Quem acompanha a novela das seis da Globo conhece Licínio Januário como Dumi, o chefe da guarda real de Batanga em A Nobreza do Amor. Quem maratona o Globoplay o encontra de novo, em outro registro, como o professor Roberto na segunda temporada de Vermelho Sangue. E quem foi ao cinema nos últimos meses viu o ator em O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro Oscars.
Angolano, há 16 anos no Brasil, Licínio deixou a engenharia civil para apostar na arte. Em entrevista ao NSC Total, ele falou sobre a carreira na TV, o cinema, a capoeira angola e o desejo que ainda carrega: filmar em sua terra natal.
Dumi e professor Roberto: dois personagens, dois públicos
Estar no ar em duas produções tão diferentes ao mesmo tempo tem rendido reações curiosas. Segundo o ator, o público se surpreende ao vê-lo em registros opostos e presta atenção aos detalhes de cada composição.
“As pessoas ficam bastante surpresas ao me verem em dois registros completamente diferentes, em produções com conteúdos distintos”, conta.
“Também observo que o público percebe o trabalho em sua totalidade, desde os tempos das cenas até os trejeitos dos personagens. É algo que as pessoas observam tão bem que, às vezes, me mandam mensagens do tipo: ‘Do nada! Eu estava assistindo à série Vermelho Sangue e, de repente, vejo uma pessoa e penso: Ih, é o Dumi!'”, diverte-se.
De Segundo Sol a A Nobreza do Amor: as três novelas de Licínio
A Nobreza do Amor é a terceira novela da carreira do ator. Antes de Dumi, ele viveu Dominique em Segundo Sol e Luciano no remake de Vale Tudo, sua estreia na faixa das nove.
“Sou muito agradecido por ter feito as três novelas em que atuei. São três personagens que marcaram minha trajetória de maneiras diferentes”, afirma.
Sobre Dominique, o primeiro papel na teledramaturgia, ele lembra que foi a chance de mostrar o que havia construído nos palcos. “Pude mostrar minha potência depois de anos trabalhando no teatro do Rio. Também consegui, de alguma forma, trazer um outro olhar para os personagens angolanos feitos aqui no Brasil. Foi um trabalho que abriu as portas da teledramaturgia brasileira para mim.”
Já Luciano trouxe o aprendizado de uma obra aberta, que muda conforme a trama avança. “Comecei como chefe de um pequeno setor da TCA e, depois, vieram o envolvimento com a Odete, o casamento e outros acontecimentos. Foi uma experiência de muito aprendizado, que ampliou minha compreensão sobre a teledramaturgia brasileira.”
Com Dumi, o ator chega pela primeira vez a um personagem central da narrativa. “Dentro do universo de Batanga, Dumi representa um elo de união e conexão entre Batanga e Barro Preto”, explica. “Vejo nele características de um herói, alguém que assume responsabilidades e carrega uma missão dentro da história. Isso trouxe uma dimensão diferente ao meu trabalho e exigiu bastante de mim como ator.”
“Viver o Dumi, compreender sua trajetória e tudo o que ele representa foi uma experiência grandiosa para minha carreira. Um desafio muito especial, que certamente ficará marcado na minha história”, completa.
O Luciano de Vale Tudo e a homenagem a Angola
No remake de Vale Tudo, Licínio assumiu um papel que foi de Jairo Lourenço na versão de 1988. Para construir o personagem, ele buscou inspiração na própria família.
“Quando recebi o Luciano, pensei imediatamente na trajetória das minhas irmãs, irmãos, cunhados e amigos angolanos que vieram ao Brasil para estudar, fizeram universidade, ingressaram no mercado de trabalho e construíram suas vidas aqui. São histórias que refletem a relação entre Angola e Brasil, marcada por fortes laços históricos e culturais”, conta.
O ator lembra ainda o peso das novelas brasileiras nos países de língua portuguesa. “Durante muitos anos, as novelas brasileiras estiveram entre os principais conteúdos televisivos em países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Portugal. Era algo que nos unia e continua nos conectando.”
O objetivo, segundo ele, era fugir dos clichês. “Busquei trazer essas experiências para a construção de um personagem leve, que fugisse dos estereótipos frequentemente associados aos africanos, mostrando outras possibilidades e contribuindo para uma reflexão sobre nossa história. Acredito que, de alguma forma, consegui cumprir essa missão.”
Do Oscar com O Agente Secreto a 100 Dias
No cinema, Licínio esteve no elenco de O Agente Secreto e agora integra 100 Dias, de Carlos Saldanha, que ficou entre os seis finalistas da Academia Brasileira de Cinema na disputa pela vaga do Brasil no Oscar 2027. O escolhido acabou sendo Feito Pipa, de Allan Deberton.
Ao falar sobre o que mudou depois de ver o rosto estampado nas telas de cinema do mundo, o ator volta ao começo da história.
“Meu primeiro sentimento foi de gratidão. Pensei no Licínio de 14 anos atrás, que teve coragem de deixar a engenharia civil e abrir mão do plano original que o trouxe ao Brasil: concluir a faculdade, voltar para Angola e trabalhar com o pai. Em vez disso, decidiu se tornar artista, apostar em seus sonhos e seguir em frente sem medo”, relembra.
“O Agente Secreto representou a realização de muitas dessas escolhas. Foi a oportunidade de levar o nome de Angola a dois dos prêmios mais importantes do cinema mundial, permanecendo fiel à minha essência. Minha arte passou por diferentes países, e isso tem um significado especial, porque tudo o que faço carrega um pouco da minha terra.”
Depois do longa, vieram 100 Dias, Homem de Ouro e o personagem Justino em Nos Bastidores do Reino. “Foi um período em que comecei a dar passos mais largos no cinema, ampliando minha atuação e explorando novas possibilidades”, diz.
Capoeira angola: “Mais do que uma prática artística, é minha filosofia de vida”
Foi pela capoeira angola que Licínio chegou às artes, e é dela que nasce o Corpo Poema, projeto que une poesia e encenação corporal e que ele começou a desenvolver em 2023.
“A capoeira angola faz parte da minha formação como ator. Foi por meio dela que cheguei às artes e decidi seguir essa profissão. Desde então, esteve presente em tudo o que construí na televisão, no cinema e no teatro. É nela que busco referências para pesquisar movimentos corporais e desenvolver a composição dos meus personagens”, explica.
“Alguns mestres a definem como uma ‘luta dançada’ ou uma ‘dança de luta’, porque, de fato, lutamos dançando”, acrescenta. “A capoeira angola não tem um ponto final. Ela está sempre se reinventando, porque é uma luta viva, em constante transformação.”
O Corpo Poema surgiu na internet, mas a ideia sempre foi chegar ao palco, seja no teatro convencional, em bibliotecas ou nas ruas. Um desses encontros é o Palco e Caderno, projeto de Tainá Bevilacqua inspirado em um livro que ela lançou em 2023, cuja protagonista é uma obra que deseja se tornar humana. “A partir dessa proposta, criamos um circuito de performances que adapta o texto original e incorpora elementos do Corpo Poema, estabelecendo uma conexão entre literatura, teatro e expressão corporal”, conta.
Para o ator, levar esse trabalho ao público agora tem a ver com o tempo em que vivemos. “Em um contexto marcado pelo crescimento da ansiedade, da depressão e de outras questões relacionadas à saúde emocional, acredito na importância da atividade física, da convivência e das trocas presenciais. O contato olho no olho é uma ferramenta poderosa para atravessarmos esse momento em que a internet influencia cada vez mais nossas escolhas e a maneira como vivemos.”
“Não podemos permitir que essa dinâmica nos transforme em pessoas iguais, porque cada um de nós tem sua própria essência, identidade e trajetória”, defende.
O sonho que ainda falta: filmar em Angola
Hoje, além de atuar, Licínio também escreve e dirige, como no curta Namoradeira: Um mundo perfeito. Perguntado sobre o que ainda quer fazer, ele não hesita.
“Um dos meus maiores desejos é realizar uma produção em Angola. Construí toda a minha carreira artística no Brasil, mas quero levar essa experiência para o meu país, seja como ator ou diretor, em um projeto de ficção”, revela.
“Tenho muita vontade de contracenar com artistas angolanos, trocar experiências e contar histórias a partir das nossas próprias perspectivas. Mais do que um objetivo profissional, é um encontro que desejo viver.”







