Desafio invisível: a corrida para fazer o sistema de esgoto acompanhar a verticalização em Balneário Camboriú

Em Balneário Camboriú, o desafio é garantir que a infraestrutura de saneamento acompanhe o ritmo da verticalização e o crescimento da população

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Entre moradores e turistas, a população de Balneário Camboriú pode chegar a 350 mil pessoas no fim do ano, número que pressiona a infraestrutura de saneamento (Foto: PMBC, Arquivo)

Em pouco mais de seis décadas de emancipação, Balneário Camboriú deixou para trás a imagem de uma modesta vila pesqueira, onde predominavam casebres de madeira em meio a uma área ainda pouco ocupada, para se tornar uma potência do mercado imobiliário e da construção civil. Referência nacional pelos arranha-céus que desenham o horizonte da cidade, o município ganhou o apelido de “Dubai brasileira” e passou a ostentar alguns dos edifícios mais altos do país.

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Mas a cidade que cresceu para cima também enfrenta o desafio de garantir que a infraestrutura acompanhe essa expansão. Em meio à selva de pedra, o abastecimento de água e, principalmente, a coleta e o tratamento de esgoto precisam atender à demanda de uma população que cresce e ocupa cada vez mais o território urbano.

Moradores e turistas pressionam o sistema

A demanda por saneamento em Balneário Camboriú não se limita aos moradores que vivem na cidade durante o ano inteiro. Ostentando o título de Capital Catarinense do Turismo e reconhecida nacionalmente pelas belezas naturais, vida noturna e a concentração de grandes edifícios residenciais, o município recebe milhares de visitantes na alta temporada, aumentando o número de pessoas que dependem dos serviços de abastecimento de água e tratamento de esgoto.

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De acordo com a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Balneário Camboriú tem aproximadamente 154.525 habitantes. Porém, durante a temporada de verão, esse número aumenta consideravelmente. Segundo Auri Pavoni, diretor-geral da Empresa Municipal de Água e Saneamento (Emasa), entre o Natal e o fim do ano, a população presente na cidade pode chegar a 340 mil ou 350 mil pessoas.

Atualmente, a estação de tratamento recebe, em média, 448 litros de esgoto por segundo, o equivalente a aproximadamente 39 milhões de litros por dia. De acordo com Pavoni, considerando uma produção média de 140 litros de esgoto por pessoa diariamente, esse volume corresponde ao esgoto gerado por cerca de 276 mil habitantes. O diretor ressalta que essa equivalência não representa a população real do município.

Apesar da pressão provocada pelo crescimento urbano e pelo aumento sazonal da população, Pavoni afirma que o principal gargalo atual está na conexão entre as redes de esgoto e de drenagem pluvial, problema que se torna mais evidente em dias de chuva. “Hoje, o nosso maior problema não é o número de pessoas, e sim o cruzamento do cloacal com o pluvial”, explicou o diretor, ao apontar as ligações entre os sistemas como um dos desafios que a empresa busca resolver.

Investimentos buscam acompanhar o crescimento da cidade

Para enfrentar o problema, a Emasa contratou uma empresa que deverá identificar e corrigir as ligações entre as redes de esgoto e de drenagem pluvial. De acordo com Pavoni, o trabalho tem prazo estimado de cerca de dois anos e meio para avançar na separação dos sistemas, uma medida considerada prioritária para melhorar o funcionamento da estrutura de saneamento.

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O diretor-geral também informou que a eficiência do tratamento de esgoto está acima de 80% desde março de 2025. Além das ações para corrigir as ligações entre as redes, a empresa planeja ampliar a estrutura de tratamento para atender ao aumento da demanda nos próximos anos.

A proposta é substituir o sistema atual por uma estrutura com tanques e ultrafiltração, com capacidade prevista de 720 litros de esgoto por segundo, o equivalente a cerca de 52 milhões de litros por dia. Segundo Pavoni, a previsão é que as obras levem aproximadamente dois anos.

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A expectativa é que a nova estrutura consiga acompanhar o crescimento de Balneário Camboriú pelas próximas décadas. “A gente vai ter capacidade para atender a cidade pelos próximos 15 a 20 anos”, afirmou o diretor, ao explicar a perspectiva com os investimentos planejados.

Além do esgotamento sanitário, o abastecimento de água exige atenção diante do crescimento urbano e do aumento expressivo da população durante o verão. Entre as medidas citadas por Pavoni estão a ampliação da capacidade de armazenamento, com um novo reservatório de 5,5 milhões de litros previsto para o fim de 2027, e melhorias na estrutura de captação e tratamento de água.

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Por trás das fachadas, o desafio que ninguém vê

Por trás das fachadas imponentes dos arranha-céus de Balneário Camboriú, existe uma infraestrutura que precisa acompanhar o crescimento da cidade. Antes mesmo de um prédio sair do papel, questões como o abastecimento de água e a coleta de esgoto precisam entrar no planejamento. Para entender como essa relação funciona na prática, também é preciso olhar para quem está à frente dos empreendimentos imobiliários.

Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Balneário Camboriú e Camboriú (Sinduscon), João Paulo Packer Silva, a verticalização faz parte da formação urbana do município, que tem território limitado e concentra grande parte da população em apartamentos. Segundo ele, esse modelo permite concentrar a ocupação urbana e preservar outras áreas. “Balneário Camboriú tem uma característica histórica de verticalização, até pela limitação territorial. É uma forma de concentrar a ocupação urbana e preservar outras áreas”, avalia.

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Em relação ao saneamento, o sindicato afirma que os empreendimentos precisam passar por uma consulta de viabilidade junto à Emasa. O documento informa as condições para o abastecimento de água e a coleta de esgoto e faz parte do processo de aprovação dos projetos.

O volume de construções ajuda a dimensionar a importância desse planejamento. Segundo levantamento periódico da Alphaplan, citado pelo Sinduscon, Balneário Camboriú tem cerca de 140 empreendimentos ativos, incluindo lançamentos, obras em andamento, imóveis recém-entregues e projetos que ainda possuem unidades disponíveis.

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O levantamento também aponta aproximadamente 1,5 mil unidades em estoque, número que, segundo a entidade, está entre os mais baixos da região. O sindicato não possui, porém, um levantamento consolidado de todos os projetos aprovados ou de todas as novas unidades imobiliárias da cidade.

Apesar da necessidade de manter a infraestrutura preparada para a expansão urbana, o Sinduscon avalia de forma positiva a perspectiva do saneamento no município. Entre os investimentos destacados pela entidade estão a nova estrutura de pré-tratamento de esgoto na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Nova Esperança, com recursos superiores a R$ 40 milhões da Emasa, e a construção de uma estação compacta de tratamento.

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A entidade também cita o projeto do Parque Inundável Multiuso, em Camboriú, que busca reter água da chuva em períodos de precipitação intensa e contribuir para a regularização da vazão do Rio Camboriú em épocas de estiagem. A iniciativa pode ajudar tanto na prevenção de alagamentos quanto no abastecimento de água de Balneário Camboriú e Camboriú.

Para João Paulo, o desenvolvimento imobiliário precisa continuar acompanhado de planejamento permanente e diálogo entre o poder público e os setores envolvidos. “A gente precisa de planejamento contínuo e diálogo com o poder público e as instituições para discutir questões como saneamento, energia, mobilidade e infraestrutura”, afirma.

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Saneamento também entra no debate sobre gestão pública

Se, para o setor da construção civil, o planejamento da infraestrutura precisa acompanhar a expansão imobiliária, para o vereador Marcelo Achutti (MDB) a discussão também passa pela gestão dos serviços de saneamento e pelos investimentos necessários para atender à cidade no futuro.

O parlamentar é autor do Projeto de Lei Ordinária nº 14/2026, que propõe proibir a privatização dos serviços de captação, tratamento e distribuição de água, além do saneamento básico em Balneário Camboriú. O texto estabelece que esses serviços devem permanecer sob gestão pública direta, com o objetivo de preservar o interesse coletivo e ampliar o acesso da população.

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Ao defender a iniciativa, Achutti afirma que a água e o saneamento são serviços essenciais, que precisam ser administrados pensando no interesse coletivo e nas necessidades futuras da população. Segundo ele, a intenção é estabelecer uma proteção legal que permaneça mesmo diante de mudanças no governo municipal. O vereador ressalta que o projeto não significa que a atual administração tenha planos de privatizar a Emasa.

A discussão sobre a gestão, porém, é apenas uma parte da preocupação do parlamentar. Achutti também chama atenção para a necessidade de planejar a infraestrutura de saneamento junto com o crescimento imobiliário, considerando o impacto de cada novo empreendimento sobre o consumo de água e a geração de esgoto.

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“A cada prédio que é construído, você coloca mais pessoas na cidade, aumenta o consumo de água e também a geração de esgoto. Balneário Camboriú avançou muito, mas precisa continuar investindo e planejando o futuro. A gente não pode primeiro construir e depois perguntar se tem água, se tem esgoto e se tem capacidade para atender. Essas coisas precisam ser planejadas juntas”, afirma.

Para o vereador, esse planejamento precisa considerar as próximas décadas, com investimentos na ampliação do abastecimento, da coleta e do tratamento de esgoto. Ele defende que os recursos da Emasa sejam direcionados à melhoria dos serviços e à preparação da estrutura para acompanhar a expansão urbana.

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O saneamento no ritmo da verticalização

Enquanto novos empreendimentos ganham espaço na selva de pedra, a “Dubai brasileira” trabalha para garantir que a infraestrutura acompanhe o crescimento da cidade. A ampliação da capacidade de tratamento de esgoto, a construção de um novo reservatório de água e a correção de ligações entre as redes estão entre as medidas previstas pela Emasa para atender à demanda atual e futura.

Mas o desafio vai além das obras. Como apontam o setor da construção civil e o vereador Marcelo Achutti, o planejamento precisa caminhar junto com a expansão imobiliária, considerando o impacto de cada novo empreendimento sobre os serviços essenciais. É uma preocupação que envolve tanto a capacidade de atendimento quanto as decisões sobre como o saneamento será administrado.

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Em uma cidade que transformou os arranha-céus em marca registrada, o crescimento não depende apenas do que aparece no horizonte. Também exige uma estrutura capaz de sustentar a vida entre esses edifícios, com investimentos contínuos e planejamento para que a verticalização não avance mais rápido do que a infraestrutura necessária para atendê-la.