A Odisseia: como eram os Povos do Mar na vida real e por que eles são apontados como destruidores da Idade de Bronze

Citados como uma ameaça no filme, os Povos do Mar reuniam grupos de origens distintas que atravessaram um Mediterrâneo em crise há cerca de 3,2 mil anos

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Relevos egípcios, cidades destruídas e análises de DNA ajudam a explicar quem eram os navegadores associados ao colapso da Idade do Bronze (Foto: Divulgação / IMDb)

Relevos egípcios, cidades destruídas e análises de DNA ajudam a explicar quem eram os navegadores associados ao colapso da Idade do Bronze (Foto: Divulgação / IMDb)

Em A Odisseia, de Christopher Nolan, os Povos do Mar aparecem em vários pontos do longa como uma ameaça a toda a civilização grega com um desfecho interessante. Porém, esses grupos existiram na vida real e sua origem é um pouco diferente do que conta o filme.

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Para além de um único grupo ou exército, esses povos pareciam ser membros de diversos povos e nações que assolaram o Mediterrâneo durante o fim da Idade do Bronze. Com a sua identidade sendo até hoje nebulosa, assim como diversas outras coisas apresentadas na Odisseia.

Cidades dessa época que desapareceram

Quem eram eles?

Para começar, a expressão “Povos do Mar” é moderna. Ela foi popularizada por estudiosos europeus no século 19 para reunir grupos que foram primeiramente identificados pelos egípcios durante essa época.

As imagens mais conhecidas e atribuídas a esse grupo estão no templo funerário do faraó Ramsés III, em Medinet Habu. Os relevos representam batalhas ocorridas por volta do século 12 a.C., quando combatentes estrangeiros tentaram avançar contra o Egito.

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Alguns combatentes aparecem com adornos semelhantes a penas. Outros usam capacetes, toucas ou diferentes penteados. Eles carregam escudos redondos, lanças, arcos e espadas apropriadas para confrontos próximos.

As diferenças visuais reforçam que não se tratava de um povo homogêneo. Os artistas egípcios parecem ter representado grupos com equipamentos, roupas e identidades próprias.

Nenhum dos nomes apresentados nos registros sobreviveu ao tempo de maneira que os pesquisadores modernos saibam quem eles são. Porém, existem métodos de associação que permitem “chutes precisos” da provável identidade destes povos.

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O principal método é o de associação linguística e de grafia com nomes que temos conhecimento em registros antigos. Através deste método pouco preciso existem alguns potenciais candidatos.

Essas aproximações oferecem pistas, mas não funcionam como provas definitivas. Um nome parecido pode indicar uma origem, um destino, uma região ocupada anteriormente ou apenas uma coincidência linguística.

Entre todas as associações, a mais aceita liga os Peleset aos filisteus. Esse grupo se estabeleceu no sul do Levante, em uma faixa costeira que incluía cidades como Ascalão, Gaza e Asdode.

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Nem todos eram apenas guerreiros

Um detalhe muda a interpretação tradicional. Os relevos também mostram carroças puxadas por bois, além de mulheres e crianças acompanhando os deslocamentos.

Essa presença sugere que parte dos grupos não participava apenas de expedições militares. Algumas comunidades podem ter abandonado suas terras e atravessado o Mediterrâneo em busca de alimento, segurança ou áreas para se estabelecer.

Os Povos do Mar podem ter incluído, ao mesmo tempo:

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  • guerreiros e mercenários sem vínculo com um reino;
  • populações expulsas pela fome ou por conflitos;
  • saqueadores que se fixaram nas regiões atacadas.

Essas possibilidades não se anulam. Uma população deslocada poderia procurar abrigo, disputar recursos com os moradores locais e recorrer à violência quando encontrasse cidades enfraquecidas.

Por que os Povos do Mar começaram a se mover?

Nenhuma causa isolada explica todos os deslocamentos. Entretanto, documentos antigos mostram que diferentes reinos enfrentavam falta de alimentos pouco antes das grandes destruições.

Autoridades hititas pediram cereais ao Egito, enquanto cidades costeiras também dependiam de carregamentos estrangeiros. Uma sequência de colheitas ruins poderia enfraquecer governos e obrigar comunidades a procurar novas terras.

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Um estudo, publicado na revista científica PLOS One, analisou registros de pólen e outros indicadores ambientais encontrados no Chipre e na costa da Síria.

Os resultados apontaram um período mais seco entre aproximadamente 1200 a.C. e 850 a.C. A redução das chuvas teria prejudicado a agricultura, ampliado a fome e favorecido movimentos populacionais pelo Mediterrâneo Oriental.

O DNA revelou uma possível origem

Uma das pistas mais recentes veio da antiga cidade de Ascalão. Um estudo publicado na revista científica Science Advances analisou o DNA de dez pessoas que viveram na região durante as idades do Bronze e do Ferro.

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Os indivíduos enterrados no começo da Idade do Ferro apresentavam uma parcela de ancestralidade relacionada a populações europeias. Esse componente não aparecia da mesma maneira nos habitantes anteriores de Ascalão.

Nas gerações seguintes, o sinal genético diminuiu devido à mistura com a população local. A descoberta indica que pessoas vindas do oeste chegaram ao Levante na época associada ao estabelecimento dos filisteus.

No entanto, o resultado esclarece apenas a história de uma cidade e de um grupo possivelmente relacionado aos Peleset. Ele não identifica a origem de todos os Povos do Mar.

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Eles destruíram a Idade do Bronze?

Durante décadas, os Povos do Mar foram tratados como os principais responsáveis pelo colapso da Idade do Bronze. Essa explicação simples perdeu força conforme novas escavações revelaram cenários diferentes em cada região.

Ugarit, na atual Síria, sofreu uma destruição violenta. Outros centros foram abandonados sem sinais claros de invasão. Em algumas áreas, os palácios desapareceram, mas comunidades menores continuaram ocupando o território.

Além disso, os impérios já enfrentavam problemas internos. A escassez de alimentos, as disputas políticas, os terremotos e a interrupção do comércio reduziram a capacidade de reagir a ataques ou acolher populações deslocadas.

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Assim, os Povos do Mar provavelmente não derrubaram sozinhos todo o sistema. Eles atuaram dentro de uma crise maior e podem ter sido tanto agentes da destruição quanto vítimas das transformações.

Alguns pesquisadores questionam até a ideia de um único colapso. Para essa interpretação, cidades e reinos teriam enfrentado crises locais diferentes, que ocorreram em períodos próximos sem necessariamente compartilhar uma causa comum.