Existem frases que só viram frase depois de amputadas. Esta é uma delas. Ela circula em legenda de agenda, em post sobre planejamento e em palestra sobre gestão do tempo, sempre no mesmo formato reduzido, e sempre com o mesmo sentido: o tempo é seu, borde o que quiser. Machado de Assis escreveu outra coisa, e escreveu com uma finalidade bem específica dentro de um romance.
A passagem está no capítulo XXII de “Esaú e Jacó”, publicado em 1904, quatro anos antes da morte do autor. Ela encerra o capítulo, e encerra porque tem uma função técnica: o narrador acabou de dar um salto de vários anos na história e precisa explicar ao leitor por que pode fazer isso.
O salto é grande mas o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro.
O corte popular retira duas coisas, e nenhuma delas é decorativa. A primeira é a abertura, “o salto é grande mas”, que revela que a metáfora nasceu para justificar uma omissão narrativa. Machado não está aconselhando ninguém sobre o próprio tempo. Está avisando que vai pular anos e que isso é legítimo, porque o tempo comporta tanto o que acontece quanto o que não é contado.
A segunda perda é maior. A frase segue por mais duas orações, e é nelas que o texto vira Machado. Depois de listar o que se pode bordar, ele acrescenta que também se pode bordar nada, e conclui que nada sobre invisível é a obra mais sutil deste mundo, e talvez do outro. Bordar nada em um tecido que não se vê: a imagem se anula duas vezes e ele chama o resultado de sutileza máxima. É o mesmo movimento de Quincas Borba, em que uma personagem pega em nada, levanta nada e se cinge com nada.
A lista intermediária também trabalha, e ninguém repara nela. Flor, pássaro, dama, castelo, túmulo. A sequência sobe do delicado ao grandioso e termina em morte. Não é enumeração aleatória de coisas bonitas, é um arco que fecha onde tudo fecha. O tempo comporta o bordado inteiro, inclusive o último ponto.
A leitura motivacional, portanto, inverte o texto. Ela transforma uma observação irônica sobre o vazio em incentivo à realização pessoal. A Academia Brasileira de Letras, em nota sobre a passagem, faz exatamente essa ressalva: a sequência completa amplia a metáfora e evita reduzir o tempo às escolhas individuais, porque também inclui circunstâncias e acontecimentos que apenas atravessam uma vida.
O que a passagem inteira oferece é menos animador e mais interessante. Ela não promete que o tempo seja matéria-prima à disposição de quem quiser trabalhá-la. Sugere que boa parte do que se borda ali é invisível para qualquer um que olhe de fora, inclusive para quem bordou. É uma frase sobre o tempo escrita por alguém que estava, naquele momento, decidindo o que não valia a pena contar.
Você pode gostar de ver também Immanuel Kant, filósofo alemão, disse: ‘Se você castigar uma criança por ser má e a recompensar por ser boa, ela fará o que é certo apenas pela recompensa’.
