A tentativa de descobrir antecipadamente qual será o tema da redação do Enem costuma ganhar força nos meses que antecedem a prova. Para especialistas em educação, porém, acompanhar os grandes debates da sociedade pode ser mais útil do que apostar em uma manchete específica.
Duas listas elaboradas separadamente por educadores chegaram a três assuntos em comum para 2026: inteligência artificial, inclusão e confiança na informação. A coincidência chama atenção porque os temas podem ser abordados por diferentes perspectivas e não necessariamente aparecerão na prova exatamente com esses nomes.
Inteligência artificial
A inteligência artificial foi apontada pelos dois especialistas, mas com possibilidades diferentes de abordagem.
Renato Júdice, diretor pedagógico da plataforma de educação COC, relaciona o assunto ao eixo de tecnologia e sociedade. Nesse campo aparecem questões como proteção de dados, economia da atenção e responsabilidade das plataformas.
Já Cristiane Imperador, coordenadora do 9º ano e do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo, destaca a presença da IA na aprendizagem e os vieses dos sistemas.
A variedade de recortes mostra por que estudar somente um exemplo pode ser insuficiente. O assunto pode envolver tecnologia, educação, sociedade e os efeitos das ferramentas digitais no cotidiano.
Inclusão e desigualdade
O segundo ponto de encontro entre as listas é a inclusão.
Cristiane chama atenção para os desafios de uma educação inclusiva voltada a pessoas neurodivergentes, considerando diferentes formas de aprender e produzir conhecimento.
Júdice amplia a discussão para questões como capacitismo e desigualdades raciais, territoriais e de gênero. Assim, o tema pode ser estudado a partir de diferentes grupos e das barreiras que dificultam a participação social.
O assunto também se conecta à discussão sobre estudantes com altas habilidades. Para Júdice, esse é um aspecto da educação inclusiva que recebe menos atenção e pode envolver questões relacionadas à identificação desses alunos e ao desenvolvimento de seus potenciais.
Informação sob pressão
A terceira coincidência envolve a maneira como as pessoas recebem, produzem e confiam nas informações.
Para Júdice, deepfakes e desinformação eleitoral podem colocar em dúvida conteúdos que circulam, especialmente em um ano de eleição. Cristiane, por sua vez, inclui a descolonização do pensamento, discussão que questiona formas de dominação cultural, científica e filosófica e amplia o espaço para culturas e conhecimentos historicamente marginalizados.
O próprio Enem exige que o candidato desenvolva um texto dissertativo-argumentativo a partir de uma situação-problema. A prova de redação também envolve a defesa de um ponto de vista sustentado por argumentos e uma proposta de intervenção social.
Outros temas no radar
As listas dos especialistas não ficaram restritas aos três pontos em comum.
Júdice também cita emergência climática, democracia e geopolítica, futuro do trabalho, direitos das juventudes e cultura. Cristiane acrescenta temas como os efeitos da cultura da velocidade sobre a atenção, letramento de futuros e inteligência emocional.
Entre os assuntos que Júdice colocaria no topo dos estudos estão ainda a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, a adaptação climática e a integridade da informação.
A recomendação, portanto, não é tentar decorar possíveis temas. A estratégia apontada pelos educadores é aprofundar alguns debates e entender suas diferentes dimensões, construindo repertório que possa ser relacionado de maneira pertinente ao problema apresentado pela prova.






