A quarta temporada de Monstro parte de um caso diferente das histórias de Jeffrey Dahmer e Ed Gein. A produção é atualmente a série mais popular da Netflix no Brasil, segundo o ranking do FlixPatrol, que também a coloca no topo da lista mundial da plataforma em 19 de setembro.
Lizzie Borden nunca foi condenada pelos assassinatos que a tornaram famosa. Acusada de matar o pai, Andrew Borden, e a madrasta, Abby Borden, em 1892, ela foi absolvida no ano seguinte, e ninguém mais foi condenado pelos crimes. O caso permanece oficialmente sem solução.
É justamente nessa lacuna deixada pela História que Monstro: A História de Lizzie Borden constrói sua própria versão. A série assume que Lizzie foi responsável pelas mortes, mas acrescenta uma grande reviravolta: ela não teria agido sozinha. Na produção, a empregada Bridget “Maggie” Sullivan se torna sua amante, cúmplice e parceira no assassinato dos Borden. Atenção: o texto abaixo contém spoilers!
Na versão apresentada pela série, as duas já haviam cruzado uma linha antes do crime principal. Lizzie mata Bertha Manchester, uma vizinha que maltratava Maggie, em um episódio que funciona como uma espécie de ensaio para o que viria depois. É nesse momento que a personagem deixa de apenas fantasiar com a violência e decide agir.
Lizzie e Maggie ainda tentam envenenar Andrew e Abby com ostras estragadas, mas o plano não funciona. Depois, partem para o ataque. Lizzie mata Abby no quarto de hóspedes, enquanto Maggie ataca Andrew, encontrado mais tarde no sofá. Lizzie participa dos dois assassinatos e, depois, as duas queimam as roupas ensanguentadas e constroem seus álibis.
A motivação mistura diferentes elementos apresentados ao longo da temporada: a disputa pela herança, a relação sufocante de Lizzie com o pai e a madrasta, a repressão vivida pelas mulheres naquele período e até a morte das aves da família. Para Maggie, o crime também representa uma saída extrema da posição de submissão e dos abusos que enfrenta como empregada.
O resultado é uma escolha bastante assertiva da produção: em vez de preservar a dúvida histórica sobre Lizzie, a série transforma o mistério em um thriller sobre duas mulheres que enxergam a violência como uma forma de libertação.
E é justamente aí que começa a diferença entre a ficção e o caso real.
Na vida real, Lizzie foi julgada e absolvida em junho de 1893, após cerca de 90 minutos de deliberação de um júri formado apenas por homens. A acusação não conseguiu apresentar provas conclusivas que a ligassem aos assassinatos. A arma do crime nunca foi identificada definitivamente, não havia sangue nas roupas de Lizzie e parte das evidências apresentadas contra ela acabou excluída do julgamento.
A série explora a percepção de que uma mulher branca, religiosa e pertencente a uma família respeitada dificilmente seria vista como capaz de cometer um crime tão brutal. Na trama, Lizzie aprende a usar essa imagem a seu favor e transforma o próprio julgamento em uma espécie de atuação.
A personagem Nance O’Neil, apresentada na temporada como alguém que ajuda Lizzie a se preparar para o tribunal, também participa dessa construção. Mas esse detalhe é invenção da série. Lizzie só conheceu a atriz depois de ser absolvida. As duas se tornaram próximas posteriormente, e a amizade de Lizzie com Nance acabou sendo apontada como uma das possíveis razões para o rompimento entre Lizzie e Emma anos depois. Não há registro, porém, de que Nance tenha participado da defesa de Lizzie.
Outro elemento criado pela produção é o romance entre Lizzie e Maggie. Bridget Sullivan existiu, trabalhava para os Borden e estava na casa no dia dos assassinatos. Ela foi uma testemunha importante no julgamento e seu depoimento, na realidade, não estabeleceu qualquer participação de Lizzie no crime. Não há evidências históricas de que Bridget e Lizzie tenham sido amantes ou planejado as mortes juntas.
O mesmo vale para Bertha Manchester e para a tentativa de envenenar os Borden com ostras. Esses acontecimentos fazem parte da narrativa da Netflix, mas não são fatos comprovados do caso histórico. A produção também dramatiza outros aspectos da vida de Lizzie e de sua relação com a família.
Já as aves da família realmente aparecem nos registros. Segundo o depoimento de Lizzie, Andrew matou algumas delas ao acreditar que atraíam crianças para a propriedade. Não existe, porém, comprovação de que o episódio tenha provocado em Lizzie um desejo de vingança ou que os animais tivessem o peso emocional atribuído a eles pela série.
Também há elementos reais usados pela produção para construir a suspeita sobre Lizzie. Ela esteve na casa durante o período dos assassinatos, apresentou versões que levantaram suspeitas e houve testemunhos sobre uma tentativa de compra de ácido prússico. Uma amiga também relatou que Lizzie queimou um vestido após os crimes. Ainda assim, nenhuma dessas evidências foi suficiente para condená-la.
Depois da absolvição, Lizzie e a irmã, Emma, compraram uma mansão em uma área nobre de Fall River, chamada Maplecroft. A mudança representava uma vida de independência e conforto, mas a relação entre as duas não durou para sempre.
Lizzie e Emma viveram juntas até 1905, quando Emma deixou a mansão após uma série de desentendimentos. Uma das possíveis causas teria sido justamente a proximidade de Lizzie com Nance O’Neil e as festas realizadas na casa. As duas aparentemente nunca voltaram a se falar.
Lizzie passou a usar o nome “Lizbeth” e morreu em 1927, aos 66 anos. Emma morreu apenas nove dias depois. Mesmo absolvida, Lizzie permaneceu marcada pela suspeita de ter cometido os assassinatos e passou o restante da vida sob o peso da fama construída pelo caso.
É essa reputação que a série recupera no final ao introduzir outra personagem real: Aileen Wuornos, interpretada por Sarah Paulson. Condenada pelos assassinatos de seis homens e executada em 2002, ela aparece como uma espécie de herdeira da lenda construída em torno de Lizzie.
Nos últimos momentos da temporada, Aileen tem uma visão de Lizzie e Maggie. A cena não estabelece uma conexão sobrenatural literal, mas funciona como uma conclusão simbólica para a temporada: duas histórias de mulheres que cometeram crimes violentos e foram transformadas em figuras monstruosas pelo imaginário popular. A produção mistura as trajetórias das duas em uma espécie de encontro metafísico, reforçando os temas de abuso, violência e julgamento social.
A comparação, entretanto, não apaga as diferenças entre os casos. Lizzie foi absolvida e morreu décadas depois em liberdade; Aileen foi condenada e executada. Os crimes atribuídos a cada uma também possuem contextos completamente diferentes.
Para Monstro, o elo está na forma como essas mulheres passaram a ser lembradas. A série retoma a pergunta que atravessa a antologia: monstros nascem assim ou são criados pelas circunstâncias?
Ainda assim, a resposta apresentada pela Netflix não deve ser confundida com uma conclusão histórica.
Andrew e Abby Borden foram realmente assassinados dentro da própria casa em 4 de agosto de 1892. Abby foi morta primeiro, no andar superior, enquanto Andrew foi atacado posteriormente, quando estava no sofá. Lizzie e Bridget estavam na propriedade naquele dia. Esses são alguns dos elementos que a série utiliza como base.
O que aconteceu depois, porém, permanece cercado de dúvidas. Lizzie foi absolvida, ninguém mais foi condenado e o caso continua oficialmente sem solução.
Assim, Monstro: A História de Lizzie Borden escolhe uma resposta para um mistério que atravessa mais de 130 anos: Lizzie matou, Maggie ajudou e as duas transformaram o crime em uma tentativa de escapar das estruturas que as aprisionavam.
É uma interpretação criada pela série, e não uma verdade comprovada. Porque, no caso real, a parte mais fascinante talvez seja justamente essa: até hoje, não sabemos quem matou Andrew e Abby Borden.
