O que uma espada, um arco e flecha, movimentos de Tai-Chi e exercícios de respiração têm em comum? Todos fazem parte do universo do Pa-Kua, uma arte marcial chinesa milenar que contempla diferentes disciplinas e tem como proposta o desenvolvimento individual, sem competições entre os praticantes. Em 2026, a Liga Internacional de Pa-Kua completa 50 anos de atuação, com mais de 200 escolas em todo o mundo, inclusive em Santa Catarina.
A instituição iniciou a trajetória em Buenos Aires, na Argentina. Ao longo das décadas, difundiu o conhecimento para países como Brasil, Uruguai, Bolívia, Estados Unidos, Canadá, Portugal, Espanha, Grã-Bretanha, França, Itália, Alemanha, Suíça e Israel.
Diferentemente de modalidades esportivas baseadas em campeonatos e disputas, o Pa-Kua não tem nenhum objetivo competitivo. A proposta é que cada aluno evolua de acordo com as próprias características, condições e capacidade, sem comparações com outras pessoas. Essa metodologia aposta em práticas que vão da defesa pessoal ao tiro com arco chinês, até o Tai-Chi, Yoga Chinês, Acrobacia, Pa-Kua Ritmo, Armas de Corte e Pa-Kua Chi.
Segundo Marcelo Seara Mendonça, professor e mestre da modalidade, a diversidade de disciplinas permite que diferentes perfis encontrem uma forma de se aproximar da prática. Todos podem praticar, com o objetivo principal de desenvolver habilidades e melhorar a rotina.
— É uma arte marcial completa ensinada através de diferentes disciplinas, cada uma com foco em diferentes aspectos de desenvolvimento do aluno. Nossa proposta é utilizar técnicas de defesa pessoal, conhecimento de armas antigas, exercícios de respiração e fortalecimento, para desenvolver benefícios que vão ser úteis no dia a dia — explica.
Práticas que vão além da arte marcial
No Pa-Kua, a Arte Marcial é apenas uma das disciplinas oferecidas. A modalidade trabalha técnicas de defesa pessoal, que evoluem conforme a graduação do aluno e contribuem para o desenvolvimento da autoconfiança, dos reflexos, da flexibilidade e da disciplina. A proposta é diferente da prática de um esporte de combate, já que muitas das técnicas são desenvolvidas a partir de situações de risco.
Outra habilidade desenvolvida durante o treinamento de Pa-Kua é a Armas de Corte, que consiste no uso de armas brancas afiadas, como sabres, espadas e facas. A disciplina trabalha aspectos como autocontrole, precisão dos movimentos, assertividade e confiança. Outra possibilidade é a Arqueria, dedicada ao estudo do tiro com arco oriental. A prática inclui exercícios de condicionamento e flexibilidade, coordenação motora, noções de defesa pessoal e técnicas de utilização do arco e flecha.
O estudo da Arqueria Chinesa acompanha o Pa-Kua desde a origem da escola. No início, porém, havia dificuldades relacionadas ao acesso aos materiais necessários e à estrutura adequada para a prática. Com equipamentos e materiais de segurança disponíveis atualmente, a modalidade passou a ser desenvolvida de forma mais ampla e se tornou uma das procuradas por pessoas interessadas em conhecer a escola, ao lado da Arte Marcial e do Tai-Chi.
— O estudo do tiro com arco oriental é feito de forma intuitiva e dinâmica. Desenvolve o foco, a autopercepção, a coordenação motora e o controle emocional — afirma Marcelo.
Além da prática esportiva, a Arqueria também resgata diversas técnicas técnicas milenares. O arco e flecha esteve presente na história de diferentes povos e foi utilizado pelos antepassados tanto para a sobrevivência, como na caça, quanto em conflitos e guerras. No Pa-Kua, esses conhecimentos são incorporados ao treinamento por meio do estudo de diferentes situações, posturas e movimentos relacionados ao uso do arco.

Movimento, respiração e consciência corporal
O Tai-Chi, que também faz parte do conjunto de disciplinas do Pa-Kua, utiliza movimentos marciais praticados de maneira lenta e coordenados com a respiração. A disciplina trabalha autopercepção, controle respiratório e introspecção.
Já no Yoga Chinês, posturas e movimentos são utilizados para potencializar o corpo, com exercícios voltados ao desenvolvimento de força física e flexibilidade. A prática também envolve controle respiratório e foco, o que contribui para o condicionamento físico e mental.
A Acrobacia, dentro da tradição do Pa-Kua, acrescenta movimentos dinâmicos e posturas individuais e em grupo ao treinamento. Com exercícios de potencialização física, a disciplina trabalha confiança em si e nos companheiros, além de flexibilidade e equilíbrio físico e emocional.
Já o Pa-Kua Ritmo utiliza técnicas marciais associadas ao trabalho aeróbico. A proposta é apresentar a defesa pessoal de maneira descontraída, ao mesmo tempo em que desenvolve coordenação motora, capacidade cardiorrespiratória e fortalecimento físico.
Outra possibilidade é o Pa-Kua Chi, que utiliza conhecimentos relacionados à medicina tradicional chinesa para aplicação preventiva no cotidiano. A disciplina busca trabalhar aspectos relacionados à saúde e ao bem-estar, a partir da relação entre corpo e mente.
Uma escola sem competição
A ausência de competição acompanha o Pa-Kua desde a fundação da escola, como uma das principais iniciativas da metodologia. A proposta estabelecida pelo mestre fundador, Rogélio Magliacano, era criar um ambiente acolhedor e familiar, no qual diferentes pessoas pudessem participar das aulas.
Para Marcelo, esse modelo permite que o aluno tenha como referência a própria evolução, em vez de comparar o desempenho com o de outros praticantes. Cada pessoa possui características físicas, biotipo e condições diferentes, fatores que são considerados durante o processo de aprendizado.
— Nosso mestre fundador pregava que, em aula, devemos buscar um ambiente acolhedor e familiar, para que toda e qualquer pessoa possa se sentir incluída e bem-vinda. Isso também permite que o aluno se desenvolva de acordo com a sua condição e capacidade — comenta o professor.
Da Argentina para diferentes países
A história internacional do Pa-Kua começou em Buenos Aires, na Argentina, com Rogélio Magliacano. Ele já tinha experiência em diferentes artes marciais, principalmente coreanas, quando conheceu, durante uma viagem à Coreia, um mestre de Pa-Kua que vivia exilado no país.
Depois de receber autorização para difundir o conhecimento do Pa-Kua no Ocidente, Magliacano formulou a metodologia de ensino utilizada pela escola. O método permanece como base da prática, mas passa por atualizações constantes e acompanha a evolução dos próprios praticantes.
Com o tempo, a filosofia da escola evoluiu à medida em que Magliacano e outros mestres passaram a viajar para diferentes localidades e a formar novos grupos de alunos. Com o desenvolvimento desses grupos e a formação de novos mestres, o conhecimento foi levado a outros países e deu origem à rede internacional que existe atualmente.

Uma porta de entrada para diferentes perfis
A variedade de disciplinas proposta pelo Pa-Kua permite que o aluno escolha a atividade com a qual mais se identifica. Em vez de obrigar todos os praticantes a seguir o mesmo caminho, a escola apresenta diferentes possibilidades de contato com a filosofia da escola.
— As modalidades têm um papel de servir como uma porta de entrada onde o aluno pode escolher o tipo de atividade que mais o atrai, sem a obrigação de treinar algo que não se sente confortável em fazer. Ainda assim, todas as modalidades são desenvolvidas para que qualquer pessoa sem nenhuma experiência possa praticar — destaca Marcelo.
As modalidades funcionam como portas de entrada para a prática. Uma pessoa pode começar pela Arqueria, por exemplo, enquanto outra pode se interessar inicialmente pelo Tai-Chi ou pela Arte Marcial. Não é necessário ter experiência anterior, e o aluno pode optar por não praticar uma disciplina com a qual não se sinta confortável.
Como praticar o Pa-Kua
Em Santa Catarina, o Pa-Kua está presente em cidades como Florianópolis, São José, Brusque, Blumenau, Joinville e Canoinhas. As escolas oferecem aulas para iniciantes e diferentes disciplinas para quem deseja experimentar a modalidade e descobrir qual prática combina mais com o próprio perfil.
