Durante anos, Hollywood ajudou a construir a figura do empreendedor de tecnologia como um gênio difícil, excêntrico e incompreendido. Em 2026, porém, os protagonistas continuam sendo os mesmos bilionários do Vale do Silício, mas o papel mudou.
Mark Zuckerberg, Elon Musk, Sam Altman e Elizabeth Holmes estão no centro de uma sequência incomum de produções que tratam o setor tecnológico com desconfiança. São dramas e documentários que discutem poder político e controle da informação.
A concentração desses lançamentos parece ser parte de uma tendência crítica. Em julho de 2026, a Gallup registrou que apenas 20% dos americanos tinham muita ou bastante confiança nas grandes empresas de tecnologia, menor índice desde que a instituição passou a medir o setor, em 2020. Outros 41% disseram ter pouca ou nenhuma confiança.
Zuckerberg volta diferente
A transformação aparece de forma especialmente clara em The Social Reckoning. Aaron Sorkin retorna ao universo de A Rede Social, de 2010, mas substitui o jovem programador ambicioso interpretado por Jesse Eisenberg por um Zuckerberg muito mais poderoso e ameaçador, agora vivido por Jeremy Strong.
O filme acompanha Frances Haugen (Mikey Madison) e o jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). A trama parte dos documentos internos entregues por Haugen que deram origem à investigação The Facebook Files, publicada pelo The Wall Street Journal em 2021.

O Facebook Files foi uma série de reportagens de 2021 baseada em documentos internos vazados. O material mostrou que o Facebook conhecia os efeitos nocivos de suas plataformas, incluindo riscos para adolescentes e problemas com desinformação, mas nem sempre agia de forma proporcional.
No novo filme de A Rede Social, o foco deixa de ser a criação da empresa, mas a exploração do monopólio criado ao redor da Meta neste caso. Entre os temas discutidos estão moderação, desinformação, algoritmos e os efeitos do Instagram sobre adolescentes.
A preocupação encontra respaldo fora das telas. Pesquisa do Pew Research Center com mais de 10 mil adultos mostrou que 78% dos americanos consideravam excessivo o poder e a influência política das empresas de redes sociais. Em 2020, eram 72%.
Musk enfrenta o filme
O confronto entre cinema e tecnologia fica ainda mais explícito em Musk, documentário de Alex Gibney. O diretor, vencedor do Oscar por Taxi to the Dark Side, passou quase quatro anos investigando a ascensão de Elon Musk e a influência acumulada pelo empresário.
O documentário, que não contou com a participação do empresário, perpassa as empresas Tesla, SpaceX, X, sua atuação política e entrevistas com pessoas ligadas ao bilionário. Para preencher sua ausência, Gibney também utiliza uma representação digital construída a partir de declarações públicas do próprio Musk.

A própria divulgação virou parte da história. X, TikTok, YouTube e plataformas da Meta inicialmente rejeitaram anúncios pagos do documentário. Meta e YouTube posteriormente disseram que houve erro e liberaram as campanhas, enquanto o impasse continuava nas demais plataformas.
Representantes de Musk também ameaçaram Gibney com medidas legais antes da estreia. O cineasta afirmou que a ameaça envolvia conteúdo que, segundo ele, nem sequer aparecia no documentário.
IA vira personagem
Se Zuckerberg representa a geração das redes sociais e Musk a mistura entre tecnologia, indústria e política, Artificial leva ao cinema a disputa que passou a definir a nova corrida da inteligência artificial.
Dirigido por Luca Guadagnino, o filme traz Andrew Garfield como Sam Altman e Yura Borisov como Ilya Sutskever. A história gira em torno da crise de novembro de 2023, quando o conselho da OpenAI demitiu Altman e, apenas alguns dias depois, ele recuperou o cargo de CEO.

A produção acabou envolvida justamente na relação entre Hollywood e as empresas que pretende examinar. A Amazon MGM desenvolveu o longa, mas decidiu abandonar sua distribuição meses após anunciar uma parceria bilionária com a OpenAI.
A empresa disse publicamente apenas que o filme seria melhor atendido por outro estúdio. A Neon comprou os direitos e marcou o lançamento amplo nos Estados Unidos para 25 de dezembro.
Holmes abre a porta
You Can See Everything segue por outro caminho. Nathan Fielder e Lance Oppenheim conseguiram acesso direto a Elizabeth Holmes pouco antes de a fundadora da Theranos começar a cumprir sua pena federal.
O projeto começou 34 dias antes da prisão de Holmes e se transformou em uma produção realizada ao longo de três anos. Com 2h55 de duração, o documentário chegou aos cinemas americanos nesta sexta-feira (16) pela A24.
Em vez de simplesmente reconstruir o escândalo da Theranos, os diretores colocam em dúvida quem está controlando a narrativa. Fielder passa a questionar se o acesso oferecido por Holmes e pelo companheiro Billy Evans também fazia parte de uma tentativa de reconstruir sua imagem pública.







