O fechamento temporário da passarela da Garganta do Diabo, no lado argentino das Cataratas do Iguaçu, colocou em evidência o principal atrativo do parque. Nesta segunda-feira (3), o Parque Nacional Iguazú anunciou que a estrutura ficaria fechada até dezembro, como medida de segurança para as cheias no rio ocasionadas pelo fenômeno El Niño. Muito além da ponte que leva os turistas até a borda da queda, a Garganta do Diabo é um local místico que reúne milhões de anos de história e se consolidou como um dos mais importantes símbolos das cataratas.
A passarela da Garganta do Diabo integra o sistema de visitação implantado durante a modernização do Parque Nacional Iguazú, na segunda metade da década de 1990. A estrutura metálica foi projetada para levar os visitantes até um mirante instalado sobre a borda da principal queda d’água do parque, permitindo uma vista privilegiada do salto de cerca de 80 metros de altura.
Construída sobre pilares de concreto fixados no leito do Rio Iguaçu, a passarela foi pensada para suportar as variações do nível da água e facilitar intervenções em períodos de cheia. O projeto modular permite a retirada ou substituição de trechos da estrutura, reduzindo os danos provocados por enchentes e agilizando a recuperação do atrativo.
Mesmo assim, a passarela já precisou ser reconstruída em diferentes ocasiões após grandes cheias. A mais recente ocorreu depois da enchente histórica de outubro de 2023, quando cerca de 90% dos 1,2 quilômetro de estrutura foram danificados e precisaram ser refeitos antes da reabertura ao público, em julho de 2024.
Como a Gargante do Diabo se formou
A Garganta do Diabo é a maior queda d’água das Cataratas do Iguaçu. Com formato de “U”, ela tem cerca de 80 metros de altura e 150 metros de largura, concentrando o maior volume de água de todo o complexo. O parque é formado por mais de 270 quedas distribuídas ao longo de quase 2,7 quilômetros na fronteira entre Brasil e Argentina.
Sua origem remonta a cerca de 120 a 130 milhões de anos, quando intensos fenômenos vulcânicos, provocados pela separação dos continentes sul-americano e africano, deram origem a sucessivos derrames de lava basáltica. Ao longo de milhões de anos, a erosão causada pelas águas do Rio Iguaçu esculpiu as rochas e formou os degraus naturais que hoje compõem as cataratas.
Outro fator decisivo para a formação da Garganta do Diabo foi a diferença de nível entre os rios Iguaçu e Paraná. Com o aprofundamento do leito do Rio Paraná ao longo do tempo, as águas do Iguaçu passaram a despencar em sua foz, dando origem ao conjunto de quedas que se tornou uma das maiores maravilhas naturais do planeta.
História da Garganta do Diabo
A grandiosidade da paisagem impressiona há séculos. O primeiro registro feito por europeus ocorreu em 1542, quando o explorador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca atravessou a região durante uma expedição rumo a Assunção, no atual Paraguai. Em seus relatos, descreveu a força e a beleza das quedas, tornando as Cataratas do Iguaçu conhecidas no mundo ocidental.
Muito antes da chegada dos colonizadores, os povos indígenas já atribuíam um significado sagrado ao local. Segundo a lenda guarani, a Garganta do Diabo surgiu quando o deus-serpente Mboi, enfurecido com a fuga dos apaixonados Naipi e Tarobá, abriu uma enorme fenda no rio. Na narrativa, Naipi foi transformada em uma rocha no meio das cataratas, enquanto Tarobá virou uma palmeira à beira do abismo.
É justamente sobre esse cenário que foi construída a passarela do lado argentino, agora desmontada preventivamente. Com mais de um quilômetro de extensão, a estrutura atravessa o Rio Iguaçu e leva os visitantes até um mirante instalado praticamente sobre a borda da Garganta do Diabo. Durante a desmontagem, serão retiradas as grades e plataformas metálicas, permanecendo apenas os pilares de concreto.
No lado brasileiro, a visita ocorre por uma passarela panorâmica que termina em um mirante em frente à Garganta do Diabo, proporcionando uma vista ampla das quedas. Como a estrutura está instalada em um trecho menos vulnerável às cheias do Rio Iguaçu, o funcionamento segue normal, sem necessidade de desmontagem.
Os parques nacionais que preservam as Cataratas do Iguaçu foram criados na década de 1930. O parque argentino recebeu o título de Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco em 1984, enquanto o parque brasileiro conquistou o mesmo reconhecimento em 1986. Hoje, a Garganta do Diabo permanece como o principal símbolo desse patrimônio natural e um dos destinos turísticos mais visitados da América do Sul.







