Primeira iraniana médica pela UFSC não sabia português, enfrentou xenofobia e distância de casa: “Fiz um sacrifício”

Sedigheh Anzani recebeu o diploma em julho, após dez anos ligada a universidades no Brasil; trajetória foi marcada por choque cultural e desafios

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Sedigheh Anzani, primeira iraniana médica pela UFSC (Foto: Divulgação, UFSC)

A formatura em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) marcou um feito histórico para Sedigheh Anzani: ela foi a primeira iraniana a concluir o curso na instituição. A trajetória foi marcada por desafios, aprendizados e novas amizades.

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A aluna ingressou através do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação e realizou sua formatura em dezembro de 2025. O diploma foi recebido no gabinete da Reitoria em julho.

Pelas regras do programa, Sedigheh deveria pegar o diploma na embaixada brasileira no Irã. Porém, devido à guerra, foi aberta uma autorização especial para receber a documentação no Brasil.

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“Eu fiz um sacrifício para me manter nesse curso, para não perder a oportunidade grande que a UFSC me deu. Agradeço à UFSC, que me abraçou no momento em que precisei, realmente me deu oportunidade. Eu nunca vou esquecer essa oportunidade.. É um orgulho de verdade”, conta a médica.

Iraniana que se formou em Medicina na UFSC teve “choque cultural”

Agora mestranda em Ciências Médicas, a iraniana chegou à UFSC em 2016, para o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Farmácia. Até então, não conhecia muito sobre o Brasil, mas tinha vontade de estudar fora, e aceitou a recomendação de um amigo que já conhecia o país. 

Já a UFSC foi sugestão de um trabalhador da embaixada brasileira no Irã, que indicou Florianópolis por ser uma cidade mais tranquila e pela boa colocação da universidade catarinense em rankings.

“Eu não sabia nada de português. Quando cheguei, aprendi português só por curiosidade, não era para ficar. Eu vim para ficar só dois anos, não era era para ficar mais do que isso, não era o que eu estava planejando. Depois mudou a minha vida totalmente, e faz quase dez anos que estou aqui”, relembra Sedigheh.

Em 2018, Sedigheh decidiu fazer uma nova faculdade, e se inscreveu para o curso de Medicina. Como parte da seleção, ingressou inicialmente na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó, em 2019, para aprimorar o português.  Após ser aprovada no exame oficial brasileiro para certificação de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros, iniciou o curso de Medicina na UFSC, em Florianópolis, em 2020.

“Cheguei aqui sozinha, tudo era diferente para mim, até a comida. Foi um choque cultural mesmo. E batalhei para mergulhar na cultura. Era um idioma novo, um sotaque diferente, que eu nunca tinha ouvido. No início, estava assustada, com um pé atrás. ‘Por que essa língua tem música? Como assim? Como eles se entendem?’ Aí fui atrás de aprender. Eu aprendi português aqui na UFSC”, complementa.

Iraniana enfrentou desafios e casos de xenofobia

Além da adaptação cultural, Sedigheh enfrentou diversas dificuldades. Passou pelo período de pandemia em um país novo, longe da família, e por episódios de xenofobia e dificuldades financeiras, uma vez que os auxílios fornecidos pela universidade não davam conta do alto custo de vida de Florianópolis. Ela conta que, para não sofrer, buscou mergulhar na cultura brasileira. 

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“Aí comecei a me comunicar com as pessoas, fazer muitas amizades, ter muitos amigos, e até consegui amigos internacionais aqui no Brasil. […] Depois de um tempo, eu virei brasileira”, enfatiza.

Logo após finalizar a graduação, ingressou no mestrado e está pesquisando sobre pacientes com epilepsia farmacorresistente, sob orientação da professora Katia Lin. Sedigheh, aliás, faz questão de ressaltar o apoio da docente. 

“Estou fazendo mestrado agora na área de Ciência Médica, com uma das melhores professoras do mundo, a doutora Katia. Eu adoro ela, e ela mudou a minha vida. Ela me ajudou bastante, e acho que isso é muito importante que fique registrado. Ela é muito jovem, mas foi como uma mãe para mim”, conclui.