Laurinda empilhava caixotes de madeira, subia no palco improvisado e começava a recitar para a avó, sua única espectadora. Em outras noites, aos 6 anos, ela e uma amiga vestiam chapéus, anéis e brincos das mães, esperavam o bonde nas ruas do Bixiga e embarcavam como se fossem duas mulheres adultas. Desciam logo depois, voltavam para casa e repetiam a encenação no dia seguinte.
Esses personagens apareceram antes das luzes, das câmeras e até do nome artístico “Laura Cardoso”. Aos 15 anos, Laurinda de Jesus Cardoso enfrentou a resistência dos pais para entrar nas radionovelas e iniciar uma trajetória que acompanharia a transformação da televisão brasileira desde seus primeiros anos.
Quando a família confirmou sua morte, aos 98 anos, em 18 de agosto de 2026, Laura deixava mais de oito décadas de carreira e mais de 100 trabalhos no rádio, na televisão, no teatro e no cinema. Os caixotes da infância deram lugar aos estúdios, enquanto a plateia formada apenas pela avó cresceu até alcançar gerações de brasileiros.
Seu nome veio do rádio
Antes de Laura Cardoso aparecer nos créditos das inúmeras produções, havia Laurinda de Jesus Cardoso, filha de imigrantes portugueses, nascida em 13 de setembro de 1927. A família passou por diferentes casas do Bixiga, em São Paulo, bairro onde ela começou a revelar uma facilidade incomum para ler e representar.
Laurinda recitava para os parentes e, no colégio de freiras, era procurada pelas colegas quando alguma apresentação exigia uma voz segura. Aos 15 anos, decidiu transformar aquele gosto em profissão e participou de um teste conduzido por Oduvaldo Vianna na Rádio São Paulo. Foi aprovada, mas o medo da reação dos pais a fez recuar.
Na década de 1940, uma mulher que escolhesse ser atriz também precisava enfrentar os julgamentos impostos fora dos palcos, e a profissão estava longe de figurar entre as carreiras consideradas aceitáveis para uma moça.
Laurinda voltou a tentar e conseguiu uma oportunidade na Rádio Cosmos, em 1942. Ali, adotou o nome Laura Cardoso e começou a atuar em radionovelas. Os pais a princípio resistiram, principalmente a mãe, mas já não conseguiram afastá-la do microfone.
Sem imagens para ajudar, Laura aprendeu a construir cada personagem pelo tom de voz. Uma pausa mais longa, uma mudança no ritmo ou uma entonação diferente precisavam revelar ao ouvinte aquilo que ainda não podia ser visto. Depois da Cosmos, passou pelas rádios Tupi e Difusora. Quando a televisão surgiu, o rosto por trás daquela voz finalmente precisaria tomar a frente das câmeras.
Da voz para a câmera
Nos primeiros anos da TV brasileira, ninguém dominava completamente a nova linguagem. Os radioatores precisavam decorar textos extensos, controlar gestos e descobrir onde olhar enquanto câmeras grandes e pouco familiares circulavam pelos estúdios.
Nem todos conseguiram fazer a passagem. Profissionais consagrados no rádio perderam espaço quando a imagem passou a fazer parte da atuação. Laura levou para a televisão o domínio da voz, mas aprendeu a reduzir movimentos e trabalhar também com o olhar.
Segundo a Memória Globo, a estreia aconteceu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi. Vieram depois os teleteatros “TV de Vanguarda”, “TV de Comédia” e “Grande Teatro Tupi”, além das novelas não diárias que antecederam o formato conhecido atualmente.
As décadas seguintes a levaram por Record, Excelsior, Cultura e Bandeirantes. Com o fechamento da TV Tupi, Laura chegou à Globo em 1981, convidada por Daniel Filho para interpretar Alda Sampaio em “Brilhante”, de Gilberto Braga.
Em 1995, entrou nos recém-inaugurados Estúdios Globo para gravar “Explode Coração”, primeira novela produzida no complexo então chamado de Projac. Quarenta e três anos separavam aquele trabalho de “Tribunal do Coração”. Nesse intervalo, Laura havia saído de uma televisão que ainda procurava sua linguagem para uma indústria capaz de produzir novelas em grande escala.
Mães, avós e segredos
Com o passar dos anos, autores e diretores encontraram em Laura uma intérprete para os papéis de mães, avós e matriarcas. As atuações podiam partir de um perfil semelhante, mas raramente chegavam ao público da mesma maneira.
Suas personagens não apareciam apenas para aconselhar os mais jovens ou completar uma família. Elas tomavam decisões, escondiam alguns segredos, protegiam quem não merecia e, quando necessário, movimentavam o enredo inteiro.
Em “Mulheres de Areia” (1993), Isaura sabia do comportamento de Raquel, mas continuava defendendo a filha. No ano seguinte, Laura interpretou Guiomar em “A Viagem”. Quando a personagem recebia um espírito vingativo, a mudança era tão intensa que algumas crianças passaram a ter medo da atriz fora da novela.
A avó Carmem, de “Chocolate com Pimenta” (2003), mostrou seu domínio da comédia. Laksmi, em “Caminho das Índias” (2009), ocupava o centro de uma família presa às tradições. Doroteia, de “Gabriela” (2012), cobrava dos outros uma moralidade que não combinava com o passado que escondia.
Em vez de repetir a mesma senhora com nomes diferentes, Laura encontrou contradições próprias para cada uma delas. Levantamento da Ocupação Laura Cardoso, do Itaú Cultural, já contabilizava quase 80 trabalhos na televisão em 2017. Ao final da carreira, seu currículo reunia mais de 60 novelas e ultrapassava uma centena de produções.
Teatro aos 32
A ordem de sua formação profissional foi pouco comum. Laura já trabalhava havia 17 anos no rádio e na televisão quando pisou pela primeira vez em um palco profissional.
A estreia ocorreu em 1959, aos 32 anos, com “Plantão 21”, dirigida por Antunes Filho. No teatro, não havia câmera para aproximar o rosto nem gravação que permitisse repetir uma cena. A atriz precisava sustentar a personagem diante da plateia do começo ao fim.
Os ensaios podiam consumir dez ou 12 horas do dia. Nesse período, o elenco participava de palestras, fazia exercícios corporais e repetia as cenas até encontrar o tom esperado. Mesmo acostumada ao ritmo intenso da televisão, Laura gostava de permanecer dentro do teatro.
O trabalho nos palcos lhe rendeu dois prêmios Shell de melhor atriz. O primeiro veio em 1990, por “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”. Três anos depois, venceu novamente com “Vereda da Salvação”, sob a direção de Antunes Filho. Sua despedida dos palcos ocorreu em “A Última Sessão”, apresentada entre 2014 e 2015.
A câmera chegou perto
Quando gravou “Imitando o Sol”, em 1964, Laura levou para o set os gestos que havia aprendido a projetar até o fundo do teatro. A lente, porém, estava perto demais. Um movimento que funcionava diante da plateia crescia na tela e podia desviar a atenção da personagem.
O cinema exigiu que ela contivesse o corpo. Em vez de ampliar uma reação, passou a concentrá-la no olhar, na respiração e em pequenas mudanças no rosto. A estreia marcou o início de uma filmografia que ultrapassaria 30 produções entre longas e curtas-metragens.
Três décadas depois, Laura participou de “Terra Estrangeira” (1995), dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. Vieram ainda “Através da Janela” (2000), de Tata Amaral, e “Copacabana” (2001), de Carla Camurati, trabalhos que mostraram como aquela contenção aprendida diante da câmera havia se tornado parte de sua atuação.
Em “Através da Janela”, viveu Selma, uma mãe que organizava a própria vida em torno do filho adulto até a chegada de uma vizinha alterar a relação entre os dois. Laura conduziu a transformação da personagem sem grandes explosões e recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema Brasileiro de Miami.
A consagração não a fez fechar as portas para projetos menores. Estudantes e diretores em início de carreira também enviavam roteiros, e Laura fazia questão de lê-los antes de responder. Algumas propostas eram recusadas, outras entravam em sua filmografia.
O tamanho da produção, por exemplo, nunca substituiu o critério que ela usava para escolher um trabalho: a qualidade do texto e a personagem que poderia construir a partir dele.
Sem aposentadoria
“A Dona do Pedaço”, exibida em 2019, marcou sua última participação em uma novela. Laura já havia passado dos 90 anos, mas continuava rejeitando a ideia de que o afastamento das tramas diárias deveria significar o encerramento da carreira.
A oportunidade seguinte surgiu com “Dona Rosinha”. Lançado em 2025, o curta conta a história de uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus. Aos 97 anos, Laura assumiu a protagonista e compareceu à exibição realizada no Sesc Consolação, em São Paulo, onde foi aplaudida em pé pelo público.
Naquele mesmo ano, recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo e voltou à emissora para participar da gravação da mensagem de fim de ano.
O último ano profissional de Laura passou bem longe de uma despedida. Aos 97, ela lançou “Dona Rosinha”, recebeu diversas homenagens e continuou falando sobre novos papéis como uma possibilidade concreta.
Depois de mais de oito décadas, Laura continuava ligada à rotina que conhecia desde os 15 anos: receber um texto, estudar a personagem e voltar ao trabalho. Aos 97, gravou “Dona Rosinha” sem transformar o filme em despedida e continuou manifestando o desejo de fazer novos papéis. Sua trajetória terminou sem anúncio de aposentadoria ou um adeus planejado.
O que podemos ter certeza, é que, se tratando de Laura Cardoso, ainda esperava pelo próximo convite e pela oportunidade de criar outra personagem capaz de atravessar gerações, como tantas outras que havia interpretado.






