Luxo, caos e afeto: os cenários que ajudam a contar a história de Quem Ama Cuida

A produção de arte da novela, assinada por Carolina Pierazzo, atua em conjunto com a cenografia em todos os detalhes

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Cenário de Quem Ama Cuida (9)

Quem Ama Cuida usa cenários para contar o que os personagens escondem. (Foto: Manoella Mello, Globo)

A produção de Quem Ama Cuida, nova novela das nove, parte de um conceito visual que atravessa todas as áreas criativas da novela: uma história urbana, ancorada na São Paulo contemporânea, mas atravessada por um toque de anos 90, visível na construção dos personagens, nos códigos de figurino, nas escolhas de cenografia e na própria linguagem da direção.

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Sob o comando de Amora Mautner, a novela assume uma estética menos naturalista e mais desenhada, em que os ambientes, as roupas e os corpos em cena ajudam a contar a trajetória emocional e social dos personagens.

A narrativa explora contrastes de classe, circulação pela cidade, deslocamentos cotidianos e espaços de trabalho e de afeto, compondo um retrato urbano reconhecível pelo público, mas filtrado por referências afetivas e visuais que remetem a outras décadas.

Confira fotos dos cenários de Quem Ama Cuida

Cenografia e produção de arte: São Paulo nos detalhes

A cenografia, assinada por Cris Bisaglia, é o ponto de partida para organizar o mundo onde a história acontece. Coube a ela desenhar uma São Paulo reconhecível e dramatizada, capaz de acolher os personagens, seus deslocamentos e ações cotidianas, e transformar a cidade em um organismo vivo, feito de contrastes sociais, arquitetônicos e afetivos.

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A partir disso, Cris e sua equipe planejaram boa parte dos ambientes. “O pedido da Amora era muito claro: universos bem marcados, com personalidade visual forte, que ajudassem a contar a história”, conta a cenógrafa.

Segundo Cris, a novela exigiu uma leitura detalhada de São Paulo, que desse conta de famílias tradicionais e riquíssimas, núcleos de classe média, ambientes de trabalho, espaços públicos e casas marcadas por afeto e memória.

Alguns cenários se destacam nesse contexto, como a casa da personagem Rosa (Tatiana Tiburcio), por exemplo, que acolhe a família da protagonista em um dos momentos da história.

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“A Amora gosta de ação verdadeira, de ator se movimentando, fazendo coisas enquanto fala. Então os cenários precisavam permitir essa circulação orgânica. Foi a partir dessa lógica que surgiram plantas mais abertas e integradas, como na casa de Rosa, pensada para acolher gestos cotidianos e ações simultâneas, lavar um copo, atender o telefone, varrer um canto, enquanto a cena acontece”, detalha Cris.

Outro destaque é o apartamento de Arthur Brandão, definido por um luxo clássico e silencioso, que traduz tradição, poder e dinheiro antigo. A casa do empresário aposta em um clássico contemporâneo rigoroso, com arquitetura grandiosa, materiais nobres, como mármores, dourados, veludos, papéis que remetem a tapeçarias, e jardins internos que evocam sofisticação paulistana e linhagem.

Nada é ostentação fácil: tudo comunica refinamento, permanência e repertório cultural. Essa mesma lógica de excesso controlado ganha outra forma na joalheria Brandão, pensada como um espaço exuberante e vivo. Inspirada em joalherias internacionais de perfil mais opulento, o cenário aposta em dourados, vitrines iluminadas, metais reluzentes e em marcantes cortinas de correntes douradas, criando um ambiente sensorial que transforma riqueza em espetáculo visual.

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Já a casa de Pilar (Isabel Teixeira) opera na contradição entre aparência e realidade. A decoração mistura estampas, brilho, cores, mármore e dourado, sempre tentando performar luxo, apesar do orçamento instável. O espaço é compartilhado e improvisado, refletindo a convivência apertada com os filhos adultos, e revela, nos detalhes, os limites financeiros por trás da exuberância estética.

A produção de arte da novela, assinada por Carolina Pierazzo, atua em conjunto com a cenografia em todos os detalhes.

“Cada espaço foi desenvolvido a partir de uma lógica estética rigorosa, onde nada é gratuito: os cenários ajudam a definir personagens, relações de poder e estados emocionais, sempre dentro de uma linguagem visual controlada, urbana e contemporânea. A casa de Pilar (Isabel Teixeira) é um dos exemplos mais evidentes desse trabalho conceitual. Trata-se de um ambiente marcado por uma decadência silenciosa, que não se assume de imediato, mas vai sendo revelada aos poucos”, destaca Carolina.

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O cenário da personagem é denso, cheio de objetos acumulados, com sinais de economia e improviso no cotidiano, como ventilador no lugar do ar-condicionado, comida escassa, desorganização constante. Reflete uma vida que foi perdendo controle ao longo do tempo. Não é um espaço de miséria, mas de desgaste emocional e estrutural, agravado pela convivência dos três filhos adultos, Ingrid (Agatha Moreira), Rafael (João Vitor Silva) e Brigitte (Tata Werneck), dentro da mesma casa, o que intensifica a sensação de sufocamento e caos.

Em contraste direto, a joalheria de Arthur Brandão (Antonio Fagundes) é concebida como um território de poder, desejo e ostentação legitimada.

“Desde o início, a proposta foi fugir de uma estética meramente cenográfica e buscar verdade material, o que motivou a utilização de joias reais em momentos-chave, aliadas a peças cenográficas cuidadosamente compostas. Buscamos também a parceria com um designer, que imprime assinatura, sofisticação e credibilidade ao espaço, um símbolo do império construído pelo personagem. Mais do que um cenário elegante, a joalheria funciona como palco de disputa, tensão e afirmação de status, traduzindo visualmente a força e a ambiguidade desse núcleo”, conta Carolina.

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O apartamento de Pedro (Chay Suede), por sua vez, constrói um retrato íntimo de um jovem advogado idealista profundamente conectado a São Paulo contemporânea. É um espaço híbrido, que mistura casa e trabalho, mas, principalmente, referências culturais. A desordem aparente não é descuido: tudo é pensado para expressar intensidade, engajamento e um certo desinteresse por convenções estéticas tradicionais.

“Discos de bandas brasileiras alternativas, o pôster de Sade e objetos como a caneca do MASP ajudam a desenhar um personagem sensível, fora do mainstream, com uma relação afetiva e simbólica com a cidade. O cenário respira modernidade urbana, mistura de linguagens e uma sofisticação sem ostentação”, detalha a produtora.

Um outro cenário importante para contar a história que Quem ama cuida traz é o abrigo. Ele dá continuidade ao impacto causado pela enchente, deslocando o foco do choque imediato para a permanência pós-tragédia. Trata-se de um espaço amplo, vivo e cheio de informação, organizado para ser legível em cena e emocionalmente verdadeiro.

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Colchões, roupas, doações e áreas de atendimento são distribuídos de forma a criar camadas de profundidade e circulação para a câmera. Detalhes, como malas encostadas, cobertores dobrados, tentativas de organização, introduzem um olhar humano e sensível, enquanto a paleta cromática segue controlada, preservando a identidade visual da novela mesmo em um ambiente de crise.

Quem Ama Cuida é criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com colaboração de Wendell Bendelack, Martha Mendonça, Julia Laks e Bruno Segadilha.

A novela tem direção artística de Amora Mautner, direção geral de Caetano Caruso e direção de Alexandre Macedo, Nathalia Ribas, Augusto Lana, Fábio Rodrigo e Rodrigo Olliveira. A produção é de Mauricio Quaresma e Isabel Ribeiro, a produção executiva, de Lucas Zardo e a direção de dramaturgia, de José Luiz Villamarim.