Poucos atores poderiam afirmar que viveram uma história tão extraordinária quanto os personagens que interpretaram. Christopher Lee enfrentou a Segunda Guerra Mundial, trabalhou com inteligência militar, conheceu Tolkien e se tornou um dos rostos mais reconhecidos do cinema.
Com quase dois metros de altura e uma voz grave inconfundível, o britânico deu vida a Drácula, Saruman, Conde Dooku e Francisco Scaramanga. Mas, longe das câmeras, sua trajetória também envolveu aventuras que parecem ter saído de um roteiro de Hollywood.
Faces de Christopher Lee
Infância entre nobres
Filho de um oficial do Exército britânico e de uma condessa italiana, Lee cresceu cercado entre o exército e a aristocracia. Sua mãe descendia da família Carandini, uma famosa dinastia de atores de Hollywood, o que ajudou a conhecer todo tipo de personalidade.
Ao mesmo tempo que sua família o conectou com jovens artistas como seu parente Ian Fleming, futuro criador de James Bond. Ele também foi apresentado ao príncipe Felix Yusupov e ao grão-duque Dmitri Pavlovich, nobres russos que assassinaram o místico Rasputin.

Guerra e espionagem
Quando a Segunda Guerra Mundial começou, Lee tinha apenas 17 anos, mas já carregava a vontade de se aventurar. Era 1939 quando a União Soviética invadiu a Finlândia, um país militarmente mais fraco e com um exército muito escasso.
Os países aliados da Finlândia não tinham condições de enviar tropas ou entrar em conflito com os soviéticos enquanto enfrentavam os nazistas. Porém, diversos jovens europeus se solidarizaram e se voluntariaram para lutar naquela que ficou conhecida como a Guerra do Inverno; Lee foi um deles.

Em 1941, ingressou na Força Aérea britânica para ser treinado como piloto. Sua carreira não avançou devido a um problema em seu nervo óptico. Porém, ele não desistiu das Forças Armadas e entrou para a inteligência militar, onde trabalhou no Esquadrão 260.
O ator relatou envolvimento com a identificação e investigação de suspeitos de crimes de guerra nazistas. Uma dessas experiências voltaria à tona décadas depois como um marco, durante as filmagens de O Senhor dos Anéis.
Durante a morte de seu personagem, Saruman, Lee corrigiu Peter Jackson. O diretor orientou o ator a realizar um grito mais teatral após ser esfaqueado nas costas. No entanto, o ex-militar informou que, por experiência própria, uma pessoa esfaqueada não consegue emitir tal som.
Do terror à fama
Após o fim da guerra, Lee não seguiu como vários veteranos para as forças armadas, policiais ou agências de inteligência; ele decidiu atuar seguindo a tradição de sua família.
Sua estreia cinematográfica aconteceu com “Corridor of Mirrors”, de 1948, mas levou mais de uma década para ele realmente se tornar conhecido. Seu primeiro grande papel foi em 1957, em que ele interpretou a criatura de Frankenstein, iniciando sua trajetória em filmes de monstros clássicos.
No ano seguinte, ele explodiu como Conde Drácula, papel que transformaria sua imagem para sempre. Sua presença imponente e sua voz profunda tornaram o vampiro um fenômeno internacional, repetindo o papel em diferentes produções.

Ao longo das décadas seguintes, viveu o líder de uma comunidade pagã em The Wicker Man (1973) e o assassino Francisco Scaramanga em 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro (1974), aventura baseada no universo criado por seu parente Ian Fleming.
O encontro com Tolkien
Uma das maiores paixões de Christopher Lee era a literatura de J.R.R. Tolkien. Na década de 1950, ele conheceu pessoalmente o escritor durante uma visita ao pub Eagle and Child, em Oxford, e ficou tão impressionado que mal conseguiu cumprimentá-lo.
Décadas depois, tornou-se Saruman, o mago corrompido de O Senhor dos Anéis. Lee contou ao jornal The Independent que relia a trilogia todos os anos e pensava constantemente no que Tolkien acharia de sua interpretação.

Seu conhecimento do universo literário ajudou a compor o personagem nas adaptações de Peter Jackson. Mais tarde, voltaria à Terra-média na trilogia O Hobbit, mantendo sua presença na franquia até os últimos anos de vida.
Galáxias e guitarras
Aos 80 anos, quando muitos artistas já haviam encerrado a carreira, Lee conquistou outra geração como Conde Dooku, vilão presente em Star Wars. Com a sua experiência com esgrima e combates cinematográficos, ajudando-o nas sequências com sabres de luz.
O Guinness reconheceu sua participação em 17 filmes com duelos de espada. Em 2007, o ator também havia registrado 244 créditos em filmes e produções televisivas, um recorde que evidenciava sua extraordinária longevidade profissional.

Mas a maior surpresa viria da música ao adentrar o campo do heavy metal. Em 2010, lançou Charlemagne: By the Sword and the Cross, álbum de metal sinfônico inspirado em Carlos Magno, famoso monarca francês do qual ele afirmava ser descendente.
Ele não ficou parado em um único álbum e decidiu fazer uma colaboração com um dos maiores nomes do metal: Richie Faulkner. Junto com o guitarrista da banda Judas Priest, o ator produziu um novo álbum em 2013: Charlemagne: By the Sword and the Cross.
O legado de Lee
Casado com a ex-modelo e artista dinamarquesa Birgit Kroencke desde 1961, com quem teve uma filha, Lee também trabalhou com diretores como Tim Burton e Martin Scorsese. Em 2009, recebeu o título de cavaleiro da monarquia britânica por suas contribuições às artes e à caridade. Tornando-se oficialmente Sir Christopher Lee.
Seus últimos trabalhos incluíram participações em O Hobbit, encerrando uma trajetória que começou no cinema do pós-guerra e chegou aos grandes universos cinematográficos do século XXI.
Nascido em 27 de maio de 1922, em Londres, Lee morreu em 7 de junho de 2015, aos 93 anos. Deixou centenas de participações no audiovisual, recordes reconhecidos pelo Guinness e uma biografia que continua despertando curiosidade mais de uma década depois.









