Aposentado escreveu 800 páginas à mão e foi até a Globo: aos 63 anos, ele ainda sonha em criar novelas

Fã dos folhetins rurais desde criança, Paulo Guimarães Alves registrou novelas e minisséries e chegou a buscar uma oportunidade nos Estúdios Globo

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Paulo Guimarães Alves reúne no computador e no papel parte das histórias que escreveu ao longo de décadas em busca de uma oportunidade na dramaturgia (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Paulo Guimarães Alves reúne no computador e no papel parte das histórias que escreveu ao longo de décadas em busca de uma oportunidade na dramaturgia (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Um emaranhado de cercas corta duas fazendas. De um lado, Giuseppe Berdinazi. Do outro, Antônio mezenga. Ambos discutem, se provocam e acabam partindo para uma briga generalizada em uma das cenas mais lembradas de “O Rei do Gado“. Paulo Guimarães Alves nunca esqueceu aquela sequência famosa.

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A lembrança se tornou marcante porque havia algo familiar dentro daquele universo. Nascido e criado na zona rural de regente feijó, no interior de São Paulo, Paulo cresceu cercado por paisagens parecidas com as que Benedito Ruy Barbosa transformava, quase que poéticamente, em novela. Assistia aos folhetins ao lado dos pais, e pouco a pouco, deixou de prestar atenção apenas na história. Começou a imaginar como seria criá-la.

Hoje, aos 63 anos, o aposentado guarda duas sinopses de novelas, duas minisséries completas e uma história quye chegou a ocupar cerca de 800 páginas escritas à mão. Nunca conseguiu o espaço que procurava na televisão, mas também nunca abandonou a ideia de chegar a uma sala de roteiristas.

Das novelas rurais para o papel

O interesse pela escrita apareceu cedo, aos 14 anos. Paulo começou com poemas e letras de música. A televisão, puxava sua atenção para outro caminho.

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Produções como “Cabocla”, “Paraíso”, e anos depois, “O Rei do Gado” mexiam particularmente com ele. Não por acaso, as tramas rurais lembravam o mundo em que havia crescido e diversos elementos que ajudavam a mostrar que histórias aparentemente comuns da vida pacata do interior também podiam sustentar grandes personagens.

Benedito Ruy Barbosa acabou se tornando uma da principais refêrencias para ele. O autor construiu boa parte da carreira justamente em torno do campo, das relações familiares e dos conflitos ligados à terra, características que atravessam algumas de suas obras mais famosas.

Paulo desejava fazer algo semelhante, o problema era descobrir como.

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As primeiras aulas chegaram via correio

Sem um curso de roteiro, sem contrato com produtoras e longe dos grandes centros de televisão, ele procurou uma saída que fazia sentido na época: escreveu cartas.

Uma delas chegou ao diretor Jacques Lagoa. Paulo explicou que queria aprender como uma novela era estruturada e recebeu de volta um material que passou a tratar quase que como um guia.

Lagoa enviou a sinopse e um capítulo de uma novela mexicana. Pela primeira vez, Paulo conseguia enxergar como uma história pensada para televisão se organizava primeiro no papel.

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A mudança veio em seguida, em vez de simplesmente escrever páginas e mais páginas, passou a separar personagens, conflitos, histórias paralelas e capítulos.

Outra correspondência chegou ao autor Alcides Nogueira, de novelas como “Força de um Desejo” e “Tempo de Amar”. Paulo enviou um livro de poesias e recebeu uma resposta incentivando-o a continuar escrevendo.

E assim o fez.

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História que ocupou 800 páginas

Muito antes do computador virar ferramenta cotidiana, Paulo escreveu uma de suas histórias inteiramente a mão. Foram aproximadamente 800 páginas. O volume por sí só, mostrava uma dificuldade: ele tinha imaginação de sobra, mas ainda aprendia a transofmrar aquilo em um formato que pudesse ser apresentado profissionalmente.

Quando passou a usar o computador e entendeu melhor a lógica da sinopse, voltou àquele material e aproveitou boa parte dele dentro de ua nova estrutura. Com os anos, reuniu duas sinopses de novelas. Também concluiu duas minisséries, cada uma com sete episódios.

Para proteger o trabalho, registrou as obras na Fundação Biblioteca Nacional.

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Mas, faltava alguém ler.

Uma faixa na porta da Globo

Em uma de suas tentativas mais marcantes, pegou suas ideias e viajou até o Rio de Janeiro. Foi até a entrada dos Estúdios Globo levando uma faixa e tentando chamar a atenção para o trabalho que carregava havia anos.

Infelizmente não saiu de lá contratado como autor.

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A viagem, no entanto, acabou aproximando-o por alguns instantes daquele universo. Paulo se cadastrou em uma agência e conseguiu trabalhos como figurante. Apareceu em produções como “A Favorita” e “Negócio da China”, ambas exibidas em 2008, e na minissérie “Maysa: Quando Fala o Coração”, de 2009.

Para alguém que passou boa parte da vida vendo novelas da sala de casa, estar dentro de um set já representava uma vitória pessoal.

Acidente interrompeu a escrita

Em 2009, enquanto trabalhava como motorista, paulo sofreu um grave acidente de trânsito. Quebrou a perna, teve ferimentos no rosto e uma lesão na cabeça. A recuperação levou alguns anos. E nesse período, também enfrentou depressão e ficou com sequelas na coluna.

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Escrever durante horas deixou de ser algo simples. Em determinados momentos, por conta de sua condição, não era possível.

Mas as idéias, no entanto, continuaram surgindo.

O sonho mudou de formato

Paulo percebeu que talvez não conseguisse mais passar meses sozinho diante de um computador escrevendo dezenas de capítulos. Em vez de abandonar a televisão, adaptou o plano.

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Agora, quer participar de uma equipe.

Pensa em colaborar com histórias, desenvolver personagens, sugerir conflitos e dividir o trabalho com outros roteiristas.

A vontade combina com uma mudança que a própria dramaturgia viveu nas últimas décadas. Embora novelas ainda possam ter um autor principal, produções de televisão passaram a reunir equipes maiores de colaboradores e roteiristas.

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Para Paulo, essa possibilidade tornou o sonho novamente possível.

Corpo cansado, mas mente saudável

Além dos projetos de televisão, paulo publicou dois livros de poesia: “Paisagens pra Alma” e “O Único Verde”. Ainda assim, quando precisar explicar o que faz, prefere outra definição.

Ele se considera um “criador de histórias”.

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A família acompanha essa insistência há décadas. A filha Tawana Guimarães conta que os parentes ajudam, incentivam e observam de perto a facilidade do pai para transformar situações comuns em personagens e enredos.

Já se passaram anos desde aquelas primeiras páginas, das cartas enviadas pelo correio e da viagem até os Estúdios Globo. Seu corpo impôs limites que Paulo não tinha quando começou.

A cabeça segundo ele, continuou no mesmo lugar:

Meu corpo está cansado, mas a mente está 100%.