Adimir Telles, empresário de Joinville que abriu duas sorveterias na cidade do Norte catarinense, lembra bem como era ir de casa em casa na busca de serviço quando trabalhava de auxiliar de pedreiro. Neste meio tempo chegou a trabalhar também como caseiro em uma igreja, onde recebia cestas básicas e, muitas vezes, trocava o trabalho por sacos de arroz e ovos. Com a família para sustentar, ele precisou desde cedo a aprender a cuidar do seu dinheiro e buscar formas para crescer.
Hoje, com dois livros lançados, ele relembra como toda sua trajetória foi construída com base no que ele já acreditava. “Eu acreditava em mim mesmo. Eu sabia que era um bom profissional, porque tudo o que eu ia fazer procurava fazer com excelência”, compartilhou ao NSC Total.
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Natural do Paraná, Telles veio de uma família com poucos recursos e deixou os estudos ainda na quinta série. Casou-se jovem, por volta dos 18 anos, e logo se tornou pai. Sem formação profissional e com três filhas para sustentar, encontrou na construção civil uma das primeiras formas de renda, trabalhando como auxiliar de pintor, servente e ajudante de pedreiro.
Na época, conta que a pouca idade também dificultava conseguir oportunidades melhores e receber mais pelo trabalho.
“Na construção civil, eu não tinha muita credibilidade pelo fato de ser novo. E, para trabalhar fixo, eu não tinha formação. Cheguei a trabalhar como auxiliar e, logo que casei, fui morar em Irani, em Santa Catarina. Trabalhei também como auxiliar de pintor em uma empresa, mas ganhava muito pouco. Não tinha condições de manter minha esposa e meus três filhos. A gente morava em uma casinha nos fundos do terreno do meu sogro, que também era de uma família humilde.”
Foi ainda neste período que uma das primeiras mudanças começou a acontecer. Telles recebeu um incentivo de um conhecido, no qual hoje ele entende como um mentor, para que ele voltasse à sala de aula e buscasse uma formação ligada à área de edificações. E foi o que ele fez. Durante o dia, Telles trabalhava e depois seguia para as aulas, que se estendiam até a noite. A decisão não foi bem recebida por todos ao redor dele.
“Eu trabalhava por dia de servente de pedreiro e à tarde ia estudar. Passei a ser criticado por muitos, principalmente por parentes. Diziam: ‘Onde já se viu estudar? Isso é coisa de vagabundo. Ou você é pedreiro ou você não é pedreiro’”, relembra. Apesar de querer desistir, ele continuou.
De caseiro a trabalhar por um pacote de arroz
Uma nova oportunidade levaria a família para a Região Metropolitana de Curitiba. Por volta de 2004, Telles se mudou com a esposa e as três filhas para Colombo, onde passou a morar como caseiro em uma igreja. A mudança, que inicialmente representava uma chance de recomeçar, se transforma no que ele define como um dos períodos mais difíceis da vida.
“Chegando lá, morar de caseiro, foi o meu maior desafio, meu maior deserto. Minha esposa não poderia trabalhar fora, eram três filhos. Então eu tentava caçar serviço na área de pedreiro, mas pessoas não confiavam”, conta.
Segundo o empresário, ele recebeu ofertas com valores bem abaixo do que era pago normalmente a um pedreiro. Ele decidiu não aceitar.
“Eu me recusei. Quando me recusei, a igreja cortou minha cesta básica. Aí que o negócio ficou complicado”, relembra. Sem a ajuda e ainda com a família para sustentar, ele começou a percorrer as ruas de Colombo em busca de qualquer serviço que pudesse fazer. Nem sempre a remuneração era em dinheiro.
“Eu fui para a rua. Pegava rua por rua, batendo palma e perguntando: ‘Está precisando de pedreiro? Está precisando de servente? Está precisando de ajudante?’. E, quando eu batia com a cara na porta, dizia: ‘Eu trabalho para você aqui, você só me dá um pacote de arroz’. Só um pacote de arroz para mim já estava bom”, lembra.
O cálculo era feito pensando no que precisaria levar para dentro de casa. “Um pacote de arroz de cinco quilos, com as meninas pequenas, dava para a gente comer praticamente 15 dias. Então passei a trabalhar por um pacote de arroz, por dúzia de ovos, caixa de poncã.”
Uma meia branca e a virada como pedreiro
Foi também neste período que um serviço aparentemente comum ajudou a mudar os rumos da trajetória profissional. Um pedreiro, sem disponibilidade para assumir mais um trabalho, indicou Telles para atender um casal em Curitiba. “Eu cheguei lá e não tinha nem meia para vestir. Minha esposa comprou uma meia. Quando entrei na casa, ela insistiu para eu entrar com o sapato. Eu disse: ‘Não, eu vou tirar o sapato’. Tirei e entrei com aquela meia limpinha”, conta.
O serviço foi fechado. Quando terminou o trabalho, ele descobriu que o detalhe da meia havia chamado atenção, pois o casal, que procurava alguém cuidadoso para a obra, reparou na meia ao entrar na casa.
A partir daquele trabalho, conta Telles, novas indicações começaram a aparecer. Ele passou a buscar palestras, eventos e capacitações e se especializou na instalação de revestimentos. Com o irmão, começou a atender obras de clientes de maior poder aquisitivo e clínicas odontológicas na região de Curitiba.
“A partir dali as portas abriram. Então fui procurar capacitação. Onde tinha palestra, onde tinha evento, eu ia. Passei a me especializar em revestimento”, relembra. Por volta de 2004 e 2005, segundo ele, os serviços já eram feitos principalmente por agendamento.
Dinheiro entrava, mas também saía
A melhora da renda trouxe outra percepção. Telles conta que, apesar de passar a ganhar mais, a situação financeira da família não evoluía na mesma proporção.
“Eu comecei a perceber que o dinheiro que eu ganhava não conseguia guardar. Da mesma forma que entrava, saía. Foi aí que percebi que a prosperidade começa quando você assume o controle do dinheiro que ganha, e não quando você ganha mais”, afirma.
Com as três filhas chegando à adolescência, surgiu a preocupação de criar uma segunda fonte de renda para a família. Foi aí que ele começou a entrar no ramo da sorveteria. Uma tia dele tinha uma sorveteria, no início ele não quis entrar, pois sabia da rotina corrida do comércio, mas também viu que ali seria um caminho a seguir.
Primeira sorveteria não deu certo
Mesmo assim, ele decidiu tentar. Em 2010, abriu uma sorveteria em Colombo. Comprou equipamentos, alguns parcelados, mas o primeiro empreendimento não teve o resultado esperado. Mais tarde, o negócio acabou fechando.
A experiência, porém, não seria o fim. Uma irmã de Telles havia se mudado para Joinville para trabalhar em uma indústria. Morando no bairro Vila Nova e com dificuldades financeiras, recebeu dele a sugestão de abrir uma pequena sorveteria.
“A gente cortou a parede da casa dela, uma casinha alugada, abriu aquela parede, colocou os freezers e eu passei a vender o sorvete para ela em Joinville”, lembra. Foi ali que ele começou a perceber uma diferença entre os dois mercados. Por mais que a operação em Colombo não havia decolado, as vendas em Joinville cresciam.
Segundo Telles, chegou a fornecer quase 5 mil picolés para a sorveteria da irmã no Vila Nova. “Ali que eu comecei a faturar na sorveteria, mas não deixei de trabalhar de pedreiro”, conta.
Joinville vira aposta da família
A resposta do público fez Telles enxergar em Joinville a possibilidade de investir novamente no ramo. Ainda sem muitos recursos, a família começou aos poucos. Em 2014, ele comprou um imóvel na cidade. Depois vieram reformas, ampliações e a compra do terreno vizinho.
“A gente não tinha recursos. Compramos aqui na Zona Sul um terreno onde tinha uma casinha velha, demos uma reformada, uma ajeitada e o negócio foi indo”, conta.
Em 2016, a operação da Sorveteria Telles, no Paranaguamirim, começou a ganhar mais força. O negócio passou a se sustentar, novos funcionários foram contratados e a família ampliou a estrutura. Mesmo assim, Telles ainda não se sentia pronto para abandonar a construção civil.
“Todo esse processo eu continuava trabalhando de pedreiro”, afirma. Ele conta que deixou definitivamente os serviços na construção apenas cerca de quatro anos atrás. Aos poucos, as filhas também se aproximaram do empreendimento. Hoje, segundo Telles, são elas que comandam a maior parte da gestão das sorveterias.
Com o crescimento, a família abriu uma segunda unidade. Também chegou a planejar uma terceira operação em Garuva, onde adquiriu terrenos e começou a estruturar um novo espaço. O projeto mudou com o passar dos anos e agora, segundo ele, o imóvel deverá receber uma casa de eventos.
Atualmente, cerca de dez pessoas trabalham diretamente na operação, número que aumenta durante o verão. Além de funcionários contratados, participam do negócio Telles, a esposa, as três filhas e um dos genros.
“Somos toda a nossa família trabalhando. Eu, a esposa, as três meninas, mais o genro. Tem mais quatro ou cinco meninas que trabalham com a gente. Então hoje trabalhamos com uma média de dez pessoas, um pouco mais no verão”, afirma.
Veja produtos da sorveteria Telles:
Da experiência com dinheiro aos livros
As experiências acumuladas entre a construção civil, as dificuldades financeiras e o crescimento da empresa acabaram ganhando também outro formato. Incentivado pelas filhas e por amigos, Telles passou a escrever sobre comportamento financeiro e as ideias que diz ter colocado em prática ao longo da própria trajetória.
Depois de abandonar os estudos ainda na infância, ele concluiu a educação básica já adulto e, mais tarde, fez graduação em Educação Social. Também estudou Teologia. Incentivado pelas filhas também começou a escrever, seu último lançamento foi o livro “Porque Não Tenho Acesso Ao Meu Dinheiro”.
A proposta é discutir o comportamento das pessoas diante do dinheiro e principalmente a diferença entre aquilo que desejam e aquilo de que realmente precisam. “Eu falo daquilo que apliquei na minha vida. Eu falo daquilo que vivi, daquilo que coloquei em prática e deu certo”, afirma.










