Marjorie Estiano teve apenas um mês para entender como funciona o sistema de Justiça brasileiro antes de começar as gravações de Habeas Corpus, nova série da Netflix. Para construir a protagonista Inez Franco, a atriz mergulhou em casos de erros judiciais, desigualdade no acesso à defesa e situações reais que ajudaram a compreender o universo da personagem.
“Foi um desespero. Este projeto foi um desespero, Cissa. Foi assim, praticamente um mês para entender o sistema de Justiça no Brasil”, contou Marjorie durante entrevista ao Sem Censura, da TV Brasil, apresentado por Cissa Guimarães.
Na produção, a atriz interpreta uma advogada talentosa e professora de Direito que, no início da história, está muito preocupada com a própria imagem. Para Inez, a advocacia funciona quase como um palco: ela é performática, vaidosa e busca reconhecimento pelo trabalho que realiza.
“A Justiça está para ela, não é ela que está para a Justiça. É meio que um lugar para afagar o ego dela”, explicou Marjorie.
A trajetória da personagem, porém, muda depois de um trauma provocado por uma escolha equivocada. Inez percebe que contribuiu para a prisão de uma pessoa inocente e passa a questionar a própria atuação profissional.
A partir daí, ela se afasta da advocacia e começa a dar aulas de Direito. No contato com os estudantes, encontra uma nova maneira de se relacionar com a profissão e reúne um grupo de alunos para criar um projeto de revisão criminal voltado à reversão de condenações injustas.
“Ela vai redescobrindo a relação dela com a Justiça e faz um arco muito bonito, assim, de se entender um pouco mais a serviço da Justiça”, afirmou.
Marjorie Estiano buscou organizações de advogados para estudar para o papel na Netflix
Para se preparar para o papel, Marjorie também contou com o apoio do Innocence Project Brasil, organização formada por advogados que atua em casos de condenações injustas. A pesquisa levou a atriz a estudar situações em que pessoas foram prejudicadas por falhas no sistema judicial.
Segundo ela, o processo revelou uma realidade que a assustou, especialmente pela influência de fatores sociais e econômicos no acesso à defesa.
“É o quanto de dinheiro você tem para poder bancar uma boa defesa. Então isso é assustador”, disse.
Marjorie resumiu a sensação provocada pelos estudos com a palavra “vulnerabilidade”. Para a atriz, a falta de acesso a uma defesa adequada pode deixar uma pessoa especialmente exposta diante do próprio Estado.
Atriz relembrou o caso de Ângela Diniz ao mencionar preconceitos no sistema de Justiça
Durante a preparação, ela também entrou em contato com casos que mostram como o sistema de Justiça pode reproduzir valores e preconceitos de determinada época. Um deles foi o de Ângela Diniz, socialite mineira assassinada pelo então namorado, Doca Street, em 1976.
O caso teve grande repercussão nacional e chegou a um julgamento em 1981, quando a defesa de Doca utilizou a tese de legítima defesa da honra. A estratégia provocou forte reação pública e, posteriormente, foi considerada incompatível com a Constituição pelo Supremo Tribunal Federal.
Marjorie já havia interpretado Ângela Diniz na minissérie de true crime Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO Max. A produção, lançada em 2025, reconta a história do feminicídio ocorrido em Búzios, no Rio de Janeiro.
A experiência com casos reais ajudou a atriz a compreender uma das questões centrais de Habeas Corpus: até que ponto a Justiça pode falhar e quais são as consequências desses erros para quem está do outro lado do processo.
“A Justiça existe a partir de nós, então ela é falha, ela está sujeita a errar”, afirmou.
Para Marjorie, justamente por ser construída por pessoas, a Justiça também está sujeita a problemas como vaidade, ganância e preconceitos. Por isso, a atriz defende a necessidade de atualização, fiscalização, correção e aprimoramento constante do sistema.
