica do Sul de Santa Catarina, entrou no centro de um debate no Congresso Nacional que pode mudar os rumos do setor. Três projetos de lei em tramitação no Senado preveem a substituição ou até o banimento de plásticos de uso único, medida que preocupa empresários e trabalhadores de uma cadeia formada por 239 indústrias, responsável por mais de 12 mil empregos diretos e quase 50 mil indiretos na região.
A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal analisa os projetos. Um deles, de autoria do senador Jean-Paul Prates (PT-RN), determina que, em sete anos, o Brasil deverá ter somente embalagens plásticas retornáveis ou compostáveis.
Outro projeto semelhante também prevê o banimento de plásticos não retornáveis. O projeto de autoria do senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) define prazo de dois anos para a substituição dos plásticos de uso único no país. Por último, um texto do senador Izalci Lucas (PSDB-DF) proíbe sacolas plásticas que não sejam biodegradáveis ou compostáveis.
Os projetos, caso aprovados, impactariam diretamente na economia catarinense, principalmente das indústrias do Sul do Estado. A região abrange cerca de 30 municípios, e é o maior polo produtor de plástico do Brasil.
Representantes da indústria catarinense buscam alternativas
Os projetos de lei foram discutidos pelos senadores junto com empresários catarinenses da indústria de plástico. No dia 24 de junho, os membros da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) realizaram uma audiência pública em São Ludgero, no Sul catarinense, um dos principais polos da indústria de descartáveis do país.
No entendimento dos empresários, embora o banimento do plástico seja a solução óbvia para reduzir a poluição, o setor tem investido em encontrar alternativas para reciclagem e produção de materiais plásticos retornáveis.
— Nossa mensagem ao Congresso Nacional é de equilíbrio. O Brasil pode proteger o meio ambiente e, ao mesmo tempo, fortalecer a sua indústria — disse o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Descartáveis de Criciúma, Paulo Cordes.
Cordes afirma, ainda, que as políticas públicas não podem deixar em segundo plano as 12 mil famílias que, segundo ele, dependem da atividade na região:
— Os responsáveis pela poluição não são os produtos. A responsabilidade está no comportamento humano, especialmente quando ocorre o descarte inadequado de resíduos que poderiam ser reaproveitados ou reciclados.
Poluição afeta outros setores da economia
Em contrapartida, o coordenador do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, Alexander Turra, destaca que a economia do mar tem sido ameaçada pela presença de microplásticos, que vem aumentando em todo o mundo e afeta também Santa Catarina.
— A indústria da aquicultura em Santa Catarina fica muito prejudicada quando a qualidade da água do mar é reduzida. A gente está falando de um sistema muito amplo, que precisa ser compreendido — argumentou.
Indústria alega “desinformação” em relação ao uso de plástico
Em sua exposição na audiência, o diretor-executivo do Sindicato das Indústrias Plásticas do Sul Catarinense (Sinplasc), Elias Caetano, apontou a existência de uma “narrativa da desinformação em relação ao plástico”.
— O setor é alvo de uma enorme campanha de desinformação. Hoje, o setor plástico [é] a principal indústria do Sul catarinense, especialmente os descartáveis, que figuram na principal posição. A gente não pode desconsiderar essa importância — afirmou.
Apreensão da indústria
Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Paulo Teixeira, as empresas têm que decidir se vão efetivamente investir em logística reversa ou se vão parar de produzir o plástico de uso único.
— São sinais, ruídos, e isso atrapalha a nossa economia. Nós estamos trabalhando com o decreto que institiu a logística reversa, mas muito apreensivos, porque a qualquer momento todos os investimentos que a gente fez podem ser inócuos ou não servir para nada e ser dinheiro jogado fora — afirmou.
Representante da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Thiago Rocha Fabris destacou a importância econômica do setor plástico para a região. Segundo ele, a previsão do consumo de plástico até 2060 é de até 1,2 bilhão de toneladas, o que exige soluções por parte dos setores da economia circular.
