Filme esquecido atrai 37 milhões de pessoas na China, resgata Mao Tsé-Tung, irrita Xi Jinping e acaba em censura

Vídeos sobre Youth transformaram um drama de 2017 em símbolo de insatisfação com desigualdade e falta de oportunidades na China

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Produção ambientada no fim da Revolução Cultural voltou ao centro do debate após interpretações políticas viralizarem entre jovens chineses (Foto: Truyền hình Đà Nẵng / DaNangTV / Wikimedia Commons)

Produção ambientada no fim da Revolução Cultural voltou ao centro do debate após interpretações políticas viralizarem entre jovens chineses (Foto: Truyền hình Đà Nẵng / DaNangTV / Wikimedia Commons)

Um filme lançado há quase uma década voltou inesperadamente ao centro dos debates chineses, causando desconforto e terminando com a remoção do conteúdo. Youth, de 2017, do diretor Feng Xiaogang, ganhou repercussão após uma série de vídeos sobre a obra alcançar 37 milhões de visualizações.

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Os vídeos traziam um misto de análise cinematográfica e sociopolítica, tanto do filme quanto da Revolução Cultural Chinesa, e geraram grande engajamento nas redes sociais chinesas até que tanto os conteúdos quanto o perfil do autor foram apagados da plataforma.

O que foi a Revolução Cultural Chinesa?

Filme voltou a viralizar

Lançado em 2017, Youth acompanha integrantes de uma companhia artística ligada ao Exército de Libertação Popular entre os anos 1970 e 1990. A trajetória atravessa o fim da Revolução Cultural, a guerra entre China e Vietnã e as profundas mudanças no país.

O filme acabou sendo redescoberto em novembro de 2025, quando um criador de conteúdo chamado Liao Hui Dian Ying Ba publicou no Bilibili uma série de três análises sobre o filme. Os vídeos, porém, saíram do campo da crítica cinematográfica e avançaram para uma interpretação sociopolítica mais ampla.

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O protagonista Liu Feng, por exemplo, foi interpretado como um representante do trabalhador idealista que termina abandonado enquanto antigos colegas prosperam durante o período de reformas econômicas. O vídeo associava essa trajetória à ideia de que os benefícios do crescimento chinês teriam sido distribuídos de maneira desigual.

Em apenas cinco dias, a série chegou a aproximadamente 37 milhões de visualizações, enquanto milhares de comentários repetiam slogans relacionados ao período revolucionário. Pouco depois, os três vídeos e a conta do autor desapareceram do Bilibili.

Nostalgia pelo passado

O sucesso não significa necessariamente que milhões de jovens desejem repetir a Revolução Cultural. Uma explicação encontrada por pesquisadores está na capacidade da nostalgia política de transformar períodos históricos em símbolos para frustrações do presente.

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Um estudo publicado no The China Quarterly analisou manifestações contemporâneas de nostalgia revolucionária na China e apontou a desigualdade de renda como um dos fatores associados ao ressurgimento dessa memória sobre a era Mao.

Outra pesquisa, também publicada no The China Quarterly, acompanhou as memórias de chineses enviados ao campo durante o período maoísta. O trabalho descreve uma “nostalgia paradoxal”.

Pessoas podem recordar com afeto elementos daquele tempo sem realmente desejar retornar às condições políticas e materiais vividas nele. O movimento de envio de jovens às áreas rurais afetou cerca de 18 milhões de pessoas.

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Nesse ambiente, o passado pode funcionar menos como memória pessoal e mais como uma linguagem para discutir emprego, mobilidade social e concentração de riqueza.

Os números mais recentes ajudam a mostrar o cenário econômico por trás desse debate, embora não permitam afirmar uma relação direta com a popularidade do filme.

O Escritório Nacional de Estatísticas da China informou que o desemprego urbano médio ficou em 5,2% no primeiro semestre de 2026 e reconheceu que alguns setores ainda enfrentavam pressão no mercado de trabalho.

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Dilema para Xi

A nostalgia cria uma situação delicada para Pequim. Mao continua sendo uma figura central na narrativa de fundação da República Popular da China, mas a resolução histórica adotada pelo Partido Comunista em 2021 reafirmou a decisão de rejeitar completamente a Revolução Cultural tomada após o fim do movimento.

A contradição também atravessa a biografia do atual líder chinês. Aos 15 anos, Xi Jinping foi enviado para a zona rural de Liangjiahe como um dos chamados “jovens instruídos” durante a Revolução Cultural, onde permaneceria por anos.

Décadas depois, Xi se tornou o líder mais poderoso da China desde a geração de Mao e garantiu um terceiro mandato no comando do Partido Comunista.

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É justamente por isso que o ressurgimento de uma versão idealizada do maoísmo representa um paradoxo: ela utiliza símbolos fundamentais do próprio regime para questionar aspectos da sociedade construída depois de Mao.

O desaparecimento dos vídeos ilustra a dificuldade de lidar com críticas que recorrem ao próprio vocabulário revolucionário do regime.

E foi assim que Youth, aparentemente apenas um drama sobre uma geração que envelheceu em meio às transformações da China, acabou ganhando uma segunda história quase dez anos depois de chegar aos cinemas.