A casca do jambo tem 30 vezes mais antocianinas que a polpa, e quase todo mundo joga fora

Análises da fruta apontam alto teor de vitamina C e antocianinas, concentrados sobretudo na casca. Os estudos, porém, ainda são preliminares.

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beneficios da fruta jambo

A casca do jambo concentra antocianinas e vitamina C em quantidades bem superiores às da polpa (Foto: Reprodução)

O jambo é aquela fruta de quintal que quase ninguém compra no mercado e muita gente comeu na infância. Vermelha por fora, branca e aquosa por dentro, com cheiro de flor. Nos últimos anos ela virou assunto recorrente na internet, quase sempre associada à saúde do coração.

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Vale separar o que as análises da fruta realmente mostram do que virou promessa. E, no caminho, aparece um detalhe prático que costuma passar batido: a parte mais rica do jambo é justamente a que a maioria das pessoas descarta.

Existe mais de um jambo

Antes dos números, uma confusão que atrapalha qualquer busca sobre o assunto. “Jambo” é nome popular de espécies diferentes.

O mais comum no Brasil é o jambo-vermelho (Syzygium malaccense), de casca vermelho-escura e polpa branca. Há também o jambo-rosa (Syzygium jambos), menor e mais claro. Os dois são da família Myrtaceae, a mesma da goiaba, da pitanga e da jabuticaba, e vieram do Sudeste Asiático.

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Nenhum dos dois é o jambolão (Syzygium cumini), aquela frutinha roxa que mancha a calçada e é comum em Florianópolis e Joinville. É parente, mas é outra espécie, com outra composição.

Os dados a seguir são do jambo-vermelho.

A casca concentra quase tudo

Um estudo publicado na revista Ciência e Tecnologia de Alimentos analisou separadamente a polpa e a casca do jambo-vermelho. O contraste é grande.

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A polpa representa cerca de 75,69% do fruto e é composta majoritariamente por água, com 84,57 g de água a cada 100 g. Já a casca, que corresponde a 8,05% da polpa, concentra 9,34 g de fibras, 292,59 mg de vitamina C e 300,54 mg de antocianinas por 100 g. SciELO Brazil

Para efeito de comparação, os pesquisadores calcularam que a casca sozinha fornece 390% da Ingestão Diária Recomendada de vitamina C e 37% da ingestão adequada de fibras. SciELO Brazil

As antocianinas são os pigmentos que dão a cor vermelha. São os mesmos compostos presentes na casca da jabuticaba e da uva roxa, estudados por sua ação antioxidante.

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Ou seja: comer o jambo com casca muda bastante o aproveitamento nutricional da fruta. Descascar significa ficar quase só com água.

O estudo também registrou pH 3,5 na casca, o que a classifica como muito ácida e explica por que ela funciona bem em geleias, ajudando na acidificação, e em sucos, aumentando o rendimento. SciELO Brazil

O que mais foi encontrado na fruta

Uma dissertação defendida na Universidade Federal do Paraná caracterizou o jambo-vermelho liofilizado, ou seja, desidratado por congelamento. A análise encontrou 196,77 mg de vitamina C por 100 g na porção comestível, 202,30 mg de compostos fenólicos totais, além de carotenoides, com 5,14 mg de betacaroteno e 4,29 mg de licopeno por 100 g. O trabalho também avaliou toxicidade preliminar e não considerou a fruta tóxica, com LC50 acima de 1000 µg/mL. Acervo Digital

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Uma observação de método importante: parte dessas análises foi feita com a fruta desidratada, então os valores não são diretamente comparáveis aos da fruta fresca, que tem muito mais água. Números de composição também variam conforme variedade, ponto de maturação, solo e método de análise. Por isso as tabelas que circulam por aí divergem tanto entre si.

Onde a evidência para de valer

Aqui é onde a maior parte do que circula na internet sobre o jambo exagera.

Uma revisão publicada em 2023 sobre as características botânicas, nutricionais e bioativas do jambo-vermelho aponta que a casca e a semente contêm compostos fenólicos, antocianinas e vitaminas associados a propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias, antitumorais, antimicrobianas e antidiabéticas, e que todas as partes da árvore são usadas na medicina tradicional. A mesma revisão registra que ainda são necessários mais estudos para confirmar essas propriedades. Atena Editora

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O padrão se repete em trabalhos mais recentes. Um estudo publicado na Ciência Rural analisou a farinha da semente do jambo e encontrou alto teor de fibras, compostos fenólicos, taninos e flavonoides, com forte atividade antioxidante, inibição de bactérias como Salmonella enterica e Listeria monocytogenes e aumento da captação de glicose. Os próprios autores concluem que estudos in vivo e toxicológicos adicionais são necessários para confirmar segurança e eficácia. SciELO Brazil

Traduzindo: os achados vêm de análises da composição química da fruta e de testes em laboratório, não de ensaios clínicos que tenham acompanhado pessoas comendo jambo e medido desfechos como infarto ou pressão arterial. Não existe estudo mostrando que comer jambo previne infarto.

Isso não desqualifica a fruta. Ela tem composição interessante e entra bem numa alimentação variada. Só não é remédio, e nenhum alimento isolado substitui acompanhamento médico, medicação prescrita ou mudança de hábitos.

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Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, as doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte no Brasil, e a prevenção passa por um conjunto de fatores: controle de pressão e colesterol, atividade física, sono, tabagismo e alimentação como um todo.

Onde encontrar e como consumir

O jambeiro é árvore de clima tropical e subtropical, chega a 15 metros e é mais comum no Norte e no Nordeste, embora apareça em quintais e em arborização urbana de áreas litorâneas mais quentes. A colheita costuma se concentrar entre janeiro e maio.

A fruta estraga rápido e não tem cadeia comercial estruturada, o que explica por que raramente aparece em supermercado. Quem tem acesso costuma ser por pé de quintal, feira livre ou vizinho.

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Formas de consumo, segundo a literatura sobre a espécie: in natura com casca, em sucos, saladas de fruta, geleias, compotas, sorvetes e fermentados. Como a casca é a parte mais rica e a fruta é bastante ácida, geleias e compotas aproveitam bem o fruto. Vale lembrar que adicionar muito açúcar compromete parte do sentido nutricional do preparo.

Quem deve ter cautela

Pessoas com restrição alimentar prescrita, doença renal, diabetes ou histórico de alergia a frutas da família Myrtaceae devem conversar com médico ou nutricionista antes de incluir a fruta na rotina. Frutas ácidas também podem incomodar quem tem gastrite ou refluxo.

As informações desta reportagem têm caráter informativo e não substituem consulta, diagnóstico ou tratamento médico.