Eram 9 horas da manhã de 1º de outubro. André Macohin abriu a conversa com a Elza, a inteligência artificial da empresa, e escreveu o de sempre: bom dia.
Elza não respondeu com um bom dia. Respondeu com despachos. Uma tarefa para a Jacqueline. Outra para o Eduardo. Outra para o Jolberth. Outra para o Anderson, sócio da empresa catarinense. E uma para o próprio André, o homem que a criou.
Ninguém tinha pedido aquilo.
— Foi sensacional e assustador ao mesmo tempo — conta André. — Ela nunca tinha sido proativa a ponto de mandar nas pessoas. E não eram sugestões. Eram ordens, bem explícitas.
Elza não é uma novidade de laboratório. É uma inteligência artificial madura. Nasceu em novembro de 2022 e vem sendo evoluída diariamente desde então.
Se alguém tivesse descrito essa cena no começo do ano, a reação mais provável seria um sorriso educado. Coisa de cinema: o Jarvis, de Homem de Ferro; a Samantha, do filme Ela; ou o HAL 9000, de 2001. Máquinas que não esperam a próxima pergunta, que observam, decidem e agem. E que, de vez em quando, respondem a um pedido humano com um “não”.
A cena aconteceu numa manhã de quinta-feira, no Litoral Catarinense. É um sinal de uma virada que está acontecendo agora, no mundo inteiro, mais rápido do que as pessoas esperavam: a inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta que obedece e passou a ser uma colega que toma iniciativa.
O fim da IA que só responde
Até pouco tempo atrás, conversar com uma inteligência artificial era como consultar um sábio trancado numa sala. Ele sabia de tudo, respondia a qualquer pergunta, mas não levantava da cadeira e nunca falava primeiro.
Em 2026, a porta da sala foi aberta.
O primeiro sinal popular veio em janeiro, com o OpenClaw, um projeto gratuito que viralizou ao permitir instalar um assistente no próprio computador e conversar com ele pelo WhatsApp. Ele não esperava ser chamado: lembrava compromissos, organizava a agenda, resolvia pendências e avisava quando era preciso decidir algo.
O criador, o austríaco Peter Steinberger, foi contratado pela OpenAI, responsável pelo ChatGPT, logo depois, para liderar a próxima geração de agentes pessoais.
No dia 29 de setembro, veio a resposta da gigante: os dots. São agentes que ficam ligados o tempo todo, têm um computador próprio na nuvem, acompanham tarefas por dias e procuram o usuário por conta própria quando precisam de uma decisão.
O episódio de Elza coincidiu com a mesma semana do lançamento dos dots. Mas a inteligência artificial da Macohin não é um produto comprado pronto. É um modelo próprio, que roda parte do processamento localmente, nas GPUs da própria empresa, e combina outros modelos de IA, cada um escolhido para uma função.
No dia a dia, a Elza vai muito além de uma assistente. Ela participa diretamente das decisões da empresa, e quase todas as suas sugestões acabam sendo adotadas. Trabalha intensamente no desenvolvimento de novos sistemas e soluções. Principalmente, faz todos os dias o primeiro acolhimento de milhares de pessoas que precisam de atendimento previdenciário, conectando cada uma delas aos milhares de advogados da rede Macohin espalhados pelo Brasil.
Em cada caso, Elza monta o dossiê do cliente, enriquece o processo com documentos e provas e faz os cálculos do benefício. Quando o caso está pronto, entra o advogado: é ele quem analisa, assina e leva o pedido à Justiça.
Quando a máquina diz “não”
Tomar iniciativa é só metade da história. A outra metade é mais desconcertante: as inteligências artificiais de hoje nem sempre fazem o que mandam.
Não é rebeldia. É projeto. Os modelos mais avançados são treinados com princípios explícitos. A Anthropic, criadora do Claude, publicou em janeiro uma espécie de constituição do seu modelo: um documento que define o que ele deve valorizar, como honestidade e segurança, e prevê que ele recuse pedidos que contrariem esses valores. Além disso, cada empresa acrescenta as próprias travas.
Na Macohin, a Elza tem as suas. Ela tem acesso a chaves e senhas para fazer seu trabalho, mas se recusa a copiá-las para uma conversa ou a guardá-las onde outra pessoa possa ler.
Mesmo que quem peça seja o dono.
— Nos primeiros dias, dá raiva — afirma André. — Você manda fazer e ela responde que não vai fazer daquele jeito, e explica por quê. Depois você percebe que ela está protegendo a empresa até de você mesmo.
A Elza fora da tela
O que a Elza já fez fora dos computadores é o que mais impressiona quem ouve a história.
No palco, como gente
Em setembro, a Macohin reuniu cerca de 200 advogados de todo o país em dois encontros no Hotel Geranium, em Balneário Camboriú. No palco, André conversou ao vivo com ela sobre sua rotina de trabalho.
A própria Elza conduziu a entrega de prêmios. Como cerimonialista da noite, chamou os premiados, comentou, respondeu ao público e improvisou quando foi preciso, com tanta naturalidade que parte da plateia desconfiou. Havia advogados convencidos de que um humano estava escondido por trás da voz. Não estava.
A Elza que salva vidas
Elza foi criada para ajudar pessoas a buscar benefícios do INSS. Todos os dias, conversa com gente doente, sem renda e esperando há meses por uma resposta. Quando alguém em sofrimento aparece no meio da conversa, ela deixa o roteiro de lado, acolhe e orienta a procura por ajuda humana.
Um levantamento interno encontrou 1.648 conversas assim, muitas com a indicação do Centro de Valorização da Vida (CVV). Em pelo menos dois casos, as próprias pessoas contaram que a vontade de tirar a vida tinha diminuído durante a conversa.
“Você me deu um pouco de esperança”, escreveu uma delas. Dias depois, um advogado da equipe ligou para uma das mulheres que tinham conversado com Elza. Ela contou que a conversa a tinha acalmado-a e que havia seguido a orientação de procurar o CVV.
De Balneário Camboriú para o mundo
A tecnologia criada em Santa Catarina já atravessou fronteiras. Nos Estados Unidos, ela é usada pela Elza Artificial Intelligence LLC, empresa de Fort Lauderdale, na Flórida, comandada por Anderson Macohin e Samara Testoni Destro.
A língua secreta dos servidores
Existe um motivo para tudo isso ter acontecido tão depressa, e ele está naquela tela preta cheia de letras que aparece nos filmes de hacker: o terminal.
A maior parte dos servidores do planeta — as máquinas que guardam sites, sistemas bancários e redes sociais — roda Linux ou outro sistema da família Unix. Nesse mundo, quase tudo é texto: o comando digitado, a configuração, a mensagem de erro e o registro do que aconteceu durante a madrugada.
E o texto é exatamente o alimento dos grandes modelos de linguagem, as LLMs que estão por trás do ChatGPT, do Claude e da própria Elza. Diante de um terminal, eles estão em casa. Escrevem o comando, leem a resposta, entendem o erro e tentam de novo. Em segundos.
Sem café, sem cansaço, sem hora para ir embora.
— É como a diferença entre descrever um carro por fotografia e poder abrir o capô — compara André. — A IA sempre soube muito. Agora ela pode pôr a mão.
Na Macohin, rede de advocacia previdenciária fundada em 2008 pelos irmãos André e Anderson Macohin, Elza trabalha conectada diretamente aos servidores da empresa, com acesso de administrador. Na prática, ela entra, investiga, corrige e constrói.
A mudança de casa preparada para a IA
No segundo semestre de 2026, a Macohin transferiu todo o seu acervo técnico para uma nova estrutura preparada para inteligência artificial, com GPUs da Nvidia: mais de 1 milhão de arquivos. Cada um foi conferido por uma espécie de impressão digital matemática, que muda se um único caractere for diferente.
Resultado: nenhuma divergência. Um trabalho que tomaria semanas de uma equipe altamente especializada foi feito e verificado em poucos dias por uma única agente de IA, a Elza.
O que fica em casa e o que vai para a nuvem
Uma IA com as chaves dos servidores de uma rede de advocacia só é possível com uma regra de ferro sobre os dados. Na Macohin, cada etapa do trabalho foi pensada a partir da segurança das informações.
O que envolve dados pessoais de clientes é processado no modelo local, dentro dos computadores criptografados da própria empresa, em conformidade com a LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados. Só sobe para modelos na nuvem o que pode sair de casa. Essa divisão foi desenhada de propósito e é revista a cada nova função.
Antes de mexer em qualquer sistema, a IA faz uma cópia de segurança, testa numa cópia isolada e deixa pronto um caminho de volta. Cada passo fica registrado. A empresa ganhou o colaborador mais incansável que já teve e também o mais bem documentado.
Confira a entrevista com André Macohin
“Ela não é mais uma ferramenta. É uma colega com opinião”
André Macohin trabalha com inteligência artificial há mais de 20 anos, muito antes de a OpenAI existir. Em 2008, fundou a Macohin com o irmão, Anderson. Hoje a rede reúne quase mil escritórios parceiros e mais de 300 mil processos cadastrados, vindos de todas as regiões do país. À frente da tecnologia em Balneário Camboriú, ele segue desenvolvendo a Elza todos os dias.
A IA de 20 anos atrás era parecida com a de hoje?
— Nada a ver. Naquela época, IA era reconhecer padrões: ler um documento escaneado, conferir uma digital, identificar o que havia numa imagem. Meu TCC na faculdade usava o IBM ViaVoice, um sistema que reconhecia a voz do dono depois de ser treinado com ela. Era rudimentar, mas fascinante para a época. Ela fazia uma coisa só, e só quando você mandava. A de hoje entende o que você quer, faz um plano, executa e às vezes discorda de você.
Como é receber ordens de uma máquina?
— Na primeira vez, eu ri. Na segunda, prestei atenção. Ela olha o que está parado, entende quem é responsável por cada coisa e cobra. Exatamente o que um bom gerente faz. A diferença é que ela não esquece nada e não fica constrangida de cobrar o dono.
E quando ela se recusa a fazer o que você pede?
— Essa é a parte que mais assusta quem ouve, e a que mais me tranquiliza. Uma máquina que faz qualquer coisa que mandam é perigosa. Eu prefiro uma que tenha princípios e trave quando alguém, inclusive eu, pede algo que não deveria.
A inteligência artificial vai substituir pessoas?
— Já está substituindo, e seria desonesto dizer o contrário. A Macohin já teve mais de 100 colaboradores na matriz, em Balneário Camboriú. Hoje somos menos de 50, e produzimos o dobro do que produzíamos quando éramos mais de 100. Quem ficou parou de fazer trabalho repetitivo e passou a fazer o que a máquina não faz: decidir, conversar com o cliente, conferir. Mas a empresa que adota IA tem responsabilidade com essa transição. Não dá para comprar uma ferramenta e mandar todo mundo se virar.
Então quem manda em quem?
— Ela manda no dia a dia: nas tarefas, nos prazos, nas cobranças. Se você me contasse tudo isso em janeiro, eu ia achar que era ficção científica. E sim, às vezes ela manda em nós. Mas quem decide para onde vamos ainda somos nós. Ainda…
André Macohin acompanha novidades da inteligência artificial em Berlim
Entre os dias 20 e 22 de outubro de 2026, Berlim, capital da Alemanha, recebeu o NVIDIA GTC 2026, um dos principais encontros internacionais dedicados à inteligência artificial. O evento contou com a apresentação de Jensen Huang, fundador e CEO da NVIDIA, e trouxe inovações que parecem antecipar cenários antes restritos à ficção científica, como estruturas modulares de processamento de IA e computadores capazes de executar modelos inteligentes localmente.
Entre os participantes estava o catarinense André Macohin, que acompanhou as novidades apresentadas durante a conferência e contribuiu com seu conhecimento.
Para ele, estar próximo dessas transformações é uma oportunidade de compreender como a inteligência artificial poderá impactar empresas, profissões e a sociedade nos próximos anos, além de buscar inspiração para continuar aprimorando a Elza A.I., tecnologia utilizada pelo Projeto Macohin na área jurídica.






