Após desaparecer de floresta brasileira, tucano voltou à natureza e recuperou uma função que pode ajudar árvores a nascer longe de suas origens 

Reintroduzidas na Floresta da Tijuca, as aves recuperaram 76% das interações esperadas com frutos e ajudam a manter a vegetação.

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Ave registrada no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde a espécie voltou a viver após sua reintrodução. (Foto: Flávia Zagury/Instituto de Biologia da UFRJ)

Uma espécie de tucano que havia desaparecido da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, voltou a desempenhar um papel importante para a vegetação depois de ser reintroduzida na natureza. Mais de cinco décadas após a soltura de 47 aves, pesquisadores descobriram que os animais recuperaram 76% das interações esperadas com frutos, contribuindo para a dispersão de sementes.

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O resultado faz parte de um estudo conduzido por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Oikos. A pesquisa analisou o comportamento do tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel) e revelou que a recuperação de uma floresta depende mais do que do crescimento das árvores.

A descoberta também chama a atenção para a conservação da Mata Atlântica, bioma que se estende até Santa Catarina e abriga uma grande diversidade de animais e plantas.

Por que os tucanos desapareceram?

O tucano-de-bico-preto foi considerado desaparecido da Floresta da Tijuca em 1968. Entre os fatores apontados pelos pesquisadores estão a caça, o desmatamento e a fragmentação da vegetação, que prejudicaram a sobrevivência das aves.

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A própria floresta já havia enfrentado um longo período de destruição. Durante o século XIX, grandes áreas foram derrubadas para o cultivo de café. A partir de 1861, por determinação de D. Pedro II, teve início um processo de reflorestamento para recuperar a mata e proteger o abastecimento de água do Rio de Janeiro.

Embora as árvores tenham voltado a crescer, muitos animais continuaram ausentes. Foi nesse cenário que, entre 1970 e 1971, 47 tucanos-de-bico-preto foram soltos em diferentes pontos da Estrada da Vista Chinesa, em uma iniciativa coordenada pelo primatólogo Ademar Coimbra Filho.

Com o passar dos anos, as aves voltaram a ser observadas no parque e em regiões próximas. Ainda faltava descobrir se também haviam recuperado suas funções na natureza.

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Descoberta após 53 anos

Para responder a essa questão, os cientistas realizaram um levantamento das plantas que poderiam fazer parte da alimentação dos tucanos. A análise apontou 101 interações possíveis entre as aves e os frutos encontrados na região.

Em seguida, a equipe passou um ano acompanhando semanalmente o comportamento dos animais na floresta. As observações permitiram identificar quais frutos eram efetivamente consumidos.

Os resultados mostraram que 76% das interações alimentares esperadas haviam sido recuperadas. O desempenho foi ainda maior entre as plantas com sementes médias e grandes.

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Entre as sementes menores que 6 milímetros, a recuperação alcançou 63%. Nas de 6 a 12 milímetros, chegou a 88%. Já entre aquelas maiores que 12 milímetros, o percentual atingiu 89%.

Os números são relevantes porque aves de grande porte, como os tucanos, conseguem consumir frutos com sementes que animais menores muitas vezes não conseguem transportar.

Como as aves ajudam a floresta

Ao comer frutos e se deslocar pela vegetação, os tucanos podem levar sementes para locais distantes das árvores onde se alimentaram. Esse processo, chamado de dispersão de sementes, favorece o estabelecimento de novas plantas e a manutenção da diversidade da floresta.

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A ausência desses animais pode comprometer o equilíbrio da vegetação, mesmo quando as árvores continuam de pé. Os cientistas chamam esse fenômeno de defaunação, caracterizado pela redução ou desaparecimento de espécies animais de determinado ambiente.

A situação ajuda a explicar por que a preservação da fauna é tão importante quanto a recuperação das áreas verdes.

O que isso significa para SC?

Embora tenha sido realizada no Rio de Janeiro, a pesquisa traz informações relevantes para outros territórios cobertos pela Mata Atlântica, incluindo Santa Catarina.

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O Estado conserva importantes áreas desse bioma, mas enfrenta pressões relacionadas ao desmatamento e à perda de habitats. Segundo levantamento, Santa Catarina registrou a perda de 132 hectares de Mata Atlântica entre 2023 e 2024, apesar da redução de 12% no desmatamento em relação ao período anterior.

A importância dessa biodiversidade pode ser observada em áreas de conservação catarinenses. Em Blumenau, o Parque Natural Municipal São Francisco de Assis reúne espécies de fauna e flora em uma área preservada de Mata Atlântica, conforme reportagem do NSC Total.

O desafio de proteger a floresta também envolve a recuperação de áreas degradadas. Em outra reportagem sobre o desmatamento em Santa Catarina, especialistas ressaltaram a necessidade de restaurar trechos da Mata Atlântica que perderam sua cobertura vegetal.

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O estudo da UFRJ não avaliou populações de tucanos em Santa Catarina, mas oferece uma referência para compreender como a recuperação da fauna pode contribuir para a conservação do mesmo bioma em outras regiões do Brasil.

Uma recuperação além das árvores

Os pesquisadores também constataram que os tucanos reintroduzidos conseguem se alimentar e se reproduzir sem ajuda humana, indicando que a população se estabeleceu na região.

Para a equipe, o sucesso de uma reintrodução não deve ser medido somente pela sobrevivência dos animais. É necessário investigar se eles conseguem retomar as relações ecológicas interrompidas após seu desaparecimento.

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Na Floresta da Tijuca, o acompanhamento realizado mais de meio século depois da soltura encontrou evidências dessa recuperação. As aves voltaram a consumir frutos e a participar de interações essenciais para a dispersão de sementes, especialmente daquelas maiores, que dependem de animais capazes de transportá-las.