Quando decidiram rodar o mundo a bordo de um veleiro com os três filhos, Vilfredo e Heloísa Schurmann foram tidos por muita gente como loucos. Aos 25 anos, morando em Florianópolis, tomaram a decisão de abdicar de uma carreira promissora em terra firme para construir uma vida em alto-mar. Quatro décadas e várias voltas ao mundo depois, a família Schurmann não se tornou apenas referência internacional em navegação, além de embaixadora da ONU na defesa dos oceanos, mas também um verdadeiro caso de sucesso em planejamento, empreendedorismo e liderança.
Tudo começou em 1974, quando o casal se apaixonou pela navegação durante uma viagem ao Caribe. Ao retornar para casa, decidiram transformar o sonho em ação. Para colocar o plano em prática, definiram uma data: em dez anos, partiriam para o que seria a primeira volta ao mundo da família. A partir desse dia, a meta estabelecida guiou cada passo dos Schurmann, que trocaram a vida no Centro da cidade por uma casa em Santo Antônio de Lisboa. “Antes mesmo de termos um barco, já tínhamos o mar como quintal”, relembra Vilfredo. Ao longo dessa década, os dois se dedicaram ao estudo de meteorologia, mecânica e primeiros socorros — tudo o que era necessário para sobreviver com os três filhos em alto-mar.
Antes de começar a vida entre oceanos, Vilfredo atuava como economista e como consultor de projetos industriais para grandes empresas, tendo recebido até mesmo o convite para ser presidente de um banco. À época, um cargo como esse seria o ápice da estabilidade e do prestígio em uma carreira profissional tradicional — mas o propósito e o comprometimento com o projeto familiar falaram mais alto.
— As pessoas falavam que era loucura, tentavam fazer a Heloísa me convencer a mudar de ideia, e ela dizia que ela mesma estava ‘botando lenha na fogueira’ do nosso projeto de dar a volta ao mundo — conta.
Mais do que coragem para tomar essa decisão de mudar de vida, foi necessário à família Schurmann um processo rigoroso de preparação prévia. Foi com a mentalidade corporativa e a experiência profissional adquiridas anteriormente que Vilfredo, juntamente com a esposa, começou a planejar a primeira expedição. O casal entendeu que, para cada viagem de dois a três anos, seria necessário dedicar o mesmo tempo de preparação em terra.
O planejamento envolvia o treinamento em gestão de crises, simulações de emergência e uma busca constante por parcerias estratégicas. Ao contrário da ideia de que seus projetos dependiam de recursos ilimitados, a família construiu suas expedições por meio de parcerias com mais de 40 empresas, oferecendo em troca contrapartidas bem estruturadas, como palestras, visibilidade e geração de conteúdo. A primeira viagem começou na data marcada, em 1984, quando o casal partiu da capital catarinense com os três filhos, Pierre, David e Wilhelm. A família passou dez anos em alto-mar e, desde então, já realizou quatro expedições ao redor do mundo a bordo de seus veleiros.
Um oceano de desafios
Contudo, se gerenciar uma equipe em terra firme exige habilidade, liderar em um ambiente restrito durante tempestades e isolamento exige um nível a mais de gestão humana e resiliência.
— As pessoas acham que o maior desafio é o mar. Não, o maior desafio é a convivência — afirma Vilfredo.
Por isso, antes de partir para a grande viagem, a família passou um ano apenas na costa brasileira, testando o ambiente e tentando se adaptar a essa nova realidade. Essa postura flexível também se reflete na capacidade de inovação e no uso da tecnologia. Embora dominem as artes tradicionais da navegação, como a leitura das estrelas por sextante e a interpretação do rumo dos ventos, os Schurmann foram pioneiros ao realizar a primeira transmissão ao vivo via satélite em TV aberta diretamente do oceano.
Olhar para o futuro agindo no presente
Com o passar dos anos, a atuação dos Schurmann evoluiu para uma causa global de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental. Ao se depararem com toneladas de lixo plástico em ilhas isoladas, Vilfredo e a família transformaram a indignação em ação, utilizando o veleiro como uma plataforma de conscientização ecológica. Assim surgiu a iniciativa Voz dos Oceanos, uma iniciativa coletiva que vai além da trajetória familiar e reúne cientistas, influenciadores, marcas e a sociedade civil na busca por soluções para a contaminação dos mares.
Entre 2021 e 2025, realizaram mais uma expedição, que passou pela costa brasileira, pelos Estados Unidos, pelo México e pela América Central, Oceania, Ásia e África, em uma embarcação que opera como um laboratório de economia circular, com sistemas de dessalinização, hidrogeradores, painéis solares, trituradores de vidro, compactadores de resíduos e hortas a bordo.
A primeira grande lição dessa jornada está na transformação de um desejo em um objetivo concreto. No empreendedorismo, muitas ideias morrem antes de nascer por falta de metas claras, mas a trajetória da família mostra que ter um sonho exige estipular prazos e agir com disciplina. E, assim como no percurso da família, podem surgir obstáculos, desvios e propostas tentadoras. Saber dizer não às distrações é fundamental para manter o rumo e, no mundo dos negócios, essa firmeza se traduz em manter o foco estratégico, a coerência com a visão de longo prazo e o comprometimento com a missão da empresa.
Em um mercado marcado pelo imediatismo, em que muitos empreendedores desistem após os primeiros obstáculos, a trajetória dos Schurmann ensina a manter a persistência mesmo diante de obstáculos. Ao longo de 42 anos no mar, a história da família que conseguiu realizar seu sonho mostra que os princípios para cruzar oceanos e para construir marcas admiradas são exatamente os mesmos. O sucesso de um empreendimento não é fruto de sorte ou do acaso, mas do equilíbrio entre propósito genuíno, disciplina no planejamento, capacidade de adaptação às mudanças dos ventos e coragem de assumir o leme da própria história.







