A falta de educação financeira virou um problema direto de segurança e saúde no Brasil. Pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), divulgada no último ano, em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) revela que 55% da população admite entender pouco ou nada sobre o próprio dinheiro, embora 91% considerem o tema indispensável. O baixo nível de instrução amplia a vulnerabilidade do consumidor. Conforme o estudo, 39% dos brasileiros afirmam já ter sido vítimas de golpes bancários, o maior patamar já registrado na série histórica. É o mesmo que dizer que duas a cada cinco pessoas já sofreram com golpes financeiros no país.
O impacto da falta de planejamento financeiro vai além do prejuízos com golpes e atinge em cheio o orçamento doméstico. Com o endividamento atingindo 39% da população, a sobrecarga de contas estoura no bem-estar social. De acordo com a pesquisa, 77% das pessoas endividadas relatam impactos na saúde mental, convivendo com picos de ansiedade e constante insegurança em relação ao futuro.
Bets e o receio dos investimentos
O avanço das apostas online, as chamadas bets, entrou no centro desse alerta sobre a saúde financeira. Para 81% dos entrevistados, as plataformas de apostas trazem um impacto negativo ou muito negativo para o orçamento familiar. O estrago pode ser visto no cotidiano. 37% das pessoas afirmam conhecer alguém próximo que sofreu golpes financeiros por conta dos jogos de azar.
Ao mesmo tempo em que a renda corrói com o entretenimento de alto risco, a capacidade de guardar recursos despenca. Cerca de 27% dos brasileiros se sentem pouco ou nada seguros para poupar ou investir em produtos financeiros.
Sem uma reserva de emergência para momentos de crise, o consumidor se coloca em uma situação de grande exposição, e as promessas de ganho fácil se tornam armadilhas, ocasionando o possível golpe, nesse ambiente virtual.
Educação financeira blinda as onda de fraudes digitais
Saber gerenciar o próprio dinheiro se torna uma ferramenta estratégica de proteção ao patrimônio. Com o avanço acelerado dos golpes digitais e da engenharia social, a falta de informações claras sobre o sistema financeiro tem sido o grande gargalo nas formações de reservas de emergência e a autonomia dos consumidores.
A pouca familiaridade com o funcionamento dos bancos e do mercado de capitais deixa milhões de pessoas vulneráveis a promessas de ganhos fáceis e rendimentos fora da realidade, especialmente em redes sociais e aplicativos de mensagem.
Com criminosos usando abordagens cada vez mais personalizadas para capturar dados e induzir transferências, o conhecimento prático passou a atuar diretamente como primeira linha de defesa cibernética e financeira, evitando os golpes digitais.
Existe um Projeto de Lei 2747/2024 que propõe tornar obrigatória a educação financeira nas escolas públicas e particulares de todo o país. Em tramitação na Câmara dos Deputados, a proposta aguarda a definição de um novo relator na Comissão de Educação.
Proteção patrimonial contra golpes
Na prática, a educação financeira atua na prevenção de perdas e no reequilíbrio das contas. O consumidor que procura entender o cenário, aprende a:
- Gestão de risco: capacidade de identificar golpes e entender os limites do retorno de cada aplicação.
- Controle de juros: clareza sobre o impacto de taxas no orçamento para estancar o endividamento.
- Mecanismos de segurança: conhecimento de rotinas bancárias para reconhecer movimentações atípicas antes que o golpe aconteça.
Mais do que escolher onde aplicar, a educação financeira permite entender a dinâmica do mercado, um passo fundamental para estancar o endividamento, evitar o golpe, garantir a segurança dos ativos e restaurar a capacidade de investimento das famílias.
A pesquisa da Febraban
A 17ª edição do Observatório Febraban/IPESPE foi realizada entre 12 e 26 de junho de 2025 e ouviu 3 mil pessoas nas cinco regiões do país. A pesquisa reuniu participantes de diferentes idades, níveis de escolaridade e perfis socioeconômicos, oferecendo um retrato amplo das desigualdades de informação da educação financeira que impactam o mercado consumidor e o setor monetário brasileiro.
*Com edição de Luiz Daudt Junior.





