O morador de Florianópolis Cézar de Castro irá se apresentar ao lado de Paula Gotelip, Cristiane Muñoz e César Rossi no espetáculo Spectrum, que faz parte da programação do maior evento dedicado à cultura DEF no país, o Festival Acessa BH. A 5ª edição teve início na última sexta-feira (5), e vai até o dia 28 de setembro com uma programação que reúne mais de 30 atrações, entre espetáculos, filmes, videoclipes, oficinas, bate-papos e lançamento de livro. A programação é gratuita e será realizada no Sesc Palladium, Palácio das Artes, Funarte MG e Centro Cultural Unimed-BH Minas, em Minas Gerais.
Com a participação de artistas de nove estados brasileiros e do Reino Unido, o festival reafirma a força, a criatividade e a pluralidade da produção cultural de pessoas com deficiência, colocando esses artistas como protagonistas de uma cena artística inclusiva e engajada.
“Transmitir emoção”: Saiba como funciona o trabalho de intérpretes de Libras em shows
A abertura do Festival Acessa BH 2025 na última sexta-feira ocorreu às 20h, no Sesc Palladium, com a apresentação de “Monga”, da atriz e diretora cearense Jéssica Teixeira — vencedora do 35º Prêmio Shell de melhor direção. Na montagem, Jéssica faz da cena uma grande comunhão com o público, evocando a artista mexicana Julia Pastrana, conhecida como “Monga”, e discute a marginalização de corpos dissidentes e a exploração da imagem.
Ao tensionar o que é visto como natural ou monstruoso, o espetáculo mistura terror psicológico e doses de humor, ressignificando memórias e afetos. No domingo (7), às 19h, também no Sesc Palladium, foi lançado o livro com a dramaturgia da peça.

“Quando a peça acaba, sinto que estou expandido”, diz morador da Capital
Cézar de Castro tem 47 anos e faz parte do espetáculo Spectrum há pouco mais de um ano. Para ele, a apresentação é mais do que um espetáculo. É uma vivência cênica que nasce do respeito à singularidade de cada participante.
O espetáculo utiliza a metodologia Relaxed Performance, uma abordagem de apresentação teatral criada originalmente para acolher pessoas que, por questões sensoriais, cognitivas ou emocionais, não se adaptam aos moldes rígidos de um espetáculo tradicional. Nele, o ambiente e a condução da cena são ajustados para oferecer segurança e conforto: luzes menos intensas, sons controlados, liberdade para se movimentar, falar ou se ausentar durante a sessão. Não há imposição de silêncio absoluto ou imobilidade; o público é livre para reagir no seu tempo e da sua maneira.
No Spectrum, a metodologia ganha forma por meio de plateias reduzidas, comunicação não verbal, ritmo desacelerado e espaço de regulação sensorial. Ou seja, o espetáculo que se adapta às pessoas e não o contrário.
— É um trabalho que exige muita atenção. Eles estão escutando todas as notas, todas as experiências presentes ali. Quando a peça acaba, sinto que estou expandido. Todo o meu sensorial está “ligado” — comenta o artista.
Guiadas pelos bonecos Verdin e Nhoque, as crianças exploram luzes, sombras, sons e objetos do cotidiano, criando narrativas próprias ou coletivas. Cada gesto, olhar ou toque pode se transformar em cena, e cada apresentação é única, pois nasce da interação com o público.
— O público é exigente. Para eles, é muito real o que eles experienciam. Na verdade, até eu fico em dúvida se às vezes estou interpretando ou vivendo aquilo — diz Cézar.
O artista fala muito sobre a sinestesia, a mistura de diferentes sensações, que ocorre durante o espetáculo. Um sentimento que, para ele, é muito familiar da infância.
— São percepções afloradas que são muito úteis para a arte desse tipo de público — reflete.

Segundo a organização da Spectrum, 75% da equipe artística é formada por pessoas com deficiência, incluindo artistas autistas, neurodivergentes e com deficiência visual. Por isso, toda a concepção foi pensada por quem vive, na própria pele, os desafios e potencialidades da neurodivergência e da acessibilidade.
O cuidado está em cada detalhe, do início até a transição final, com borboletas em neon conduzindo suavemente as crianças para o encerramento. A apresentação foi desenhada para evitar qualquer ruptura brusca que pudesse gerar desconforto ou crise.
Cézar nasceu em São Paulo, mas se mudou aos 10 anos para a capital catarinense, onde cursou a faculdade de música e vive até hoje. Vindo de uma família de músicos, o artista já trabalhou com todas as idades e já até tocou em bandas de baile.
Acessibilidade e programação: tudo sobre o Acessa BH
As mais de 30 atrações do Festival Acessa BH se dividem em 14 apresentações de teatro, dança, música e performance; quatro oficinas; cinco filmes (três curtas e dois longas), três videoclipes, quatro bate-papos pós-espetáculos, uma roda de conversa e um lançamento de livro.
— A curadoria propõe um campo de encontro e troca, onde diferentes modos de criação possam conviver e provocar o público a refletir, sentir e imaginar futuros possíveis. Um convite à escuta atenta e ao deslocamento dos olhares, que valoriza tanto a expressão poética quanto o engajamento político da cena contemporânea — afirmam Daniel e Lais Vitral, coordenadores e curadores do festival.
Ao NSC Total, Laís falou também sobre os desafios que enfrentam ao promover um festival voltado à acessibilidade.
— Se pensarmos que a acessibilidade para o público ainda precisa melhorar, quando pensamos no profissional com deficiência, esse desafio é muito maior. Os teatros não foram pensados para receber artistas e técnicos com deficiência. Os camarins e bastidores, de maneira geral, não são nada acessíveis. Então, o primeiro desafio é essa barreira física mesmo. Depois vêm as barreias comunicacionais, porque os espaços também não contam, em suas equipes, com intérpretes de Libras e outros profissionais preparados para receber pessoas com deficiência em suas múltiplas especificidades. O festival busca suprir toda essa demanda — pontua.
O Acessa BH conta com uma equipe de consultores em acessibilidade, audiodescrição, intérpretes de Libras, e também de receptivo para acolher bem o público em todas atividades. Segundo Laís, há intérpretes de Libras disponíveis na chegada dos teatros, material em braille, pranchas de comunicação alternativa aumentativa, abafadores de ruído e uma sala de regulação sensorial para pessoas neurodivergentes.
— A cada ano, vamos tentando aprimorar nossas medidas de acessibilidade para promover realmente um evento acolhedor e acessível para todos os públicos — diz ela.
Os locais que recebem a programação do festival contam, ainda, com acessibilidade física e disponibilizam cadeiras de rodas para empréstimo, além de permitirem o trânsito e permanência de cães-guia devidamente identificados, conforme a Lei nº 11.126/2005.
A acessibilidade comunicacional também é prioridade: todos os filmes contam com legendas descritivas abertas, janelas de Libras e audiodescrição integrada, recurso que também estará presente ao vivo durante os espetáculos. Além disso, haverá interpretação em Libras/Português durante as apresentações, oficinas e bate-papos, bem como a disponibilização de abafadores de ruído e pranchas de comunicação alternativa aumentativa. Na Funarte, ainda haverá uma sala de regulação sensorial. Além disso, o evento ainda conta com uma equipe preparada para receber as pessoas com deficiência nos teatros, incluindo intérpretes de Libras.
O Acessa BH valoriza o protagonismo de artistas e profissionais com deficiência, contando com equipe especializada e consultores para garantir a inclusão em todas as etapas.
— A coordenação de Acessibilidade procura pensar esse quesito de forma integral, com a participação ativa da equipe de consultores, desde o planejamento do Festival. Esse trabalho conjunto inclui visitas técnicas aos espaços de apresentação, proposição de pautas e estratégias de comunicação, e análise de diversos recursos de acessibilidade para cada atividade do evento. Para além do conhecimento teórico, as vivências com a equipe, artistas e público do Acessa sempre provocam novas reflexões, e motivam nossa busca constante de fazer um Festival cada vez mais diverso, acolhedor e potente — explica Anita Rezende, coordenadora de Acessibilidade do Acessa BH.
Setembro foi o mês escolhido para a programação, porque reúne diversas datas importantes para as pessoas com deficiência:
- 19/09 – Dia Nacional do Teatro Acessível;
- 21/09 – Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência (essa data marca a luta pela inclusão social e conscientização anti-capacitista);
- 23/09 – Dia Internacional da Língua de Sinais;
- 26/09 – Dia Nacional do Surdo.
Confira a programação completa
Sesc Palladium
- 05/09 | 20h | Monga – Jéssica Teixeira (CE)
- 06/09 | 20h | Azul Marítimo – Victor Di Marco (RS). Apresentação seguida de bate-papo
- 07/09 | 17h | O Corpo, o peso, o descanso – Céu Vasconcelos (CE)
- 07/09 | 18h | Videoclipe da música L’Automne Amoureux (Bélgica) + Sessão de curtas Depois vem o silêncio (PR), Nunca me viram gritar (SP) e Zagêro (RS)
- 07/09 | 19h | Lançamento do livro Monga, de Jéssica Teixeira (CE)
Centro Cultural Unimed-BH Minas
- 12/09 | 20h | Os Irmãos Karamázov (RJ) – Direção Caio Blat e Marina Vianna (RJ)
- 13/09 | 20h | Hermeto Pascoal & Grupo (AL)
- Palácio das Artes – Cine Humberto Mauro
- 16/09 | 19h | Videoclipe da música Nem Um Som Sequer + Filme Ainda Estou Aqui (RJ). Sessão comentada.
- 17/09 | 19h | Videoclipe da música Liberdade + Filme Nem Toda História de Amor Acaba em Morte (PR). Sessão comentada.
Funarte MG
- 09 e 10/09 | 14h às 17h | Oficina Cultura e Acesso: A Acessibilidade como Criação no Cinema e na Arte, com Ademar Alves Jr e Sara Paoliello (MG)
- 10/09 | 18h | Roda de conversa com equipe e consultores do Festival Acessa BH
- 16 e 17/09 | 14h às 17h | Oficina Veja com outros olhos, com Dudu Melo e Junior Dias (MG)
- 18/09 | 20h | CAPENGÁ! – Estela Lapponi (SP)
- 19 e 20/09 | 10h às 13h | Oficina DanceAbility, com Estela Lapponi (SP)
- 19/09 | 20h | Pequeno Tratado sobre a Leveza das Pedras – Rô Colares (PA)
- 20/09 | 16h | Maria quer ser rio – Coletiva de Palhaças (AM)
- 20/09 | 20h | Trem Tan Tan convida Fran Januário e Júlia Rocha (MG)
- 21/09 | 16h | Biruta – Sapos e Afogados – Núcleo de Criação e Pesquisa em Arte e Saúde Mental (MG). Apresentação seguida de bate-papo.
- 23 e 24/09 | 14h às 17h | Oficina Ponto(s) de Encontro(s), com Bruno Aguiar e Oscar Capucho (MG)
- 25/09 | 19h30 | That’s Why Deers Run – Dora Colquhoun (Reino Unido). Apresentação seguida de bate-papo.
- 26/09 |16h | Spectrum | Cristiane Muñoz (RJ), Paula Gotelip , César Rossi e Cézar de Castro (SC). Apresentação seguida de bate-papo.
- 27/09 | 20h | Hereditária | Moira Braga, Isadora Medella, Luize Mendes Dias (RJ)
- 28/09 | 19h | OZ | Aquilombamento Ficha Preta (SP)
Os ingressos são gratuitos, conforme regra de cada espaço:
- Centro Cultural Unimed-BH Minas: Retirada de ingressos duas horas antes de cada espetáculo, na bilheteria do teatro. Um par por pessoa.
- Funarte MG: Retirada de ingressos uma hora antes de cada espetáculo, na bilheteria do teatro. Um par por pessoa. Para a roda de conversa, não é necessária a retirada de ingressos.
- Palácio das Artes – Cine Humberto Mauro: Retirada de ingressos uma hora antes de cada sessão, na bilheteria do cinema. Um ingresso por pessoa.
- Sesc Palladium – Grande Teatro, Cine Sesc e Teatro de Bolso: Retirada de ingressos uma hora antes de cada sessão, na bilheteria do Sesc Palladium. Um par por pessoa.
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