Como mulheres autistas podem mascarar seus comportamentos e esconder traços

Cerca de 80% das mulheres com autismo não são diagnosticadas até os 18 anos

Compartilhe:

O transtorno do espectro autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento e, no nível 1, pode ter sintomas mais sutis (Foto: Divulgação)

Exaustão intensa após eventos sociais, mesmo que tenham sido divertidos, a necessidade de ensaiar conversas antes de falar com qualquer pessoa e a sensação de ter diversas personalidades, uma para cada ambiente, levando a um esgotamento social são alguns pontos de alerta, especialmente se a pessoa tiver a sensação de estar sempre representando ser quem não é de fato.

Continua após a publicidade

Essas são algumas características monitoradas em mulheres autistas que, se são capazes de esconder suas emoções e comportamentos, podem nunca saber quem realmente são. Neste caso, de acordo com Vanessa Beck, psicóloga especialista em Saúde, a situação é descrita como ‘masking’. Ao mascarar uma sociabilidade ou educação, a pessoa é elogiada por ser tranquila. Mas, atrás de uma fachada perfeita para o ambiente externo, as necessidades reais são deixadas de lado.

– Se a mulher se controla para não fazer movimentos repetitivos mesmo sentindo desconforto, se força contato visual mesmo sentindo repulsa, se vive com a sensação constante de estar “atuando”, não está sendo dramática, não é “sensível demais”. Ela pode ser autista.

Continua após a publicidade

Diante dessas formas de camuflagem, dados do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo apontam que em torno de 80% das mulheres com autismo não são diagnosticadas até os 18 anos.

– As mulheres autistas desenvolvem uma habilidade impressionante de mascarar seus traços. Elas observam, copiam gestos, expressões, até o jeito de rir. É uma performance constante que as esgota completamente – aponta Luigi Fernando, psiquiatra especializado em autismo.

O transtorno do espectro autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento e, no nível 1, pode ter sintomas mais sutis.  Ao todo, são três níveis, considerando grau de necessidade de adaptações e suporte para atividades básicas e prejuízos de linguagem. 

Beck lembra que não é culpa da mulher autista ter maior sensibilidade e que, muitas vezes, as mulheres utilizam o masking sem ser uma escolha consciente.  

Continua após a publicidade

– O masking é uma estratégia de sobrevivência que você desenvolveu desde criança. A mulher autista aprendeu que expressar suas necessidades reais resultava em ser chamada de dramática. Descobriu que ser autêntica significava ser excluída.

Outra percepção da mulher autista é não se sentir capaz de identificar as próprias emoções, com relacionamentos que parecem superficiais, mesmo com esforço e dedicação. Em encontros e eventos sociais, essas mulheres ainda sofrem com um tipo de ansiedade paralisante, com receio de que possam fazer algo errado, o que é chamado de sobrecarga autística.

Continua após a publicidade

Psicologia é aliada da qualidade de vida da mulher autista

A camuflagem e o mascaramento das emoções e comportamentos podem levar à  exaustão emocional e física, por isso é importante o diagnóstico, mesmo que tardio.  Apesar de situações como as descritas, é possível ser autista e ter boa qualidade de vida, mas entender suas características e como enfrentar situações é essencial para que a mulher autista possa se aceitar e perceber suas necessidades.

Beck destaca que o tratamento psicológico é um meio para que a mulher aceite sua neurodiversidade e encontre formas mais autênticas e menos exaustivas de vivenciar suas experiências.

Continua após a publicidade

Apesar de considerar a capacidade de adaptação impressionante, a especialista ressalta a importância de que a mulher autista pare de representar ser quem não é, e viva de forma autêntica sem medo de rejeição.  Quando a mulher autista entende sua condição e para de fazer masking, pode passar por uma série de transformações, segundo a psicóloga, melhorando o desenvolvimento da empatia.

– É comum que os relacionamentos se tornem autenticamente profundos pela primeira vez. A ansiedade e depressão que a atormenta há anos podem diminuir drasticamente. Além disso, ela pode descobrir talentos únicos que estavam completamente escondidos sob a máscara social, assim como uma criatividade explosiva que pode revolucionar qualquer área. A força que ela tem usado força para se esconder pode ser usada para brilhar.

Continua após a publicidade

A especialista ressalta que o diagnóstico não é apenas um rótulo, mas pode ser o primeiro passo para aceitação e liberdade. O diagnóstico correto pode levar as mulheres autistas a abandonarem a camuflagem, reduzindo o estresse social e melhorando a qualidade de vida como um todo. 

A indicação é fazer uma autoavaliação e, no caso de dificuldades na comunicação verbal e não verbal, desafios nas interações sociais, padrões repetitivos de comportamento e interesses restritos, essas são algumas pistas para procurar um atendimento especializado.

Continua após a publicidade

– Não espere ter “certeza absoluta” antes de buscar ajuda. Muitas mulheres perdem décadas esperando sinais óbvios que nunca aparecem porque o masking é justamente projetado para esconder esses sinais. A diferença crucial que você precisa entender: timidez é desconforto temporário que diminui com familiaridade. Masking é uma performance calculada e constante que esgota sua energia, independentemente do ambiente ou das pessoas – conclui.

Sua autenticidade não é um problema a ser corrigido – é um presente a ser celebrado. Procure uma avaliação especializada.

Dr. Luigi Kozenieski

Continua após a publicidade

Psiquiatra


CRM 24998 / RQE 25567