Uma máquina de escrever com marcas depois de décadas de uso, ocupa seu espaço pessoal; mas foi diante de um computador moderno que Giuseppe Paternò precisou encarar uma última prova da faculdade. Aos 96 anos, dentro do apartamento onde vivia em Palermo, ele fez o exame oral por videochamada enquanto a pandemia era contida mundo afora, e mantinha as salas de aula fechadas.
A videochamada era novidade. A rotina de estudos, não. Desde 2017, Paternò acordava às sete da manhã, passava boa parte do dia entre livros e anotações e, depois de um descanso à tarde, retomava as leituras até perto da meia-noite. Os trabalhos eram datilografados em uma velha máquina de escrever. Para pesquisar, ele dispensava o Google e recorria às páginas impressas.
Restava concluir Estudos Filosóficos e Históricos na Universidade de Palermo. Quando o diploma veio, em 29 de julho de 2020, o ex-ferroviário não era apenas o graduado mais velho da Itália. Aos 96 anos, terminou o curso com nota máxima e em primeiro lugar na sua turma.
Sonho que ficou engavetado
Paternò nasceu em 1923 e cresceu como o mais velho de sete irmãos em uma família pobre da Sicília. E desde menino, começou a ajudar o pai em uma cervejaria de Palermo. Gostava de viver dentro dos livros, mas para estudar, por muitos anos era um luxo que a casa não podia pagar.
Aos 20, serviu na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, casou, teve dois filhos e passou a trabalhar nas ferrovias italianas. Naquele momento, as obrigações do emprego e a dedicação para com sua família ocuparam o espaço que ele gostaria de ter reservado à universidade.
Mesmo assim, a escola não desapareceu por completo. Paternò frequentava aulas à noite e estudava depois do expediente. Concluiu o ensino médio aos 31 anos, já com a vida adulta tomada por responsabilidades, mas ainda precisaria esperar mais de seis décadas para entrar em uma faculdade.
“O conhecimento é como uma mala que carrego comigo. É um tesouro”, disse Paternò
O recomeço aos 93
A aposentadoria chegou em 1984. Com ela, Paternò ganhou da mãe a máquina de escrever que muitos anos depois seria usada nos trabalhos acadêmicos. O tempo livre aumentou, mas a decisão de voltar formalmente aos estudos só veio em 2017.
Já aos 93, resolveu que era “agora ou nunca” e se matriculou na Universidade de Palermo. A diferença de idade para parte dos colegas passava de 70 anos. Enquanto os mais jovens faziam pesquisas pela internet, ele espalhava livros, anotações e folhas datilografadas pela mesa de casa.
Na faculdade, a idade não diminuía as exigências. Havia provas, leituras, trabalhos e horários. A rotina atravessava o dia e, muitas vezes, avançava até meia-noite. Três anos depois, restavam poucos exames quando a Covid-19 migrou o curso para as plataformas digitais.
Exame final por videochamada
O filho Ninni sugeriu que o pai deixasse as avaliações para depois, por causa do risco à saúde. Paternò recusou. Aos 96 anos, esperar até o semestre seguinte não lhe parecia uma escolha tão simples quanto seria para os colegas.
Com certa dificuldade diante das videochamadas, fez o exame final de casa em junho de 2020. E um mês depois, recebeu o diploma e a tradicional coroa de louros dos formandos italianos. Familiares, professores e estudantes acompanharam a cerimônia, organizada sob os critérios de distanciamento social.
O resultado mostrou que Paternò não estava ali apenas pela idade. Ele foi aprovado com as maiores honrarias acadêmicas e terminou em primeiro lugar. A própria Universidade de Palermo o apresentou como um exemplo de cultura e determinação.
“Finalmente realizei meu sonho”, afirmou Paternò. Na comemoração, sentiu falta da esposa. “É um dos dias mais felizes da minha vida. Só queria que minha mulher estivesse aqui para me ver”, disse ele. Stefana Battaglia havia morrido em 2006.
Segundo diploma aos 98
Depois da cerimônia, Paternò não guardou os livros. Continuou na mesma área e, em 2022, recebeu o diploma de mestrado em História e Filosofia aos 98 anos, novamente com nota máxima.
A máquina de escrever continuava sobre seu espaço pessoal, cercada pelos mesmos livros e anotações que o acompanharam na universidade. Nela, Paternò havia preparado os trabalhos da graduação e do mestrado, e agora, tem desejo de começar a escrever um romance. O menino siciliano que precisou deixar os estudos para depois chegou aos 98 anos com dois diplomas nas mãos. E – felizmente – ainda não terminou de escrever a própria história.











