Uma canção atravessou séculos com parte de sua história preservada, mas sem um elemento essencial: a melodia.
Agora, pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP) e à Universidade Yale, nos Estados Unidos, recriaram três versões possíveis de uma música em tupi antigo apresentada em Lisboa em 1619.
Batizada de Chorus Brasilicus, a composição foi reconstruída a partir de documentos históricos e do trabalho conjunto de especialistas em música, história e línguas.
A proposta não foi recuperar uma melodia original desaparecida, mas explorar como ela poderia ter soado há mais de quatro séculos.
Música em tupi antigo apresentada em Lisboa em 1619
A história começa em agosto de 1619, quando a canção integrou a peça teatral El Rey Don Manuel Conquistador de Oriente, apresentada no Colégio de Santo Antão, em Lisboa, durante uma visita de Filipe III, rei da Espanha, a Portugal.
O espetáculo tinha como objetivo exaltar as conquistas portuguesas no Oriente, mas também incluía uma cena relacionada ao Brasil.
Nela, indígenas do território americano anunciavam a chamada “descoberta” do Brasil ao rei Manuel I, de Portugal, usando o tupi antigo.
Embora a apresentação tenha acontecido no século 17, a descrição da peça e a letra da música foram preservadas em um livro publicado em 1620 pelo sacerdote e escritor português João Sardinha Mimoso.
O problema é que a partitura não foi encontrada. Sem melodia original, os pesquisadores precisaram recorrer a outras fontes históricas para imaginar como a canção poderia ter sido executada.
Como os pesquisadores recriaram a canção?
O trabalho envolveu especialistas da USP e da Universidade de Yale, além dos musicólogos portugueses Irene Brigitte e Hugo Sanches, responsáveis por compor três versões: Solo & Chorus, Contrafactum e Basso Sostenato.
Uma das referências utilizadas foi a melodia de uma música composta em Coimbra, Portugal, em 1640.
Os pesquisadores substituíram o texto original pela letra em tupi antigo, com apoio de Kian Arad Sheik, pesquisador da USP que colaborou com a tradução e a pronúncia.
A equipe também considerou as características sonoras da língua para adaptar as palavras às composições.
Como não existe registro conhecido da melodia original, o resultado foi apresentado como um conjunto de possibilidades musicais, e não como uma reconstrução definitiva.
Apresentação aconteceu na USP em 2026
As três versões foram apresentadas em maio de 2026, durante o evento “Ressonâncias Coloniais”, realizado no Museu de Arte Contemporânea da USP, em São Paulo.
A organização ficou a cargo de Íris Kantor, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e de Lisa Voigt, professora de literatura e cultura da América Latina na Universidade Yale.
A equipe demonstrou interesse em levar a apresentação a outros espaços, incluindo o Colégio de Santo Antão, onde a música foi executada originalmente.
Lisa Voigt também pretende apresentar o projeto a comunidades indígenas falantes de tupi que manifestaram interesse em conhecer o trabalho.






