Os cabelos grisalhos em meio a uma sala de aula cheia de estudantes podem até fazer alguém pensar que José Marques de Oliveira é o professor. Mas basta a conversa começar para descobrir que ele está ali para aprender. Aos 79 anos, o morador de Balneário Camboriú é estagiário de uma escola pública e está cada vez mais perto de realizar um sonho antigo, o de se tornar professor de História.
Apaixonado por leitura desde a infância, José sempre quis fazer faculdade. As dificuldades financeiras na juventude e a rotina de viagens como comerciante, porém, adiaram esse plano por muitos anos. Com a aposentadoria, surgiu a oportunidade de voltar a estudar. Em 2002, ele retomou a vida escolar para concluir a educação básica.
Depois, veio o vestibular e o início da tão desejada faculdade. José chegou a cursar alguns semestres, mas precisou interromper os estudos e enfrentou uma sequência de dificuldades. Teve problemas de saúde, perdeu a esposa, passou pelas enchentes e, mais tarde, pela pandemia. Ainda assim, não abandonou o objetivo.
Desde setembro, ele divide a rotina entre as aulas da faculdade e o estágio no Centro Educacional Armando César Ghislandi, no bairro Vila Real, em Balneário Camboriú. As atividades se estendem pela manhã e à tarde. A previsão é que José, que chegou a Santa Catarina vindo do Nordeste em 1976, conclua a graduação em junho de 2027.
O caminho até aqui também foi marcado pela desconfiança de quem não acreditava que ele conseguiria aprender. José, porém, nunca aceitou que a idade fosse um impedimento.
“Todo mundo dizia que eu não ia aprender, me discriminavam bastante: ‘Tu és louco da cabeça, tu não vais aprender’. Eu dizia: ‘Não vou? Eu vou aprender, sim. Por que não?”, relembra.
O estágio é obrigatório para a formação acadêmica, mas representa muito mais para José. É a oportunidade de acompanhar de perto o trabalho em sala de aula e dar mais um passo em direção à carreira que deseja seguir.
“Quando saiu meu estágio aqui, eu disse: ‘Meu Deus do céu, não acredito que deu tudo certo’. Eu pensava: ‘Será que sou eu mesmo?’. Parecia um sonho”, conta.
A dedicação do estudante também chama a atenção de quem acompanha sua rotina. Para o professor de História Gabriel da Silva Montenegro, a disposição de José para continuar aprendendo é uma inspiração.
“É inspirador ver alguém que, mesmo com a vida feita, ainda tem interesse em aprender algo profundamente, a ponto de querer fazer uma faculdade. Em um tempo de desinformação e desvalorização do conhecimento, ver o seu José empenhado em aprender e observando as aulas com carinho e atenção me inspira a me tornar um professor melhor”.
