Dois mil metros de rocha acima: o túnel que leva água da Amazônia para o deserto peruano

O Peru furou os Andes para irrigar um deserto, e a conta triplicou no caminho

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A obra que transformou deserto em lavoura no Peru, e a disputa sobre quem ficou com a terra (Foto: Odebrecht)

Uma obra de engenharia de quase 20 quilômetros mudou o destino de uma região árida do Peru. Em vez de deixar a água seguir seu curso natural em direção à bacia amazônica, engenheiros construíram um caminho subterrâneo através da cordilheira dos Andes para levá-la até terras que precisavam de irrigação.

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O resultado foi o projeto Olmos, localizado na região de Lambayeque, no norte peruano. A iniciativa permitiu transformar milhares de hectares de solo desértico em áreas destinadas à agricultura comercial, com produção de frutas e hortaliças para mercados internacionais.

A obra chama a atenção não apenas pelas dimensões do túnel, mas também pela solução adotada para enfrentar um dos principais obstáculos da agricultura em regiões áridas: a falta de água.

Como o Peru atravessou os Andes para irrigar o deserto

O projeto Olmos foi desenvolvido para transportar água da vertente atlântica dos Andes até a costa do Pacífico. Essa transferência tornou possível aproveitar parte dos recursos hídricos de uma região montanhosa para abastecer áreas agrícolas em uma zona de clima extremamente seco.

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O rio Huancabamba é uma peça central desse sistema. Suas águas correm naturalmente pela vertente oriental da cordilheira, em direção à bacia amazônica.

Com a construção de uma estrutura capaz de atravessar a montanha, o projeto criou uma alternativa para conduzir parte desse fluxo até o outro lado dos Andes.

Na prática, a obra permitiu levar água a uma região em que a escassez de chuvas limita o desenvolvimento de grandes plantações. A irrigação passou a oferecer condições para organizar o cultivo em escala comercial.

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Por que a região de Lambayeque foi escolhida?

A região de Lambayeque fica no norte do Peru e apresenta características favoráveis à agricultura irrigada. O clima seco e a disponibilidade de áreas extensas permitem planejar cultivos com maior controle sobre o fornecimento de água.

O problema é que essas vantagens naturais não bastam quando a chuva é insuficiente para sustentar as plantações.

Sem um sistema de irrigação, a produção agrícola em grandes extensões fica limitada pela quantidade de água disponível. O projeto Olmos foi concebido justamente para reduzir essa barreira.

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O túnel de 19,3 quilômetros que atravessa a cordilheira

Um dos elementos mais impressionantes do projeto é o túnel transandino, com aproximadamente 19,3 quilômetros de extensão.

A estrutura foi projetada para atravessar a rocha dos Andes e permitir a transferência de água entre vertentes da cordilheira. A escavação exigiu equipamentos de grande porte e planejamento técnico para enfrentar as condições geológicas da região.

A perfuração foi concluída em 20 de dezembro de 2011, após uma etapa de engenharia que marcou um dos momentos mais importantes da obra.

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O projeto contou com participação brasileira: a construtora Odebrecht ficou responsável pela construção do túnel, em um empreendimento que exigiu conhecimentos especializados de engenharia e infraestrutura hidráulica.

O que mudou com o projeto Olmos?

O projeto Olmos viabilizou a expansão da agricultura irrigada em aproximadamente 43.500 hectares, segundo os dados apresentados para o empreendimento.

A transformação é significativa porque permite utilizar terras que, sem o fornecimento regular de água, teriam capacidade muito mais limitada de sustentar plantações comerciais.

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Com a irrigação, produtores podem organizar ciclos de cultivo e planejar a produção de acordo com as necessidades de cada cultura. Isso também cria condições para desenvolver cadeias de abastecimento voltadas ao mercado externo.

Dois mil metros de rocha acima da cabeça

O que torna o túnel transandino excepcional não é o comprimento, e sim a profundidade. Em alguns trechos, a escavação corre sob cerca de 2 mil metros de rocha, o que exigiu equipamentos de grande porte e colocou a obra entre os túneis de transferência de água mais profundos já construídos.

A perfuração foi concluída em 20 de dezembro de 2011, mas o conjunto do sistema de transvase só ficou pronto em 2014.

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Uma conta que triplicou

O componente de transvase foi contratado em 2004 por cerca de 184 milhões de dólares. A obra terminou com custo próximo de 580 milhões, mais de três vezes o valor inicial.

A execução ficou a cargo da Concesionaria Trasvase Olmos, do grupo brasileiro Odebrecht, enquanto a parte de irrigação coube à H2Olmos, também ligada ao grupo.

A participação da empresa no projeto passou a ser examinada em meio às investigações sobre a atuação da Odebrecht na América Latina. No caso específico de Olmos, a Contraloría do Peru identificou favorecimento a uma empresa vinculada ao grupo na venda de lotes agrícolas do empreendimento.

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Quem ficou com a terra

Dos 43,5 mil hectares viabilizados, cerca de 38 mil eram terras novas, pertencentes ao governo regional de Lambayeque e vendidas em leilão. Os lotes, de grande extensão, foram adquiridos sobretudo por grupos do agronegócio voltado à exportação.

Os 5,5 mil hectares restantes correspondem ao Valle Viejo e a áreas da comunidade campesina Santo Domingo de Olmos.

Essa divisão é o principal ponto de crítica ao projeto. Pesquisadores do Centro Peruano de Estudios Sociales analisaram o caso como exemplo de injustiça hídrica, argumentando que a água desviada beneficiou majoritariamente grandes produtores, enquanto a população local do entorno teve acesso limitado à terra irrigada.

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Há ainda o outro lado da transferência: a água retirada do rio Huancabamba deixa de seguir para a bacia amazônica, o que afeta as comunidades da vertente oriental.

Veja também: A ganância humana secou um dos maiores lagos do mundo; agora, o plantio em 1,7 milhão de hectares tenta conter a tragédia ambiental.