Como uma ave mergulha a mais de 80 km/h no mar sem se machucar: o segredo está no pescoço

Bico pontiagudo, músculos que travam o pescoço e asas recolhidas permitem que o atobá-do-norte entre na água em alta velocidade e continue caçando a mais de 20 metros de profundidade

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O atobá-do-norte é uma ave marinha conhecida pela habilidade de mergulhar em alta velocidade para capturar peixes no oceano (Foto: Olivier Dugornay/ Wikimedia Commons)

O atobá-do-norte, também conhecido como ganso-patola, mergulha em queda livre para capturar peixes no Atlântico Norte (Foto: Alexis Lours/Wikimedia Commons)

Sobrevoar o oceano em busca de alimento exige precisão, mas uma ave marinha leva essa habilidade a outro nível. O atobá-do-norte (Morus bassanus), também conhecido como ganso-patola, mergulha de cabeça no mar a mais de 80 km/h para capturar peixes e sai ileso do impacto.

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A velocidade é suficiente para causar lesões graves em um corpo que não estivesse preparado. Pesquisadores da Virginia Tech, nos Estados Unidos, investigaram como essas aves conseguem repetir o movimento sem se ferir, e a resposta passa pelo formato da cabeça e, principalmente, pelo pescoço.

Como o atobá-do-norte mergulha

Encontrado principalmente no Atlântico Norte, o atobá-do-norte não pousa na água para procurar comida. Ele identifica os cardumes durante o voo e, quando encontra uma oportunidade, inclina o corpo para baixo e transforma o voo em uma descida quase vertical.

O comportamento é conhecido como plunge diving, expressão em inglês para o mergulho de aves que entram na água diretamente do ar para capturar presas.

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À medida que se aproxima da superfície, a ave recolhe as asas junto ao corpo e alinha a cabeça à trajetória. Com isso, reduz a área que bate na água e evita entrar no mar com as asas abertas, o que poderia machucá-las.

A velocidade depende da altura de onde a ave parte. Segundo o estudo da Virginia Tech, publicado na revista científica PNAS em 2016, aves dessa família podem mergulhar a mais de 50 milhas por hora, cerca de 80 km/h.

As adaptações que protegem a ave do impacto

A proteção não depende de uma única estrutura, mas da combinação entre o formato da cabeça, a postura e a musculatura.

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1. Bico longo e pontiagudo

O bico estreito e alongado funciona como a ponta de uma flecha. De acordo com os pesquisadores, o formato da cabeça do atobá-do-norte reduz o arrasto na entrada na água em comparação com outras aves da mesma família.

2. Pescoço travado no momento certo

Esse é o principal achado do estudo. Ao bater na água em alta velocidade, o maior risco para a ave é o pescoço “flambar”, ou seja, dobrar de forma repentina sob a força do impacto, como uma haste que se curva quando é comprimida.

Para evitar isso, o atobá-do-norte contrai os músculos do pescoço e estica a curva em “S” pouco antes de tocar a superfície. Os pesquisadores também concluíram que o comprimento do pescoço e a geometria da cabeça mantêm a força da água dentro de uma faixa segura nas velocidades típicas de mergulho.

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3. Sem narinas externas

O atobá-do-norte não tem narinas externas, característica que impede que a água seja forçada para dentro da cabeça durante o mergulho, como explica a revista BBC Wildlife.

4. Bolsas de ar sob a pele

A ave também tem divertículos aéreos, bolsas de ar ligadas ao sistema respiratório e distribuídas por regiões como o peito. Essas estruturas costumam ser associadas ao amortecimento do impacto, mas o papel de cada uma na proteção ainda não foi totalmente esclarecido pela ciência.

O que acontece depois que a ave entra no mar

O mergulho não termina quando o corpo desaparece sob a superfície. Depois da entrada, o atobá-do-norte continua perseguindo os peixes embaixo d’água, usando as asas e os pés para nadar e mudar de direção.

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A profundidade varia conforme a presa e o tipo de mergulho. Em estudos com aves que se alimentavam de capelim, um peixe pequeno, no Canadá, pesquisadores registraram mergulhos de mais de 20 metros.

Pesquisa pode ajudar a proteger pessoas

Os resultados também interessam aos seres humanos. Segundo o Smithsonian, instituição que participou do estudo, a ideia dos pesquisadores é usar as descobertas para propor critérios de segurança para mergulhadores e estimar alturas máximas seguras para saltos de penhascos e pontes.

Ao contrário da ave, o corpo humano entra na água de forma pouco eficiente. Os pés, por exemplo, formam uma superfície plana que aumenta a força do impacto e pode causar fraturas e lesões internas.

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Parentes brasileiros usam a mesma técnica

O atobá-do-norte não vive no Brasil, mas parentes próximos dele, sim. O atobá-pardo (Sula leucogaster), comum no litoral do Sudeste e do Nordeste, também localiza os peixes à distância e mergulha em voo reto para capturá-los, engolindo a presa ainda na água antes de voltar a voar.