Um fruto tradicional do Sul de Santa Catarina ganhou espaço em receitas que vão da cerveja artesanal ao pudim. Em Imbituba e Laguna, o butiá ajuda a gerar renda para famílias e inspira empreendedores a criar novos produtos. Ao mesmo tempo, uma pesquisa busca acelerar a germinação das sementes e contribuir para a preservação dos butiazeiros.
O sabor marcante da fruta é o ponto de partida para quem aposta nessas criações. Entre testes na cozinha, produção artesanal e cultivo, moradores da região encontram diferentes formas de aproveitar o butiá e manter viva a relação com uma planta nativa do Sul do Brasil.
Cerveja de butiá nasceu de lembranças da infância
Em Imbituba, Mariélen Farias e o marido, Eduardo Cardillo, desenvolveram uma cerveja com butiá há quase dez anos. A ideia tem ligação com a infância da empreendedora, que cresceu em uma área rural cercada por butiazeiros.
“Na infância, a gente fazia doce com a amêndoa do coquinho do butiá”, relembrou.
Os primeiros testes de cerveja foram feitos em casa, com a participação do marido e do sogro. Até chegar à receita desejada, a família precisou experimentar diferentes preparos para incorporar sabor, cor e aroma da fruta à bebida.
A polpa é adicionada em uma das etapas finais da produção, pouco antes de a cerveja ficar pronta. Segundo Mariélen, o momento escolhido ajuda a preservar as características do butiá.
A cervejaria produz cerca de 2 mil litros por mês, com venda concentrada na própria cidade. Boa parte do trabalho é manual, incluindo o envase e a colocação dos rótulos. Além da cerveja, Mari também prepara suco com a fruta.
Pesquisa acelera germinação das sementes de butiá
Cinco butiazeiros cultivados no espaço da cervejaria vieram de uma pesquisa coordenada pela engenheira agrônoma Morgana Tuzzi, em uma indústria do setor do agronegócio de Imbituba. Os dois mais antigos têm quatro anos e já renderam cerca de oito cachos, destinados à produção da bebida.
No projeto, as sementes são colocadas em uma câmara de germinação com temperatura e umidade controladas e substrato à base de areia. O objetivo é quebrar a dormência, condição em que a semente aguarda um ambiente favorável para germinar.
Segundo a pesquisadora, o método permite que as sementes comecem a germinar em cerca de 60 dias. Na natureza, esse processo pode levar pelo menos dois anos. O tratamento inclui 21 dias a uma temperatura de 40 graus. Depois, a temperatura é reduzida e, após a germinação, as mudas seguem para um viveiro.
Parte delas é doada à comunidade. As demais são destinadas a uma área de preservação ambiental de 25 hectares. O trabalho busca contribuir para a conservação do butiá catarinense, apontado na reportagem como uma espécie ameaçada de extinção.
O butiazeiro também está entre as plantas selecionadas pela Epagri para estudos de recuperação de áreas degradadas pela agricultura. A proposta é implantar sistemas agroflorestais que combinem a formação de uma floresta com espécies de valor econômico.
Em Laguna, cultivo de butiá abastece produção de licores
Embora a coleta na natureza seja a principal forma de obtenção do fruto, algumas famílias se dedicam ao cultivo. Em uma propriedade de Laguna, Rogério Rodrigues mantém mais de 200 butiazeiros plantados há cerca de 40 anos.
O produtor relata que o cultivo exige paciência e cuidados com a localização, a exposição ao sol e o manejo das plantas. Na propriedade, as podas são realizadas todos os anos.
Além de vender a fruta, Rogério prepara o licor. Parte do butiá também é repassada a pessoas que produzem polpa. Para manter o produto disponível, a família armazena tanto a fruta quanto a polpa em freezers.
Pudim de butiá chama atenção nas feiras
Também em Laguna, Carol Nascimento encontrou na confeitaria uma maneira de transformar o fruto em renda extra. Depois de testar receitas, passou a usar o butiá em pudins, brigadeiros e trufas.
No pudim, a base é a receita tradicional. A diferença está na polpa, preparada pela própria empreendedora e submetida a um processo de cozimento e redução antes de ser incorporada aos demais ingredientes.
“Se eu utilizar a polpa pura, ele talha, porque, em contato com o leite, é muito ácido”, explica.
A sobremesa é vendida em feiras da região e desperta a curiosidade de quem ainda não conhece essa combinação. Segundo Carol, muitas pessoas compram justamente para experimentar um sabor diferente.
*Com informações da NSC TV
