Filmes que abrem com citação costumam usá-la como moldura: uma frase elegante, um autor de peso, e a plateia entende que o assunto será sério. A escolha feita em “O Convite“, terceiro longa dirigido por Olivia Wilde, funciona de outro jeito. A frase que aparece antes dos personagens é de Oscar Wilde, e quem conhece a peça de onde ela vem sabe que ela não é uma observação espirituosa sobre casamento. É uma fala dita por um homem específico, para um interlocutor específico, dentro de uma cena que a desmonta.
A peça é “Uma Mulher Sem Importância“, que Wilde escreveu em 1893. No terceiro ato, Lord Illingworth, aristocrata de língua afiada, conversa com Gerald Arbuthnot, rapaz que ele acaba de contratar como secretário particular. Gerald está encantado com o padrinho improvável e pergunta sobre casamento com a candura de quem nunca pensou no assunto.
GERALD: O senhor nunca se casou, Lord Illingworth, não é?
LORD ILLINGWORTH: Homens se casam porque estão cansados; mulheres, porque estão curiosas. Ambos se decepcionam.
GERALD: Mas não acha que se pode ser feliz casado?
LORD ILLINGWORTH: Perfeitamente feliz. Mas a felicidade de um homem casado depende das pessoas com quem ele não se casou.
GERALD: Mas e se a pessoa está apaixonada?
LORD ILLINGWORTH: Deve-se estar sempre apaixonado. É por isso que nunca se deve casar.
O dado que reorganiza a cena inteira é a identidade dos dois. Gerald é filho de Lord Illingworth. O aristocrata seduziu a mãe do rapaz, Rachel Arbuthnot, recusou-se a casar com ela e desapareceu, deixando-a criar a criança sozinha e sob estigma. Nenhum dos dois sabe disso naquele momento da conversa. O homem que aconselha um jovem a nunca se casar é exatamente o homem cuja recusa de casar produziu aquele jovem e arruinou a vida de uma mulher.
O procedimento tem nome no vocabulário do teatro. Ironia dramática é a situação em que a plateia detém uma informação que os personagens não têm, e é essa diferença que produz o efeito. Wilde não escreveu a fala para que ela fosse citada. Escreveu para que o público sentisse desconforto ao ouvi-la, sabendo o que Gerald não sabe. Fora da peça, sem a plateia e sem os dois nomes, a frase perde a carga inteira e vira aforismo sobre relacionamentos.
Vale reparar na progressão das quatro respostas. Elas começam gerais, sobre homens e mulheres, passam a uma definição de felicidade conjugal que é um insulto disfarçado, chegam ao conselho de nunca casar e terminam, na fala seguinte, com a afirmação de que apaixonar-se é começar enganando a si mesmo e acabar enganando os outros. Lido em sequência, não é um elogio à paixão. É a autobiografia de alguém que fez exatamente isso e nunca pagou por ter feito.
Um filme sobre dois casais que passam uma noite confrontando as próprias insatisfações começar por essa fala específica não é acaso decorativo. É aviso sobre quem fala e sobre o preço do que está sendo dito.
