O leilão do Aeroporto de Brasília, marcado para 17 de dezembro, vai definir a venda dos 49% da Infraero no terminal entre Zurich Airports e Inframérica. A vencedora terá de pagar R$ 628,76 milhões pela participação estatal e assumir R$ 1,2 bilhão em investimentos na infraestrutura do aeroporto e R$ 857,8 milhões na modernização de dez aeroportos regionais.
A relicitação do terminal brasiliense decorre de um acordo de compensação financeira bilateral firmado entre o Ministério dos Portos e Aeroportos (Mpor) a atual operadora para restabelecer o equilíbrio econômico do contrato. A Inframérica mantém o interesse na operação puxada pela fatia da argentina Corporación América. No entanto, a gigante suíça Zurich Airports desponta como principal rival na disputa. O mercado observa ainda movimentações discretas da espanhola Aeropuertos Españoles y Navegación Aérea (Aena) e da mexicana Grupo Aeroportuario del Sureste (Asur).
Leilão do Aeroporto de Brasília coloca Zurich e Inframérica na disputa
A Zurich Airports chega forte na disputa do leilão do Aeroporto de Brasília ancorada na experiência recente com ativos repassados pela própria rival. A operadora suíça assumiu a gestão do aeroporto de Natal, que pertencia à Inframérica, em um processo com modelagem idêntica à que vai a leilão na capital federal. O grupo europeu consolida presença no mercado brasileiro, onde já administra os terminais de Florianópolis, Vitória e Macaé, além de ter assumido recentemente a operação do terminal potiguar.
A Inframérica busca reter o controle operacional do segundo terminal mais movimentado do país apostando no conhecimento prévio da estrutura. A disputa exige fôlego financeiro das empresas candidatas: o edital estipula a entrega das propostas com garantia até o dia 10 de dezembro, antecedendo o leilão público no dia 17, às 15h.
Exigências de investimentos em dez terminais
Os projetos de expansão no Aeroporto Internacional de Brasília exigem R$ 1,2 bilhão em obrigações imediatas para o vencedor. As obras previstas englobam a construção de um novo terminal internacional, um edifício-garagem amplo e uma nova via de acesso viário ao complexo aeroportuário.
O contrato também atrela a concessão do hub federal ao investimento de R$ 857,8 milhões em dez aeroportos regionais, incluídos pelo Programa AmpliAR do Governo Federal. As obras em terminais como Bonito, Dourados e Barreiras serão contrapartidas compulsórias do contrato, mesmo com o prazo de concessão limitado a julho de 2037.
Os dez aeroportos incluídos no pacote são Alto Paraíso de Goiás (GO), Barreiras (BA), Bonito (MS), Cáceres (MT), Dourados (MS), Juína (MT), Ponta Grossa (PR), São Miguel do Araguaia (GO), Tangará da Serra (MT) e Três Lagoas (MS).
Alerta sobre aeroportos sem voos
Analistas de infraestrutura alertam para o risco comercial do bloco regional. Metade das pistas incluídas no pacote não conta com rotas comerciais regulares nem previsão de voos de linha no curto prazo. A sustentabilidade financeira desses terminais dependerá exclusivamente das receitas geradas pela aviação executiva e pelo aerodesporto agrícola, transferindo para a receita do terminal brasiliense o peso da equalização da conta.
De acordo com especialistas da área de regulação e logística, esse cenário pode sobrecarregar a concessionária do aeroporto principal e afastar investidores internacionais nas próximas rodadas. O modelo, conhecido no jargão técnico como “subsídio cruzado”, tem o objetivo social de desenvolver a aviação regional no interior do país, mas é frequentemente criticado pelo mercado por mascarar o déficit operacional de aeródromos sem apelo comercial.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) defendeu o desenho do edital e informou que o agrupamento de ativos busca justamente garantir investimentos em infraestruturas que não se sustentariam de forma isolada. Segundo a agência reguladora, a contrapartida exigida nos contratos assegura a modernização das pistas do interior, fomentando novos polos de escoamento agrícola e turismo executivo a longo prazo.
Por outro lado,consultorias de aviação civil e entidades representativas do setor, como a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), alertam que o sucesso do bloco dependerá de incentivos fiscais complementares por parte dos governos estaduais, como a redução da alíquota do ICMS sobre o combustível de aviação (QAV).
Sem essas medidas de estímulo à demanda regional, o risco de o Aeroporto de Brasília operar no limite de sua margem de equalização torna-se um entrave real para a eficiência de todo o lote concedido.
FOTOS: Maiores aeroportos do planeta, segundo ranking do ACI World
*Sob supervisão de Luiz Daudt Junior.








