Música em tupi antigo desaparecida há mais de 400 anos ganha versões após pesquisa da USP

Pesquisadores da USP e da Universidade Yale usaram documentos antigos e referências musicais para imaginar como a composição poderia ter soado

Compartilhe:
Apresentada em Lisboa em 1619, a canção teve a letra preservada em um livro histórico, mas sua melodia original nunca foi encontrada (Foto: Jean-Baptiste Debret / Wikimedia Commons)

Apresentada em Lisboa em 1619, a canção teve a letra preservada em um livro histórico, mas sua melodia original nunca foi encontrada (Foto: Jean-Baptiste Debret, Wikimedia Commons)

Uma canção atravessou séculos com parte de sua história preservada, mas sem um elemento essencial: a melodia.

Continua após a publicidade

Agora, pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Yale, nos Estados Unidos, recriaram três versões possíveis de uma música em tupi antigo apresentada em Lisboa em 1619.

Batizada de Chorus Brasilicus, a composição foi reconstruída a partir de documentos históricos e do trabalho conjunto de especialistas em música, história e línguas.

A proposta não foi recuperar uma melodia original desaparecida, mas explorar como ela poderia ter soado há mais de quatro séculos.

Continua após a publicidade

Música em tupi antigo apresentada em Lisboa em 1619

A história começa em agosto de 1619, quando a canção integrou a peça teatral El Rey Don Manuel Conquistador de Oriente, apresentada no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, durante uma visita de Filipe III, rei da Espanha, a Portugal.

O espetáculo tinha como objetivo exaltar as conquistas portuguesas no Oriente, mas também incluía uma cena relacionada ao Brasil.

Nela, indígenas do território americano anunciavam a chamada “descoberta” do Brasil ao rei Manuel I, de Portugal, usando o tupi antigo.

Continua após a publicidade

Embora a apresentação tenha acontecido no século 17, a descrição da peça e a letra da música foram preservadas em um livro publicado em 1620 pelo sacerdote e escritor português João Sardinha Mimoso.

O problema é que a partitura não foi encontrada. Sem melodia original, os pesquisadores precisaram recorrer a outras fontes históricas para imaginar como a canção poderia ter sido executada.

Como os pesquisadores recriaram a canção?

O trabalho envolveu especialistas da USP e da Universidade de Yale, além dos musicólogos portugueses Irene Brigitte e Hugo Sanches, responsáveis por compor três versões: Solo & Chorus, Contrafactum e Basso Sostenato.

Continua após a publicidade

Uma das referências utilizadas foi a melodia de uma música composta em Coimbra, Portugal, em 1640.

Os pesquisadores substituíram o texto original pela letra em tupi antigo, com apoio de Kian Arad Sheik, pesquisador da USP que colaborou com a tradução e a pronúncia.

A equipe também considerou as características sonoras da língua para adaptar as palavras às composições.

Continua após a publicidade

Como não existe registro conhecido da melodia original, o resultado foi apresentado como um conjunto de possibilidades musicais, e não como uma reconstrução definitiva.

Apresentação aconteceu na USP em 2026

As três versões foram apresentadas em maio de 2026, durante o evento “Ressonâncias Coloniais”, realizado no Museu de Arte Contemporânea da USP, em São Paulo.

A organização ficou a cargo de Íris Kantor, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e de Lisa Voigt, professora de literatura e cultura da América Latina na Universidade Yale.

Continua após a publicidade

A equipe demonstrou interesse em levar a apresentação a outros espaços, incluindo o Colégio de Santo Antão, onde a música foi executada originalmente.

Lisa Voigt também pretende apresentar o projeto a comunidades indígenas falantes de tupi que manifestaram interesse em conhecer o trabalho.