Poucas frases são usadas por lados opostos com a mesma convicção. Esta de Albert Einstein é uma delas. Ela aparece em sermão, em publicação de apologética, em debate de rede social sobre fé e ciência, e também em texto de quem defende exatamente o contrário. A explicação é simples e verificável: ela quase nunca circula acompanhada do parágrafo em que foi escrita, e o parágrafo muda o argumento.
O ensaio original discute se ciência e religião estão em conflito. Einstein responde que não, mas para chegar lá ele redefine os dois termos. Ciência, no vocabulário dele, é o esforço de descobrir o que é. Religião é o esforço de estabelecer o que deve ser, os fins e os valores que a investigação sozinha não consegue produzir. Nenhuma das duas definições é a que o leitor médio traz de casa.
A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega.
A frase está em “Ciência e Religião“, texto que Einstein preparou para o simpósio da Conference on Science, Philosophy and Religion in Their Relation to the Democratic Way of Life, em Nova York, publicado em 1941. Ela vem logo depois de um trecho em que ele afirma não conseguir conceber um cientista verdadeiro sem uma fé profunda, entendida como confiança na inteligibilidade do mundo. E vem antes de outro trecho, esse raramente citado, em que ele sustenta que a doutrina de um Deus pessoal que interfere nos acontecimentos naturais deveria ser abandonada pelos representantes da religião.
Manca e cega não são sinônimos, e a escolha é deliberada. Quem manca sabe para onde vai e não consegue chegar bem. Quem é cego caminha firme e não sabe para onde. Na leitura de Einstein, a ciência sem finalidade tem método e não tem direção. A religião sem verificação tem direção e não tem contato com o mundo. As duas metades descrevem falhas de natureza diferente, e trocar uma pela outra desmonta o raciocínio.
A estrutura da frase não é original, e isso é um elogio. Immanuel Kant escreveu, na “Crítica da Razão Pura“, de 1781, que pensamentos sem conteúdo são vazios e intuições sem conceitos são cegas. O paralelo já foi apontado por Alice Calaprice, organizadora de compilações de citações do físico. É o mesmo par de defeitos complementares aplicado a outro objeto, o que sugere uma formulação nascida de tradição filosófica específica, e não de uma reconciliação improvisada entre fé e laboratório.
O que a frase autoriza concluir é menos do que costuma ser reivindicado dela, e mais interessante. Ela não endossa nenhuma religião em particular, não afirma a existência de Deus e não encerra o debate a favor de ninguém. Descreve uma divisão de trabalho entre descrever o mundo e decidir o que fazer com ele. Quem cita a frase inteira, com o ensaio junto, continua com um bom argumento nas mãos. Só não necessariamente o argumento que pretendia.
