O tempo em que os mosquitos eram apenas pequenos insetos que atrapalhavam o sono durante as noites quentes acabou. Hoje, eles são conhecidos pelo risco de arboviroses, doenças causadas por vírus que são transmitidos pela picada. No Brasil, dengue, chikungunya, zika e febre amarela estão entre as principais doenças desse grupo, já que representam um grande risco para a saúde pública. Mais recentemente, a febre do Oropouche, que antes circulava de forma mais restrita na região amazônica, passou a ser identificada em novas áreas do país.
Apesar da dimensão do problema, medidas simples adotadas no dia a dia podem ajudar a reduzir a proliferação dos mosquitos e o risco de transmissão. As principais são eliminar recipientes que acumulam água, manter reservatórios fechados, limpar calhas e ralos e fazer uma vistoria frequente na casa e no quintal.
Segundo a infectologista Renata Zomer de Albernaz Muniz, presidente da Sociedade Catarinense de Infectologia e ex-diretora do Hospital Nereu Ramos, as arboviroses não são transmitidas pelo contato direto entre pessoas. Um abraço, aperto de mão ou compartilhamento de objetos, por exemplo, não transmite essas doenças. O mosquito infectado é o responsável por fazer a ligação entre o vírus e a pessoa.
— O mosquito nasce no quintal de alguém, mas a doença pode chegar à casa de todos. O combate ao Aedes aegypti é uma responsabilidade compartilhada. Quando uma pessoa elimina os criadouros e adota medidas preventivas, protege não apenas a própria família, mas toda a comunidade — afirma.
Com o aumento da circulação de diferentes vírus e sorotipos, os problemas relacionados aos mosquitos se tornaram um desafio ainda maior. No caso da dengue, uma pessoa que já teve a doença provocada por um sorotipo pode apresentar maior risco de desenvolver uma forma grave caso seja infectada posteriormente por outro. Por isso, mesmo quem já teve dengue deve manter os cuidados para evitar uma nova infecção.
Prevenção envolve diferentes estratégias
O combate às arboviroses não depende de uma única medida. De acordo com a infectologista, a melhor estratégia envolve uma série de medidas, como vigilância epidemiológica, vacinação para os grupos indicados, diagnóstico precoce e assistência adequada aos pacientes.
Em Santa Catarina, a vacina contra a dengue faz parte do calendário de imunização para adolescentes de 10 a 14 anos em todos os municípios. O esquema é composto por duas doses e tem como principal objetivo reduzir hospitalizações e casos graves nessa faixa etária.
— A vacina representa um avanço importante, mas ela, sozinha, não resolve o problema — explica Renata.
Já o presidente da Unimed Grande Florianópolis, Ademar Paes Junior, também reforça a importância da participação da população no combate às arboviroses.
— O combate às arboviroses é um aprendizado e uma forma de exercer a cidadania, pois todos são responsáveis em promover a limpeza dos espaços de risco de transmissão do mosquito. Isso se faz com comunicação e orientação, duas ferramentas muito utilizadas pela cooperativa médica nas suas ações de prevenção em saúde, que se tornaram prioridade diante das transformações que a Unimed vem promovendo junto à sociedade — afirma.
El Niño pode aumentar atenção com os mosquitos
O clima também tem relação direta com a proliferação do mosquito e, consequentemente, com a transmissão das arboviroses. Temperaturas mais elevadas aceleram o ciclo de vida do Aedes aegypti, o que faz com que o mosquito se reproduza mais rapidamente e aumenta a capacidade de transmissão dos vírus. Quando o calor acontece junto a períodos de chuva, o cenário pode se tornar ainda mais favorável, já que aumenta a quantidade de recipientes com água parada disponíveis para a formação de criadouros.
— Fenômenos climáticos como o El Niño podem contribuir para o aumento da transmissão, principalmente quando provocam temperaturas acima da média e maior volume de chuvas. É justamente esse tipo de combinação climática que a própria vigilância estadual tem apontado como pano de fundo do aumento de casos observado agora em 2026 — afirma.
A médica ressalta, no entanto, que as condições climáticas não significam necessariamente que haverá uma epidemia. No entanto, é necessário ampliar as medidas preventivas para evitar qualquer prejuízo.
O Ministério da Saúde já sinalizou a possibilidade de aumento de cerca de 20% nos casos de arboviroses transmitidas pelo Aedes na Região Sul, onde Santa Catarina está inserida. Para a especialista, o cenário reforça a necessidade de manter os cuidados mesmo quando os números de casos estiverem controlados.
Conheça as principais arboviroses que circulam no Brasil
Dengue
A dengue é transmitida principalmente pelo Aedes aegypti e, em menor escala, pelo Aedes albopictus. Os sintomas mais comuns são febre alta, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, dores musculares e articulares, náuseas, manchas pelo corpo e intenso mal-estar.
Ao longo do tempo, a doença pode evoluir para formas graves, com sangramentos, extravasamento de líquidos, choque e comprometimento de órgãos. Segundo a infectologista, a maioria dos óbitos pode ser evitada quando há diagnóstico precoce, hidratação adequada e reconhecimento dos sinais de alarme.
Chikungunya
A chikungunya também é transmitida pelo Aedes aegypti. Entre os principais sintomas, estão febre alta, dor intensa nas articulações, muitas vezes incapacitante, manchas na pele e cansaço. Embora raramente seja fatal, a doença pode provocar dores articulares persistentes por meses ou até anos, l que pode comprometer de forma significativa a qualidade de vida.
Zika
A zika é transmitida pelo Aedes aegypti e costuma apresentar sintomas mais leves. Entre eles, estão manchas avermelhadas na pele, coceira, conjuntivite, febre baixa e dores articulares. A principal preocupação está relacionada à gestação, já que a infecção pelo vírus pode provocar malformações congênitas, entre elas, a microcefalia. Além disso, a doença também pode estar associada à síndrome de Guillain-Barré.
Febre amarela
Atualmente, no Brasil, a febre amarela acontece pelo ciclo silvestre, transmitida por mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Os sintomas incluem febre alta, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas e vômitos. Nas formas graves, a doença pode causar insuficiência hepática, insuficiência renal, hemorragias e levar à morte. A vacinação é uma forma eficaz de prevenção.
Febre do Oropouche
A febre do Oropouche é transmitida principalmente pelo mosquito-pólvora, o Culicoides paraensis. Outros vetores também podem participar da transmissão e ainda estão sendo estudados. Os sintomas podem ser semelhantes aos da dengue, com febre, dor de cabeça intensa e dores musculares e articulares. Em alguns casos, os sintomas podem voltar depois de alguns dias.
Na maioria das vezes, a doença é autolimitada. No entanto, já foram descritos casos raros de complicações neurológicas. Por isso, a febre do Oropouche deve ser considerada no diagnóstico, principalmente diante de quadros febris que não apresentam exatamente as características de uma dengue.
Quando procurar atendimento médico
Pessoas que apresentam febre, dores intensas no corpo, manchas na pele ou outros sintomas compatíveis com arboviroses devem procurar atendimento ou um serviço de saúde para avaliação médica. A recomendação é evitar a automedicação, já que medicamentos como o ácido acetilsalicílico (AAS) e alguns anti-inflamatórios podem aumentar o risco de sangramentos em pessoas com dengue.
— Outro ponto fundamental é manter uma boa hidratação desde os primeiros sintomas. Na dengue, a hidratação adequada é uma das medidas mais importantes para reduzir o risco de complicações — alerta a infectologista.
Também é importante observar os chamados sinais de alarme. Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, sonolência excessiva, tonturas, dificuldade para respirar ou sensação de desmaio são sinais que exigem atendimento imediato.
Dez minutos por semana podem fazer diferença
O Aedes aegypti precisa de água parada para se reproduzir. Por isso, eliminar os criadouros é a principal medida de prevenção. Cada recipiente retirado de um ambiente pode impedir a formação de novos criadouros e contribuir para reduzir a quantidade de mosquitos. A recomendação é reservar pelo menos dez minutos por semana para vistoriar a casa e o quintal.
Entre as principais ações, estão:
- manter tampados reservatórios e caixas d’água;
- eliminar qualquer recipiente que possa acumular água da chuva;
- limpar regularmente calhas, ralos e lajes;
- colocar areia nos pratos dos vasos de plantas ou eliminar esses recipientes;
- guardar garrafas com a boca voltada para baixo;
- descartar pneus e materiais inservíveis de forma adequada;
- manter piscinas tratadas e cobertas quando não estiverem em uso;
- trocar diariamente a água dos animais;
- lavar os recipientes dos animais com uma escova, porque os ovos do Aedes podem ficar aderidos às paredes;
- reservar pelo menos dez minutos por semana para vistoriar toda a casa e o quintal.
Repelente e telas também ajudam
Além de eliminar os criadouros, outras medidas podem diminuir o contato com os mosquitos. A recomendação é utilizar repelentes registrados pela Anvisa, principalmente por gestantes e pessoas que vivem ou circulam em áreas com transmissão. Sempre que possível, também devem ser utilizadas telas em portas e janelas.Em locais com grande presença de mosquitos, o uso de roupas que cubram braços e pernas pode ajudar a reduzir a exposição.
Para as pessoas que fazem parte do público contemplado pela vacinação contra a dengue, também é importante manter o esquema vacinal em dia.
Unimed Grande Florianópolis – Cooperativa de Trabalho Médico – ANS 36044-9
Dr. Ademar Paes Junior – CRM SC 9205 RQE 5284
Dra. Renata Zomer de Albernaz Muniz -CRM SC 12432 | RQE 9070
